2017: o ano em que “invadimos” galerias de arte, por Rita Almeida

2017: o ano em que “invadimos” galerias de arte

por Rita Almeida

2017 será lembrado como o ano em que a sociedade brasileira “invadiu” galerias e museus de arte, pena que da pior maneira, se manifestando contra nudez e obras chamadas de imorais.

Freud morreu em 1939 e dedicou toda a sua psicanálise para dizer, basicamente, sobre o quanto a sexualidade é um tema espinhoso para nós, exatamente por denunciar aquilo que mais tememos e negamos: a morte. A sexualidade é a marca da nossa finitude. Aliás, o sexo é a marca da finitude de todos os animais que dependem de tal recurso para perpetuar a espécie. A diferença no humano se dá apenas pelo fato de termos a consciência de tal finitude. Nesse sentido, reprimir a pulsão sexual, em última análise, tem a ver com evitar ter que lidar com a morte. É paradoxal.

Isso quer dizer que devemos libertar nossa sexualidade de qualquer limitação e satisfazer todas as nossas pulsões nesse campo? Também não. Se reprimir a sexualidade é evitar a morte, liberá-la completamente é entregar-se à pulsão de morte. A questão, portanto, é: que contorno daremos para nossa sexualidade? Que arranjo faremos para não reprimi-la a ponto de adoecermos (subjetivamente e socialmente), mas também não deixá-la à deriva em direção à morte?

Apesar de decretarem repetidamente a obsolência de Freud, a questão da sexualidade sempre volta à pauta para demonstrar o quanto a sua psicanálise ainda tem o que dizer. E ela tem a vantagem de tentar dizer algo que escape do discurso moral a fim de se arranjar no campo da ética – a ética do desejo. A ética do desejo se diferencia do discurso moral porque visa implicar o sujeito nas suas escolhas singulares, ainda que tais escolhas não estejam de acordo com as normas morais compartilhadas. É uma ética que permite que, levando em conta os limites da legalidade (que, em geral, delimitam o que seria prejudicial para outrem), algo do singular de cada sujeito possa comparecer.

Exemplo: existem inúmeras regras morais para regular o que, como e quando mostrar ou não mostrar no nosso corpo, ou seja, é muito fácil quebrar regras morais quando o assunto é vestir/despir. Entretanto, se consideramos apenas o ato vestir/despir sem tomar qualquer suposta intenção em jogo, não seríamos capazes de cometer qualquer crime ou ferir qualquer princípio ético compartilhado socialmente, ou seja, é um ato sobre o qual alguém poderia facilmente fazer sua escolha singular sem ferir ou trazer malefícios a outrem. Afinal, é possível estar fora da moral sem estar fora da lei ou da ética.

Agora fica fácil compreender o que ganhamos quando – em se tratando de sexo – procuramos nos regular pelas leis e pela ética, e não pela moral. Ganhamos em amplitude e alargamento da nossa possibilidade de vida, ganhamos em saúde (pessoal e coletiva). Ou seja, se é certo que temos que regular nossas pulsões que a façamos dentro de um espectro mínimo necessário para manter os laços sociais e o funcionamento da sociedade, todo o restante é totalmente possível deixar sob a responsabilidade ética de cada um, sem nenhum prejuízo para o tecido social. E o melhor de tudo é que paramos de gastar energia com temas morais sem grande importância para focar naquilo que, de fato, traz prejuízo para nós e para nossa sociedade. Sim! É tudo uma questão de economia psíquica e de economia de libido. (Freud, seu lindo! Te amo!)

Agora que sabemos que a direção da libido é uma questão de economia, também fica fácil pensar onde a sexualidade vai mais facilmente desembocar na perversão, na depravação, no abuso ou na violência. É exatamente lá onde ela está mais reprimida e cerceada pela moralidade, e não onde ela arranja meios de ser contornada, canalizada ou sublimada. Não é por acaso que diariamente temos notícias de abuso sexual nos bastidores das igrejas dos mais variados credos, e NENHUM que tenha acontecido numa galeria de arte à vista de todos. Isso indica o quanto precisamos de nus e sexo no campo da arte.

Então tudo bem se a gente focar nossas energias libidinais contra esse governo golpista que está estuprando a classe trabalhadora, fodendo com os programas sociais e prostituindo o Congresso Nacional a fim de se manter no poder, já que tem apenas 3% de aprovação popular? Tudo bem se a gente gastar nossa energia pessoal e social com o que está quebrando todos os princípios éticos responsáveis por manter o tecido social saudável, e deixar de se ocupar tanto em ver imoralidade na performance de um homem nu?

O Brasil agradece

E nossas crianças também

*O texto terminou, mas eu não poderia deixar de chamar a atenção para um detalhe. Se alguém estava certo em afirmar que a performance do nu do artista no MAM não era arte, agora terá que pensar melhor. O impacto que a obra causou, alcançando inclusive o espaço fora do museu, pode ter sido decisivo para o nu cumprir sua função de arte, que não é necessariamente exalar beleza, mas, sobretudo, causar incômodo, interrogar e desconstruir. Em 1917, Marcel Duchamp mudou o rumo da arte levando um urinol comprado numa loja de material de construção para dentro de uma galeria de arte. A obra nomeada como: “A fonte”, causou um rebuliço e uma enorme discussão sobre se aquilo era arte ou não, a ponto de se tornar um divisor de águas. A provocação de Duchamp é que transformou um urinol em arte. Assim sendo, a performance do nu no MAM talvez tenha sido mais arte do que pretenderia a princípio, muito mais pelo mal-estar que causou. De toda forma, a arte deu seu recado: somos mais moralistas do que acreditávamos ser.

 

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