A contraditória defesa da soberania nacional, por Durval Muniz

Causa perplexidade que um governo que têm na defesa da soberania nacional a sua própria razão de existir, seja claramente subserviente, entregando setores estratégicos de nossa economia e de nossas riquezas aos capitais estrangeiros

A defesa da soberania nacional

Por Durval Muniz de Albuquerquer Jr

Da agência Saiba Mais

Na entrevista que concedeu essa semana ao Diário do Centro do Mundo e ao Tutameia, blogs da imprensa alternativa, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva colocou a questão da soberania nacional como aquele tema que pode unificar a atuação de uma grande frente de oposição ao governo Bolsonaro e ao crescimento da extrema-direita. Com sua sabedoria política inegável, Lula chama atenção para a necessidade das esquerdas retirarem das mãos da direita a sua falaciosa defesa da nação, quando ela, ao mesmo tempo, realiza políticas extremamente lesivas aos interesses nacionais.

São aqueles que raptaram para si as cores da bandeira nacional, que transformaram a camisa da seleção brasileira de futebol em uniforme de seus protestos, que sob o lema “o Brasil acima de tudo” vêm adotando sistematicamente medidas contra os interesses nacionais. Causa perplexidade, inclusive ao ex-presidente, que um governo integrado por grande número de membros das Forças Armadas, que têm na defesa da soberania nacional, na defesa das riquezas e interesses nacionais, a sua própria razão de existirem, seja um governo claramente integrista, subserviente aos interesses norte-americanos, entregando setores estratégicos de nossa economia e de nossas riquezas aos capitais estrangeiros.

Como argumenta Lula, a defesa da soberania nacional, do posicionamento altivo do Brasil no cenário internacional, um dos grandes legados de seu governo e dos governos da presidenta Dilma, tem o condão de articular todas as demandas que hoje emanam da sociedade brasileira e pode ser a bandeira a unificar as forças políticas de esquerda e mesmo de centro que estejam preocupadas com a perda de prestígio e de protagonismo do país na cena internacional. A escolha de um chanceler completamente despreparado, com ideias e posições delirantes, em total descontinuidade com a tradição diplomática brasileira, deixando se levar por uma atuação completamente dominada pela paixão ideológica e não pela racionalidade e pelo pragmatismo, que sempre foi a marca da diplomacia brasileira, mesmo em tempos de ditadura, deixa claro que o governo Bolsonaro é uma séria ameaça à inserção soberana do Brasil no mundo e vai levando o país a se tornar um pária na cena diplomática internacional, prejudicando não só as nossas relações bilaterais, as nossas relações políticas, mas também, de forma acentuada, nossos interesses econômicos, na difícil disputa por mercados e por investimentos na cena internacional.

A luta pela soberania nacional tem implicações, portanto, imediatas no campo econômico, onde o processo de desindustrialização do país, que já vem se dando, pode se acelerar à medida em que o governo não cria um ambiente favorável aos negócios, com a clara ausência de um projeto e de uma política econômicos consistentes e à medida em que com sua inabilidade na cena internacional venha a provocar conflitos com alguns dos principais compradores de nossas mercadorias e serviços, como a China e a Rússia (que são vítimas do discurso anticomunista primário e delirante do chefe da diplomacia e do chefe de governo do Brasil), como os países árabes (dado o desastrado reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel e o discurso islamofóbico da troica bolsonarista). O afastamento do país dos Brics, o desmantelamento da Unasul, as críticas em relação ao Mercosul, o afastamento do país em relação a África, dado o racismo estrutural desse governo, seu desprezo pelos países vizinhos, inclusive com a adoção inusitada de atitudes intervencionistas e até hostis em relação a esses países (a irresponsável ameaça de intervenção militar na Venezuela, a visita ao Chile onde se elogia o ditador e a ditadura a contragosto do próprio governo chileno, a ida a Argentina para interferir nas eleições do país vizinho), são atitudes que podem acelerar a migração das empresas multinacionais para outros países. Nem mesmo a brutal precarização das relações de trabalho, trazida pela reforma trabalhista, será garantia da permanência no país de empresas que têm como horizonte econômico a estagnação, a recessão e a diminuição do mercado consumidor, com a queda de renda da população, com o fim das políticas sociais e de valorização do salário mínimo, com o desemprego e a miséria crescentes, o que pode ter como consequências, ainda, o aumento da violência (com a contribuição da irresponsável política de liberação da posse e do porte de armas) e prováveis convulsões sociais.

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*Durval Muniz de Albuquerque Jr. é professor, historiador e escritor. Entre os livros publicados está “A Invenção do Nordeste e outras artes”. Escreve aos domingos no portal da agência Saiba Mais. 

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