A quarentena até aqui: Peregrinação, desinformação e caos, por Ricardo Mezavila

Coronavírus encontrou casa, comida e roupa lavada para participar da cruzada política de um presidente negacionista, genocida e inepto, que debocha da tristeza dos familiares de quase duzentos mil mortos em decorrência da Covid, e de mais de sete milhões de infectados

Jair Bolsonaro em posse de Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde - Foto: Agência Brasil
A quarentena até aqui: Peregrinação, desinformação e caos!
Por Ricardo Mezavila

Em cruzada contra a vacina, Bolsonaro incentiva o brasileiro a não se vacinar e delira sobre efeitos colaterais: “Lá no contrato da Pfizer está claro que ela não se responsabiliza por qualquer efeito colateral. Se você virar um jacaré, é problema seu. Se nascer barba em mulher ou algum homem começar a falar fino, eles não tem nada a ver com isso”.

Desde que foi reconhecida em março no Brasil, dando início à quarentena, a pandemia causada pelo coronavírus encontrou casa, comida e roupa lavada para se estabelecer e participar da cruzada política de um presidente negacionista, genocida e inepto, que debocha da tristeza dos familiares de quase duzentos mil mortos em decorrência da Covid, e de mais de sete milhões de infectados.

Dias antes do início da quarentena, o coronavírus era visto mais como ameaça à economia do que à vida.  Naquela ocasião, fortes chuvas caíram sobre a cidade do Rio de Janeiro desabrigando dezenas de famílias. O prefeito Marcelo Crivella disse que “as pessoas gostam de morar em áreas de risco porque gastam menos tubo para colocar cocô e xixi e ficar livre daquilo”, criando a frase que virou a marca do pensamento das elites governantes em 2020.

Na cabeça da classe dominante, a população pobre mora em área de risco sem saneamento porque gosta. Essa teoria serviu de embasamento para que o conceito da necropolítica fosse adotado pelo atual presidente do Brasil, que usa do poder político para ditar como as pessoas pobres podem viver e como devem morrer.

Durante todo o ano a sociedade conviveu com as dejeções cognitivas e intelectuais de Jair Bolsonaro e sua equipe, como a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, que em fevereiro lançou a campanha “Tudo tem seu tempo: adolescência primeiro, gravidez depois”, que propagandeava de maneira simplista a abstinência sexual como método anticonceptivo.

Com gestão polêmica do início ao fim, o pior ministro da educação de todos os tempos, Abraham Weintraub, foi demitido em junho. Weintraub bloqueou verbas de custeio de universidades federais, na polêmica reunião ministerial de abril disse: “Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia, começando no STF”. O ministro tinha um canal direto com bolsonaristas radicais, principalmente nas redes sociais. Cometeu diversas gafes e erros de gramática, como falar ‘Kafta’ no lugar de Kafka, e escrever impressionante com ‘c’. Nomeado para substituir Weintraub, Carlos Alberto Decotelli foi demitido sem ter tomado posse. Decotelli incluiu em seu currículo cursos que não concluiu.

O ministro do meio ambiente Ricardo Salles, foi irresponsável e criminoso, durante as queimadas no Pantanal e desmatamento na Amazônia. Na nefasta reunião ministerial, Salles afirmou que o governo deveria aproveitar a “oportunidade” da crise, uma vez que a imprensa estaria focada na cobertura da pandemia, para passar reformas ilegais de regulamentação e simplificação, as quais se referiu como “boiada”. “Então pra isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só se fala de Covid e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”, afirmou.

Em meio à turbulência do desgoverno, a pandemia obrigou que os governos estaduais e prefeituras decretassem o lockdown, paralisando o comércio, indústrias, bancos e serviços. Com as atividades econômicas paralisadas, a previsão do mercado financeiro é de queda no PIB e alta no desemprego, que atingiu a histórica marca de 14,6% em novembro, e o Brasil ainda perdeu cinco posições no ranking mundial do Índice de Desenvolvimento Humano – IDH.

O evento mais polêmico do ano, com certeza, foi o descompromisso do governo com o ministério da saúde. Luiz Henrique Mandetta assumiu o ministério no início do governo, foi demitido em maio deste ano por discordar da maneira como a presidência da república enfrentava a pandemia. Em seu lugar foi nomeado Nelson Teich que, assustado, durou menos de um mês no cargo. A saída de Teich seguiu-se de incríveis 50 dias de vacância, até que Eduardo Pazuello foi empossado para cumprir o humilhante papel de general capacho do capitão.

Jair Bolsonaro fomentou a negação do vírus, zombou o uso da máscara, disse que a Covid não passava de uma gripezinha, que tudo era histeria e que o Brasil era um país de ‘maricas’. Questionado sobre as mortes respondeu, “e daí? Eu não sou coveiro” e o impagável, “morrer todo mundo vai morrer mesmo”. O presidente, aquele que devia encabeçar um plano de enfrentamento contra a pandemia, tratou-a publicamente com desdém diante do seu avanço, contribuindo para que o Brasil alcançasse o segundo lugar mundial em mortes por Covid.

A consequência da politização e ineficiência do governo deram voz às conspirações de que as vacinas importadas contra a Covid-19 virão contaminadas com ‘HIV dentro” e causam câncer. Parte da população desinformada que assiste o representante máximo da república tripudiando sobre a imunização, está incrédula sobre a eficácia da vacina. Em São Paulo e Brasília, manifestantes pró Bolsonaro, participaram de comícios contra os governadores que se colocaram um passo à frente do governo federal e estão negociando as vacinas diretamente com outros países.

O Butantan começou a fabricar a CoronaVac, vacina contra o novo coronavírus desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o instituto, que será a primeira vacina contra a Covid-19 produzida no Brasil. O objetivo é produzir 40 das 46 milhões de doses encomendadas pelo governo de São Paulo para que possa dar início ao plano de imunização. As outras 6 milhões de doses serão importadas da China. Pesquisas comprovaram que a vacina é segura.

Depois de intimado pelo STF, o ministério da saúde apresentou um plano de vacinação com muitos prazos, mas sem data para começar. Na exposição foi informado que o governo está negociando com 5 laboratórios, entre eles a AstraZenica, Pfizer e Oxford. Bolsonaro passou seis meses ignorando o processo de importação de seringas da China e o desabastecimento pode adiar uma possível vacinação.

Acirrando o caos pandêmico, os crimes de responsabilidade do presidenteBolsonaro se acumularam durante o ano e os pedidos de impeachment estão engavetados pelo presidente da Câmara dos deputados, Rodrigo Maia. Os três filhos do presidente com mandato parlamentar estiveram envolvidos em micos diplomáticos, investigações e denúncias.

Eduardo Bolsonaro, o ‘diplomamata’, exagera nas críticas à China, maior parceiro econômico do Brasil e é investigado na CPI por participação na divulgação de fake news; Sobre Carlos Bolsonaro a justiça investiga possíveis casos de desvio de verba de gabinete e seu envolvimento no escritório do ódio, propagador de fake news; Flávio Bolsonaro foi denunciado no esquema de movimentação de dinheiro de funcionários fantasmas de seu gabinete, gerenciado pelo amigo da família, Fabrício Queiroz, e pelo patrimônio incompatível com a sua ocupação. Até mesmo a Agência Brasileira de Inteligência – ABIN, foi aparelhada criminosamente na defesa de Flávio Bolsonaro. Há ainda o caso Marielle Franco assombrando os corredores do Palácio.

Na via-crúcis do trabalhador, depois de o governo se opor, o Congresso aprovou o auxílio emergencial, basicamente para a compra de produtos da cesta básica e compor no pagamento de contas e taxas. Foram pagas 9 parcelas, 5 de R$600 e 4 de R$300. A Caixa Econômica criou o Aplicativo Caixa Tem para facilitar o acesso do trabalhador. A última parcela está sendo paga em dezembro. Em janeiro de 2021, o Caixa Tem passará a se chamar Caixa Tinha, pois o governo não manterá o auxílio.

O Brasil, desde a eleição de Bolsonaro, se transformou em um manicômio surreal onde tudo vira meme. O governo, seus seguidores radicais, apoiadores inocentes úteis, oposição, mídia e instituições, batem cabeça pelo pátio diante do olhar do mundo. As decisões técnicas se transformam em palanque em detrimento das ações e das agendas positivas. A inesgotável estratégia de responsabilizar a esquerda minimiza, diante da opinião pública, o fato de que não há investimentos nos hospitais e insumos que garantam atendimento adequado e emergencial.

A jornada tem sido pesada, os bezerros são muitos, a tábua foi quebrada, a parcialidade da justiça mantém o apartheid, a segregação de pobres e pretos periféricos, de pessoas com deficiência, não tolerando a diversidade LGBTQIA+, quilombolas, indígenas e todos que sofrem violência pelo simples fato de não se adequarem ao que foi normatizado como sendo o normal da sociedade.

Em meio à fumaça, homens e mulheres de ‘bem’ balançam a cabeça no presépio ‘fechados’ com Bolsonaro, dizem não à ciência e só vão entender a merda que fizeram, quando precisarem de uma UTI com leito e respirador.

 

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