A sacristia de Curitiba, por Rui Daher

Por Rui Daher

Erram os que acham que em Curitiba se instalou uma República. Começando por Platão, através de Sócrates, saber-se-á que não. Também, a partir de São Paulo, percorrendo cerca de 400 km pela Rodovia Régis Bittencourt, chega-se à cidade que foi conhecida por ser a capital do estado do Paraná.

Referência em desenvolvimentos urbanístico e arquitetônico, piloto de lançamento de produtos, sustentabilidade, índice desenvolvimento humano, museus e teatros como o de Oscar Niemeyer e do Jardim Botânico, difusora cultural reconhecida mundialmente, a rústica e boa gastronomia em Santa Felicidade.

Pois é, talvez obedientes ao seu escritor maior, Dalton Trevisan, em “O Vampiro de Curitiba” (Editora José Olympio, 1965), cerca de dois milhões de pessoas deixaram tudo isso se transformar numa sacristia de 320 km².

Sacristias, embora mais referenciadas como anexos de igrejas católicas onde se guardam objetos valiosos e paramentos, são comuns a todas instituições religiosas. Nelas, conta a pesquisa histórica, foram engendrados atos de guerra, usurpação, traição e perseguição. Também, desavergonhados atos de estupro em mulheres e crianças. Apropriação indébita de pobres esmoleres.

Tem outro lado? Sempre tem. Podem imaginá-lo conforme suas crenças, que aqui não vêm para aliviar o ódio da AK-47.

A Sacristia de Curitiba é como todas. No Brasil, aggiornata para, em nome de acabar com a corrupção, destruir a economia do País.

Considerando o noviciado de um capitalismo tardio, equivocado, mal pensado e conduzido, trata-se de pedofilia ou, em alguns casos, de infanticídio. Dentro dela, noite e dia, passeiam os fantasmas que coabitam a Federação de Corporações.

Disputa de grupelhos por cargos e remunerações; favores partidários; vaidades histriônicas; baixas mordomias; troféus de gesso; fantasias fascistas; prevaricação funcional; e mais não digo para não chegar às escatologia e pornografia.

Tudo isso sob o olhar bovino dos poderes Executivo e Judiciário dos últimos anos, aí incluídos Lula e Dilma com suas voluntaristas açoes republicanas. O Legislativo? Ora, esqueçam.

O negócio é o seguinte: há mais de ano, em minha coluna de agronegócios em CartaCapital, reproduzida sempre em meu blog, alerto de que o setor agropecuário enfrenta sérias ameaças. Num vai-não-vai até 2005, de lá em diante, na esteira da crise econômica mundial, se tornou expressão significativa de nossa economia e partícipe importante do comércio internacional.

Sim, nisso, podemos imitar os ufanistas do setor: deslanchamos. Enquanto a crise econômica mundial amargou a geleia produzida por Mrs. Sullivan, em Ohio, eles aliviaram para nós. Um senão, Donald Trump não é um folclore, mas um belicista, primeiro econômico, logo mais militar.

Lido com o Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) há mais de 40 anos. Fui dos excelentes Alysson Paulinelli a Kátia Abreu e passei pelos medíocres Íris, Stábile e Rossi. Não que percebesse propinas, embora ingênuo não fosse e notasse diferenças entre o obtido pelas multinacionais e grandes fabricantes nacionais frente aos fabricantes de orgânicos à base de resíduos de pescados, por exemplo. Mas tudo sempre pontual, o que não justificaria a destruição de um setor de ponta da economia.

Pensem: o ladrão que assaltou um condomínio para comprar drogas ilícitas e o fiscal agropecuário que recebeu uma propina para assinar uma autorização. Ambos merecem cadeia, certo? Mas serão suficientes para gerar uma operação escandalizada em folhas e telas cotidianas capaz de acabar com o narcotráfico e destruir um elo importante da cadeia do agronegócio?

A qualidade do complexo de carnes é controlada aqui e pelas autoridades importadoras. Não há brincadeira, o espaço para sacanagem é estreito. Se especializou para se adaptar às especificidades de diversos consumidores.

Uma briguinha de sacristães disputando quem rezará a próxima missa ou será chamado a uma felicitação do arcebispo, vale acabar com a marca “carne do Brasil”?

E o brasileiro que não tem dinheiro para comprar a proteína, o que faz? Rói o osso como gostam de fazer seus cachorros que invejam os ricos condenados às rações agroquímicas?

– Ô mulher! Traz aí meu bife. As pelancas, deixa pra Filó.

– Vem você fritar? Quantas salineiras já tomou?

– Todas suficientes pra matar os bichos. Quem sabe os sacristães de Curitiba. Muié, avise a o milho e a soja pra se cuidarem.   

   Assine

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora