A tsunami fascista, por Gustavo Conde

A tsunami fascista

Por Gustavo Conde

Três semanas. Temos três semanas.

Imaginemos, só por um minuto, três cenários. Um catastrófico, um apocalíptico e outro mega tenso.

O catastrófico seria ver Bolsonaro mantendo a liderança nas pesquisas ao longo dos dias. Calculem comigo: Haddad tem que conquistar 20 milhões de votos em 20 dias (um milhão por dia).

Difícil, mas não impossível.

Bolsonaro, por sua vez, teria de perder alguns milhões. Se tivesse debate, seria bem possível. Mas será que teremos?

Daí que em um cenário catastrófico, teríamos o fascismo liderando na reta final do segundo turno, provocando uma desolação sem precedentes e fazendo o país entrar em parafuso emocional.

Vamos para o cenário apocalíptico (um pouco melhor). Haddad cresce e empata com Bolsonaro. Iríamos para eleição, no entanto, como quem vai para o precipício, uma vez que os institutos de pesquisa erraram demais nesse primeiro turno.

Finalmente, o cenário mega tenso. Haddad passa Bolsonaro e abre 10 pontos. O fascismo enlouquece e abre o maior flanco de violência e fakenews da história do planeta Terra.

Sem contar que, mais uma vez, as pesquisas podem estar erradas.

Some-se isso ao fato de que o poder judiciário não moveu um músculo a respeito da fakenews propagada e divulgada por Flávio Bolsonaro (a urna que fraudava votos em favor do PT).

Some-se isso ao desespero da Blogosfera, que começa a cair no discurso fácil de que o PT é um ‘marca ultrapassada’ e que é preciso rotular a candidatura de Haddad como ‘frente ampla’.

Leia também:  Lula é culpado?, por Vitor Souza

Some-se isso às naturais alucinações do eleitor inseguro e massacrado de esquerda, mega traumatizado com o golpe e com o atávico medo de perder que ronda a psiquê do brasileiro.

Some-se isso a isso, àquilo e a mais um pouco e temos um cenário bem chatinho.

Eu não tenho medo. Mas que o horror soube se aninhar em um Brasil que prendeu a sua esperança, ah, soube.

O fenômeno extrapola compreensões simplistas e espasmódicas (que é o que mais iremos ter a partir de agora).

Gente querendo inventar a roda, heróis dispostos a redigir a estratégia perfeita, analistas cheios de si babando para conquistar o mercado editorial digital com suas hipóteses mirabolantes, mas sedutoras (porque justamente simplórias).

Não será fácil sequer testemunhar tudo isso.

Posso assegurar, no entanto, que eu vou tentar iluminar alguns pontos de resistência, aqui e ali.

Como sempre, sem rabo preso, sem medo e sem querer agradar a plateia.

O mundo é muito mais complexo e interessante do que a mera conquista de espaço crítico. O mundo, meus caros, é aonde o meu filho vai habitar depois que tudo isso acabar (ou não).

 

 

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10 comentários

  1. Ainda que a virada se dê,

    Ainda que a virada se dê, como governar com esse Congresso e quadro institucional? Sinceramente, não vejo como. Seja como for, tem gente que acredita em milagre, eu não. Boa sorte pro Brasil!

    • Mas o congresso nunca foi

      Mas o congresso nunca foi bom. Muito pelo contrário.

      Então vencendo ou perdendo. O que que se vai fazer? … Política. 

      Tb não acredito em milagre. Mas, dizer boa sorte assim não me parece sensato.

    • Aí concordo com você:

      o quadro político no Brasil nos próximos 4 anos é da maior força para a extrema-direita. O resto do quadrante vai ter que entrar em modo de sobre-vivência.

      E a mortandade que se avizinha vai sepultar de vez, espero, a visão do brasileiro cordato e bonzinho.

  2. 30% dos eleitores se
    30% dos eleitores se abstiveram, votaram em branco/nulos. Acredito que muitos desses são Lulistas, e não se animaram em votar no Haddad.

    O foco, deve ser este.
    Além de contar com os votos do Ciro, Boulos. Talvez alguma coisa da Marina,Alkimin e Meirelles.

    Votos do Amoedo e do Daciolo devem migrar em peso, para Bolsonaro.

    Bolsonaro teve 46% dos votos válidos no cenário de ontem, não significa que vai manter o menos índice no dia 28. Pode diminuir ou até aumentar.
    ////
    Foi triste as cenas que vi ontem por alguns locais carentes da zona norte do Rio, área mais pobres da cidade.

    Jovens pobres, negros, mulheres, senhores da meia idades, alegres porque votaram no Bolsonaro.

    Um jovem motoboy negro, com uns vinte poucos anos me perguntou alegremte: ” E aí tio votou no Bolsonaro, né. Disse, não meu filho, sou PT, sou Haddad. Tio, no PT, só tem ladrão”.
    Pobre jovem, dá pena.

    O erro do PT foi ter abandonados este eleitores da base.
    Mas enfim, vamos lutar.

  3. A piracema (ou pororoca) dos fatos empíricos

    A esquerda brasileira vai obter a maior vitória de sua história

    26 de Agosto de 2018
     

    Um novo governo Lula aponta no horizonte como uma das previsões mais elementares da cena política brasileira. Aliás, é bom que se diga: o mercado das previsões andou em baixa como todos os outros mercados no Brasil. Esta coluna navega contra a corrente porque segue a piracema dos fatos empíricos e faz o cotejo dos dados concretos estatísticos com suas curvas recentes e históricas.

    Há vários tipos de negação da realidade em curso no Brasil. A mais evidente e comovente é a da imprensa tradicional, que ainda lida com suas fobias e preconceitos como quem entra no décimo ano de análise lacaniana e insiste em resistir ao tratamento quase que como um sintoma dobrado de sua própria condição subjetiva ‘interrompida’.

    O jornalismo brasileiro segue em estágio avançado de negação e só consegue prever o passado. Eles levam a sério os pitorescos debates televisivos entre candidatos à presidência e acreditam que o horário eleitoral gratuito vai ser ‘decisivo’ no cenário das intenções de voto.

    É uma situação crítica: viver no passado e negar a realidade. A imprensa brasileira, finalmente, terá o seu devido castigo depois de décadas fazendo o serviço sujo para as elites.

    Terá de sofrer uma readaptação furiosa se quiser sobreviver a partir de 2019, a começar pela interação concreta com os leitores, olimpicamente desprezados por ela desde sempre – a imprensa tradicional trata o leitor como um idiota que precisa de tutela.

    Há outro segmento, no entanto, que também adotou a negação da realidade como atenuante para múltiplas dores oriundas do ferimento democrático – que, afinal, causa traumas. Uma parte dos próprios eleitores de Lula e do PT teme mais um golpe do judiciário e acusa dificuldade em começar a pensar no que será o próximo governo Lula-Haddad-Manuela.

    Essa negação da realidade não é canalha e covarde como a da imprensa, mas tem um fundo irracional. Aos que temem uma nova rodada de violências jurídicas contra a democracia, advirto: a cena mudou depois da determinação do Comitê de Direitos Humanos da ONU sobre Lula.

    Óbvio que haverá tentativas de truncamento eleitoral, mas sem a força desvairada e histérica de um Sérgio Moro que, aliás, agoniza em seu próprio momento ‘Ofélia’, defensivo, disléxico e delirante.  

    O golpe, caros leitores, não tem mais condições de violentar a democracia. Não há por que subestimá-lo, mas também não há por que superestimá-lo. A fragilidade da confraria do horror é evidente. Dar um golpe com a opinião pública dividida – como no caso do impeachment sem crime – é uma coisa. Dar um golpe com 100% da população contra é outra.

    Colocando em pratos limpos o argumento: o próximo governo brasileiro será o governo Lula e é preciso começar a pensar em como ele será organizado e como será o comportamento dos segmentos progressistas na condução da leitura social do governo e das pressões que certamente virão.

    A chance é muito especial. Estamos diante de uma onda vermelha irresistível, como nunca antes na história deste país. O senado aponta para uma configuração progressista inédita: Dilma, Suplicy, Lindberg, Wagner, Paim são apenas alguns nomes eloquentes que despontam neste momento. Há muitos outros.

    A miséria eleitoral do PSDB e do dos golpistas abre o maior flanco estratégico que a esquerda já assistiu. Em suma: o plano dos facínoras da elite deu muito errado.

    Nós estamos diante de um fenômeno ainda muito maior que o mais otimista dos ativistas de esquerda poderia imaginar.

    Pensem cá comigo: quem imaginaria – há um ano atrás – que Lula estaria tão forte hoje? Quem imaginaria que Dilma seria tão favorita a um cargo no legislativo? Que o PSDB estaria arrasado? Que os adversários de Lula estariam tão fragilizados? Que a imprensa estaria tão emparedada?

    A despeito da tentação incontornável de dizer ‘ninguém’, sinto-me obrigado a dizer: esta coluna previu. Está tudo lavrado e registrado desde dezembro de 2017.

    A rigor, era mesmo delicado defender esse prognóstico em meados de 2017. O ceticismo foi amplo, geral e irrestrito. Mas, advirto que era apenas uma questão de análise técnica, não de aposta passional: as curvas estatísticas de opinião naquele momento já apontavam para este cenário.

    A fiança, no entanto, para este quadro tão favorável à esquerda vinha, no meu caso, da leitura discursiva, da codificação da linguagem e dos tons dessa linguagem que iam se precipitando por sobre a mesa da democracia.

    O vazio semântico de um Alckmin, a contumaz cifra oportunista de Marina Silva, a truculência verbal de Ciro Gomes, a destituição generalizada de carisma de Henrique Meirelles, a covardia estampada na face prepotente de Joaquim Barbosa, o subletramento de Luciano Huck e a coleção de besteiras grotescas alinhavadas na dicção de Bolsonaro me davam a certeza: todos cairiam nos seus devidos tempos.

    O último a resistir é Bolsonaro. Pois lhes digo do alto da minha paciência perdida: ele vai cair. Como eu sei? Ele próprio confessou essa queda quando se negou ir a debates, para em seguida voltar atrás – sintoma claro de pressões internas. Não só: Bolsonaro percebeu que seu patamar de intenção de voto é completamente artificial. Não tem voto consolidado ali. É só anti-petismo.

    Destaque-se que ele também tentou proibir judicialmente o jornal Folha de S. Paulo de veicular notícias sobre sua ex-funcionária fantasma. A rigor, Bolsonaro sente a pressão, porque ele é o último bastião do golpe que ainda não ruiu por completo. Só falta ele.

    Esse cenário tão positivo à esquerda, embora fosse previsível com alguma metodologia técnica e de posse de alguma leitura minimamente consistente dos eventos subsequentes ao golpe, não foi sequer aventado pelo próprio Lula, o mais entusiasmado dos agentes políticos do país.

    Aliás, o próprio PT manifestava muita resistência em acreditar que o quadro eleitoral lhe seria tão favorável neste momento presente da campanha. Havia muita apreensão no ar.

    De sorte que há de se fazer agora uma nova rodada de leituras com base nesta anterior vitoriosa que se impôs à revelia dos ceticismos e apreensões de praxe.

    Devo dizer que estamos na iminência de assistir uma movimentação pró-esquerda muito maior e mais intensa ainda do que estas que já são favas contadas. O processo vai se intensificar.

    O que significa isso? Teremos, em breve, apenas uma candidatura no cenário das eleições à presidência. As outras estarão no seu lugar real de origem e destino que é o lugar no dígito simples.

    Essas candidaturas não se impuseram desta vez como manifestação da diversidade democrática, até porque não estamos vivendo propriamente um momento democrático – senão pelo fato de termos eleições justamente para corrigir esse disfuncionalidade estrutural – e golpista – da nossa soberania.

    O que institutos de pesquisa e analistas não entenderam ainda, com todo o respeito, é que essa não é uma eleição qualquer. Tanto o comportamento do eleitor como o comportamento dos candidatos não pode ser comparado de maneira ‘tranquila’ com comportamentos do passado recente.

    Ambos sofreram um considerável deslocamento no próprio conceito e isso é suficiente para que se mude todos os parâmetros de análise e de prognóstico.

    Há uma clara ambivalência, portanto, nesta eleição que toma ares de ‘restauradora’: é civilização versus barbárie, mas é também politização versus despolitização.

    Negações de realidade à parte, temos nessas eleições também a negação da política (que é Bolsonaro, brancos e nulos) versus a afirmação da política (que é Lula).

    Esse é um quadro técnico que não está sendo considerado pelos institutos de pesquisa, à exceção do Vox Populi, que tem uma metodologia muito mais consistente que os demais, justamente porque tenta fazer a leitura das ‘camadas’ de comportamento que vão se acumulando sobre as ‘camadas’ clássicas, dos períodos democráticos consolidados na literatura técnica do campo.

    De sorte que é importante estarmos preparados para mais um salto neste avanço inédito da esquerda sobre os segmentos conservadores da sociedade brasileira.

    Há, no horizonte, um congresso progressista e um conjunto de governadores igualmente democrático e de viés restaurador. O eleitor brasileiro pode ser dócil, civilizado e carinhoso com seus algozes de sempre, mas ele não é tolo.

    A cena presente é de um indiscutível 3 a 0 para a democracia contra o golpe. Mas esse só é o primeiro tempo. Resta saber como se comportar no segundo tempo, com a torcida toda a favor: se vamos recuar para garantir o resultado ou se vamos partir para uma goleada histórica.

    Eu sou daqueles que acha que a postura deve ser completamente destituída de piedade. Jogo é jogo. O negócio é ir para cima e fazer 6 a 0 – isso, inclusive, é ‘respeitar’ o adversário.

    Destaque-se mais um dado: muitos candidatos do golpe que estão liderando em seus estados podem estar prestes a se autoconsumirem. Por quê? Porque eles representam o golpe – o que é uma leitura quase lógica.

    Tome-se o exemplo de Anastasia em Minas Gerais. Ele lidera com 29% (Pimentel tem 20%). Alguém acha que um nome tão ligado a Aécio tem viabilidade eleitoral? Tão logo comece a campanha, ele derrete, com todo respeito aos céticos de plantão.

    Mais: o PT é bom de campanha e vai desconstruir a imagem de Anastasia em uma semana de rádio e TV, na influência transversal que esta plataforma ainda pode produzir.

    Concluo, fazendo mais uma advertência final: não há otimismo algum nesta breve reflexão. Há sentido de responsabilidade. Porque uma vez vencida esta etapa (da eleição da democracia que se traduz em Lula), o desafio só estará começando.

    Reconstruir o país ‘tijolo por tijolo um desenho mágico’ não será apenas responsabilidade de um novo governo Lula, empossando em catarse democrática em janeiro de 2019.

    A responsabilidade será de todos nós.

     

    GUSTAVO CONDE

    Gustavo Conde é linguista, colunista do 247 e apresentador do Programa Pocket Show da Resistência Democrática pela TV 247.

     

  4. O Brasil acabou
    Mesmo com alguns bons nomes isolados, muito triste e preocupado com essa eleição, a tragédia se confirmou. Um retrocesso sem precedentes. O que esperar de um Congresso formado por pessoas radicais, obtusas, limitadas, fascistas, retrógrados, fundamentalistas, corruptos e religiosos estelionatários? É realmente necessário que a sociedade tenha que passar por momento tão difícil de aprovação para buscar a clareza e a consciência?  A violência,, a intolerância e estupidez  dominaram nossa sociedade. Acordamos do sonho e mergulhamos em um pesadelo.     P.S.: Só para lembrar, dentre várias hipocrisias que presenciamos, olha como o fanfarrão do Boçalnaro, o Tiririca de coturno, que só sabe falar que “vai mudar tudo que está aí”, votou na Câmara: Acabar com o nepotismo no serviço público: CONTRA Fim da aposentadoria especial para deputados e senadores: CONTRA Aumento de salário para deputados e senadores: A FAVOR Fundo de combate à pobreza: CONTRA   

  5. 150 milhões de eleitores
    Só 50 milhões votaram no nazista. É uma questão de convencer os outros 100 milhões de que estão sendo feitos de trouxas pelos Estados Unidos ao desconfiaram do PT.

  6. Sugestões de um militante amargurado

    (Pior que uma provável derrota eleitoral será uma derrota POLÍTICA e eleitoral)

    AÇÕES DOS DIRIGENTES DO PT PARA ESTE TENEBROSO MOMENTO

    Urgência nº1 :

    a) Preservar a integridade e o conforto físico de Lula 

    Intensificar contatos com organizações e governos estrangeiros para um necessário pedido de asilo político.

    AÇÕES POLÍTICO-ELEITORAIS

    1) Nenhuma concessão à direita golpista/fascista

    a) Intensificar e amplificar as denúncias no Brasil E NO MUNDO sobre as criminosas perseguições do judiciário e da mídia ao Lula e demais dirigentes do partido 

    b) Deve-se utilizar todos os espaços da propaganda eleitoral para esclarecer didaticamente a diferença das propostas da coligação PT/PCdoB e as propostas da chapa do Capitão Facínora & e o Vice-Jumento (Bolsa Família X Bolsa Bala  – Proteção as Minorias X Extermínio das Minorias  – Respeito a Todos os Credos e Raças X Perseguição aos Espíritas, Muçulmanos, etc..)

    c) Massificar em todas as mídias (PRINCIPALMENTE NO WHATSAPP) a fecunda ligação do Capitão Facínora e o sub-governo do bandido Vampirão (O apoio do Capitão Facínora para a aprovação de leis contra o povo)

    d) Conclamar (se possível orientando) a militância de esquerda e pessoas anti-fascistas para que ocupem as ruas e partam para uma guerrilha cibernética (PRINCIPALMENTE ATRAVÉS DO WHATSAPP) para desqualificar o Capitão Facínora, suas demagogas propostas e seus degenerados fake-news 

    É FUNDAMENTAL COLAR A IMAGEM DO CAPITÃO FACÍNORA AO GOVERNO DO ODIADO VAMPIRÃO GOLPISTA 

  7. Filhos de Mussolini
    Dentro das probabilidades de resultados para a eleição do dia 28, qual é a quantidade de eleitores fascistas no país?

  8. Parar, pensar, e não desistir da luta

    Para reflexão em momento de tanta volatilidade analítica movida por desespero e desesperança – eu também estou à flor da pele, e por isso não farei comentários sobre o que acho, fica para outro momento. Não necessariamente concordo com as idéias expostas mas é importante não perdermos de vista o que estudiosos sérios têm a dizer sobre as origens da epidemia fascista que assola o mundo. 

     

    DA TV BOITEMPO

    (vídeo da professora Esther Solano, publicado em 24/09/2018) 

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=t7gF6ihynvA%5D

    https://www.youtube.com/watch?v=t7gF6ihynvA

     

    (vídeo da professora Esther Solano, publicado em 08/10/2018)

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=rH5Mo4nb4Bw%5D

    https://www.youtube.com/watch?v=rH5Mo4nb4Bw

     

    (vídeo do professor Ricardo Antunes, publicado em 05/10/2018) 

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=T95NAdk2RKU%5D

    https://www.youtube.com/watch?v=T95NAdk2RKU

     

    DO BLOGUE NOCAUTE 

     

    Sua tia não é fascista, ela está sendo manipulada

    POR RAFAEL AZZI  8 DE OUTUBRO DE 2018  SEM COMENTÁRIO

    Você se pergunta como um candidato com tão poucas qualidades e com tantos defeitos pode conseguir o apoio quase que incondicional de grande parte da população?

    Você já tentou argumentar racionalmente com os eleitores deles, mas parece que eles estão absolutamente decididos e te tratam imediatamente como inimigo no mais leve aceno de contrariedade?

    Até sua tia, que sempre foi fofa com você, agora ataca seus posts sobre política no facebook?

    Pois bem, vou contar uma história.

    O principal nome dessa história é um sujeito chamado Steve Bannon. Bannon tinha uma visão de extrema direita nacionalista. Ele tinha um site no qual expressava seus pontos de vista que flertavam com o machismo, com a homofobia, com a xenofobia, etc. Porém, o site tinha pouca visibilidade e seu sonho era que suas ideias se espalhassem com mais força no mundo.

    Para isso, Bannon contratou uma empresa chamada Cambridge Analytica. Essa empresa conseguiu dados do facebook de milhões de contas de perfis por todo mundo. Todo tipo de dado acumulado pelo facebook: curtidas, comentários, mensagens privadas. De posse desses dados e utilizando algoritmos, essa empresa poderia traçar perfis psicológicos detalhados dos indivíduos.

    Tais perfis seriam então utilizados para verificar quais indivíduos estariam mais predispostos a receber as mensagens: aqueles com disposição de acreditar em teorias conspiratórias sobre o governo, por exemplo, ou que apresentavam algum sentimento de contrariedade difuso ao cenário político atual.

    A estratégia seria fazer com que esse indivíduo suscetível a essas mensagens mudasse seu comportamento, se radicalizasse. Como as pessoas passaram a receber as notícias e a perceber o mundo principalmente através das redes sociais, não é difícil manipular essas informações. Se você pode controlar as informações a que uma pessoa tem acesso, você pode controlar a maneira com que ela percebe o mundo e, com isso, pode influenciar a maneira como se comporta e age.

    Posts no facebook podem te fazer mais feliz ou triste, com raiva ou com medo. E os algoritmos sabem identificar as mudanças no seu comportamento pela análise dos padrões das suas postagens, curtidas, comentários.

    Assim, indivíduos com perfis de direita e seu tradicional discurso “não gosto de impostos” foram radicalizados para perfis paranoicos em relação ao governo e a determinados grupos sociais. A manipulação poderia ser feita, por exemplo, através do medo: “o governo quer tirar suas armas”. Esse tipo de mensagem estimula um sentimento de impotência e de não ser capaz de se defender. Estimula também um sentimento de “somos nós contra eles”, o que fecha a pessoa para argumentos racionais.

    Sites e blogs foram fabricados com notícias falsas para bombardear diretamente as pessoas influenciáveis a esse tipo de mensagem. Além disso, foi explorado também um sentimento anti-establishment, anti-mídia tradicional e anti “tudo isso que está aí”. Quando as pessoas recebiam várias notícias de forma direta, e não viam essas notícias repercutirem na grande mídia, chegavam à conclusão de que a grande mídia mente e esconde a verdade que eles tem.

    Se antes a mídia tradicional podia manipular a população, a manipulação teria que ser feita abertamente, aos olhos de todos. Agora, todos temos telas privadas que nos mandam mensagens diretamente. Ninguém sabe que tipo de informação a pessoa do lado está recebendo ou quais mensagens estão construindo sua percepção de realidade.

    Com esse poder nas mãos, Bannon conseguiu popularizar a alt right (movimento de extrema direita americana) entre os jovens, que resultou nos protestos  “unite de right” no ano passado em Charlottesville, Virgínia, que tiveram a participação de supremacistas brancos. Bannon trabalhou na campanha presidencial de Donald Trump e foi estrategista de seu governo. A Cambridge Analytica trabalhou também no referendo do Brexit, que foi vencido principalmente por argumentos originados de fakenews.

    Quando a manipulação veio à tona, Mark Zuckerberg foi chamado ao senado americano para depor. Pra quem entendeu o que houve, ficou claro que a democracia da nação mais importante do mundo havia sido hackeada. Mas os congressistas pouco entendimento tinham de mídia social; e quem estaria disposto a admitir que a democracia pode ser hackeada através da manipulação dos indivíduos?

     Zuckerberg estava apenas pensando em estabelecer um modelo de negócios lucrativo com a venda de anúncios direcionados. A coleta de dados e a avaliação de perfil psicológico das pessoas tinham a intenção “inocente” de fazer as pessoas clicarem em anúncios pagos. Era apenas um modelo de negócios. Mas esse mesmo instrumento pode ser usado com finalidade política.

     Ele se deu conta disso e sabia que as eleições brasileiras podiam estar em risco também. Somos uma das maiores democracias do mundo. O facebook tomou medidas ativas para evitar que as campanhas de desinformação e manipulações ocorressem em sua rede social. Muitas contas fake e páginas que compartilhavam informações falsas foram retiradas do facebook no período que antecede as eleições.

     Mas não contavam com a capilarização e a popularização dos grupos de whatsapp. Whatsapp é um aplicativo de mensagens diretas entre indivíduos; por isso, não pode ser monitorado externamente. Não há como regular as fakenews, portanto. Fazer um perfil fake no whatsapp também é bem mais fácil que em outras redes sociais e mais difícil de ser detectado.

     Lembram do Steve Bannon, que sonhou com o retorno de uma extrema direita nacionalista forte mundialmente? Que tinha ideias que são classificadas como anti minorias, racistas e homofóbicas? E que usou um sentimento difuso anti “tudo que está aí”, e um medo de os homens se sentirem indefesos para conquistar adeptos?

     Pois bem, ele se encontrou em agosto com Eduardo Bolsonaro. Bolsonaro disse que o Bannon apoiaria a campanha do seu pai com suporte e “dicas de internet”, essas coisas. Bannon é agora um “consultor eventual” da campanha. Era o candidato ideal pra ele, por compartilhava suas ideias, no cenário ideal: um país passando por uma grave crise econômica com a população desiludida com a sua classe política.

     Logo depois de manifestações de mulheres nas ruas de todo o Brasil e do mundo contra Bolsonaro, o apoio do candidato subiu, entre o público feminino, de 18 para 24 por cento. Um aumento de 6 pontos depois de grande parte das mulheres se unir para demonstrar sua insatisfação com o candidato.

     Isso acontece porque, de um lado, a grande mídia simplesmente ignorou as manifestações e, por outro, houve um ataque preciso às manifestações através dos grupos de whatsapp pró-Bolsonaro. Vídeos foram editados com cenas de outras manifestações, com mulheres mostrando os seios ou quebrando imagens sacras, mas utilizadas dessa vez para desmoralizar o movimento #elenão entre as mais conservadoras.

     Além disso, Eduardo Bolsonaro veio a público logo após a manifestação e declarou: “As mulheres de direita são mais bonitas que as de esquerda. Elas não mostram os peitos e nem defecam nas ruas. As mulheres de direita têm mais higiene.” Essa declaração pode parece pueril ou simplesmente estúpida mas é feita sob medida para estimular um sentimento de repulsa para com o “outro lado”.

    Isso não é nenhuma novidade. A máquina de propaganda do nazismo alemão associava os judeus a ratos. O discurso era que os judeus estavam infestando as cidades alemãs como os ratos. Esse é um discurso que associa o sentimento de repulsa e nojo a uma determinada população, o que faz com que o indivíduo queira se identificar com o lado “limpo” da história. Daí os 6 por cento das mulheres que passaram a se identificar com o Bolsonaro.

     Agora é possível compreender porque é tão difícil usar argumentos racionais para dialogar com um eleitor do Bolsonaro? Agora você se dá conta do nível de manipulação emocional a que seus amigos e familiares estão expostos? Então a pergunta é: “o que fazer?”

     Não adiante confrontá-los e acusá-los de massa de manobra. Isso só vai fazer com que eles se fechem e classifiquem você como um inimigo “do outro lado”. Ser chamado de manipulado pode ser interpretado como ser chamado de burro, o que só vai gerar uma troca de insultos improdutiva.

     Tenha empatia. Essas pessoas não são tolas ou malvadas; elas estão tendo suas emoções manipuladas e estão submetidas a uma percepção da realidade bastante diferente da sua.

    Tente trazê-las aos poucos para a razão. Não ofereça seus argumentos racionais logo de cara, eles não vão funcionar com essas pessoas. A única maneira de mudar seu pensamento é fazer com que tais pessoas percebam sozinhas que não há argumentos que fundamentem suas crenças e as notícias veiculadas de maneira falsa.

     Isso só pode ser feito com uma grande dose de paciência e de escuta. Peça para que a pessoa defenda racionalmente suas decisões políticas. Esteja aberto para ouvi-la, mas continue sempre perguntando mais e mais, até ela perceber que chegou num ponto em que não tem argumentos para responder.

     Pergunte, por exemplo: “Por que você decidiu por esse candidato? Por que você acha que ele vai mudar as coisas? Você acha que ele está preparado? Você conhece as propostas dele? Conhece o histórico dele como político? Quais realizações ele fez antes que você aprova?”

     Em muitos casos, a pessoa tentará mudar o discurso para falar mal de um outro partido ou do movimento feminista. Tal estratégia é esperada porque eles foram programados para achar que isso representa “o outro lado”, os inimigos a combater.

    Nesse caso, o caminho continua o mesmo: tentar trazer a pessoa para sua própria razão: “Por que você acha que esse partido é tão ruim assim? Sua vida melhorou ou piorou quando esse partido estava no poder? Como você conhece o movimento feminista? Você já participou de alguma reunião feminista ou conhece alguém envolvido nessa luta?”

     Se perceber que a pessoa não está pronta para debater, simplesmente retire-se da discussão. Não agrida ou nem ofenda, comportamento que radicalizaria o pensamento de “somos nós contra eles”. Tenha em mente que os discursos que essa pessoa acredita foram incutidos nela de maneira que houvesse uma verdadeira identificação emocional, se tornando uma espécie de segunda identidade. Não é de uma hora pra outra que se muda algo assim.

     Duas das mais importantes democracias do mundo já foram hackeadas utilizando tais técnicas de manipulação. O alvo atual é o nosso país, com uma das mais importantes democracias do mundo. Não vamos deixar que essas forças nos joguem uns contra os outros, rasgando nosso tecido social de uma maneira irrecuperável.

      P.S.: Por favor, pesquise extensamente sobre todo e qualquer assunto que expus aqui, e sobre o qual você esteja em dúvida. Não sou de nenhum partido. Sou filósofo e, como filósofo, me interesso pela verdade, pela ética e pelo verdadeiro debate de ideias.

    Rafael Azzi é mestre em Estética e Filosofia da Arte pela Universidade Federal de Ouro Preto e doutor em Filosofia pela PUC-RJ.” 

    (​https://nocaute.blog.br/2018/10/08/sua-tia-nao-e-fascista-ela-esta-sendo-manipulada/)

    Sampa/SP, 08/10/2018 – 16:04 (alterado às 16:19) 

     

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