Bolsonaro aflito dentro do saco de caranguejos, por Álvaro Miranda

Ainda não sabemos o que é mais pantomima, se a tentativa de “união nacional” numa arena ou o impasse da luz amarela acesa pelos “representantes do povo”.

Bolsonaro aflito dentro do saco de caranguejos, por Álvaro Miranda

Interessante o quadro sinalizado agora pelas ameaças que não vêm de Bolsonaro contra a sociedade, mas sim de Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados contra o chefe do poder executivo.

O quadro sinaliza um dos elementos que apontei, dias atrás, acerca da possibilidade de impeachment. Os outros dois elementos desse contexto, para mim, ainda estão mais no plano da incógnita do que o primeiro: a questão Lula e a questão Ciro Gomes. Demais atores vão se candidatando, cada vez mais, a cartas fora do baralho.

Difícil analisar a conjuntura de forma segura no calor das coisas, ainda mais quando a crise não é uma só, mas várias num contexto de incertezas em todos os aspectos. Analisar o futuro, então, impossível.

Aliás, todas as crises de agora têm capítulos novos a cada dia, como esse pronunciamento do presidente da Câmara, sentado na mesa diretora da casa legislativa, após solenidade e anúncios solenes no Palácio do Planalto.

Ainda não sabemos o que é mais pantomima, se a tentativa de “união nacional” numa arena ou o impasse da luz amarela acesa pelos “representantes do povo”. Mas um fato era visível para os telespectadores com olhos de verruma: a tensão e o desconforto de Jair Bolsonaro olhando o tempo todo para os lados, autoridades perfiladas, como se estivesse rodeado por serpentes ou sendo mordido aqui e ali dentro de um saco de caranguejos (vivos, claro).

Já escrevi aqui que a federação brasileira é uma pedra no sapato de Bolsonaro, assim com a própria democracia – e o valentão, o tempo todo, nesses dois anos, fazendo ameaças. Pior: diante de vários setores da esquerda se borrando e acreditando que ele pudesse ou ainda poderá dar um golpe. Diante desse pavor absurdo, sempre indaguei: sim, ele dá um golpe e depois faz o exatamente o quê?

Então, repitamos: voto não é cheque em branco, que não é sinônimo também de apoio oriundo de conchavo das elites políticas e econômicas da nossa democracia de coalizão. É, sim, uma aposta, com blefes, faturas a serem cumpridas e pagamentos para ver o que o outro tem na manga. A pandemia não precisou pagar para ver que o governo está à deriva tanto em relação aos apoios como no que diz respeito a algum tipo de proposta de solução para as políticas públicas, no caso, a principal, qual seja, VACINAÇÃO EM MASSA o mais rápido possível.

Os outros dois aspectos têm a ver com a expectativa de mais picanha e cerveja para o povo, se é isso mesmo que o povo espera com as lições da pandemia, ou se as soluções para os problemas, com mudanças efetivas e estrutuais, só devem ser discutidas no momento das articulações eleitorais, conforme sinalizou Lula, depois do desmonte da farsa jurídica que o condenou absurdamente para não vencer as eleições de 2018. Ou então se, partir de agora, devemos pensar na questão nacional com propostas concretas, conforme vem repetindo Ciro Gomes.

Evidentemente, propostas de políticas públicas estão imbricadas nas articulações de apoios e concertações eleitorais. A simbologia de Lula, aliás, “figuraça” singular, de reconhecimento internacional, que mexe com os afetos de milhões de pessoas, inclusive o meu, claro – eu que votei nele e na Dilma duas vezes – contrasta com as portas que andaram se fechando para ele nas tais articulações com o centrão, pelo menos por enquanto, diferentemente do que vem acontecendo com Ciro Gomes.

A incógnita é: se um tem popularidade gigantesca e outro cresce a cada dia, com propostas concretas e factíveis, como as forças hegemônicas do momento (centrão, mercado, militares e outras vão se posicionar a partir da queda concreta (agora ou daqui a pouco) ou virtual (nas pesquisas de opinião futuras) de Bolsonaro?

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