Brasil: o dilema entre o público e a privada, por Aracy Balbani

Brasil: o dilema entre o público e a privada

por Aracy Balbani

Na primeira metade do século passado, as famílias se orgulhavam de ter crianças e jovens matriculados nas escolas públicas mais bem conceituadas. Os alunos ostentavam o uniforme escolar e sabiam de cor o nome e o sobrenome das professoras. Os educadores eram figuras respeitáveis e ilustres na sociedade local, assim como médicos, farmacêuticos e juízes.

Ninguém se atrevia a insultar nem a abordar esses profissionais com intimidade. Nada de tapinhas nas costas ou conversas risonhas ao pé do ouvido. Os alunos se levantavam em sinal de respeito quando as professoras entravam na sala de aula. As mães faziam questão de que as crianças fossem ao pediatra devidamente vestidas e penteadas. Ir à consulta médica vestindo calcinha furada e meias sujas, nem pensar. O farmacêutico era tido como mais do que referência na orientação para o uso seguro de remédios. Era uma autoridade no cuidado à saúde. A discrição dos juízes os mantinha acima de qualquer suspeita. Ninguém duvidava que o respeito entre a população e os profissionais era sincero e mútuo.

Na década de 1970 já era esporte da classe média reclamar da precariedade das comunicações, do ensino e dos hospitais públicos. Pagava-se uma pequena fortuna para ter uma linha telefônica fixa residencial. Quem podia mantinha os filhos em escolas particulares, ainda que tivesse de recorrer a empréstimo bancário para bancar a taxa de matrícula e o material escolar. Com uma renda familiar maior ou um pouco mais de sacrifício – a venda de um carro, joias ou imóvel -, era possível pagar por consultas médicas ou, até, uma internação particular. Valia tudo para contornar as limitações dos serviços públicos.

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A partir de 1980, as franquias de sistemas de ensino e os planos de saúde privados vieram para ficar. As escolas particulares tornaram-se acessíveis a uma parcela maior da população. A carteirinha do plano de saúde tornou-se o passaporte para a eficiência e agilidade do atendimento nos serviços médico-hospitalares. Paulatinamente, a mesma promessa de maior cobertura, eficiência e melhor qualidade no setor privado estendeu-se à telefonia fixa e móvel, TV por assinatura, acesso à Internet, distribuição de energia elétrica, rodovias e outros serviços. E tomamos privatizações e concessões, a serem fiscalizadas pelas agências regulatórias governamentais de cada setor.

Com a perspectiva de o setor privado suprir as carências dos serviços públicos, muitos brasileiros se desinteressaram pelas eleições de membros e participação nas reuniões dos Conselhos Municipais de Saúde e Educação, entre outros conselhos abertos à sociedade civil. Grande parte do nosso povo simplesmente desconhece a existência e a relevância desses conselhos para formular e fiscalizar a execução de políticas públicas.

Lá se vão 30 anos desde que o Brasil surfou a primeira onda privatizante em direção ao Estado mínimo. Houve incontáveis fusões e aquisições das empresas privadas com capital estrangeiro. Algumas até precisaram mudar de nome e logotipo para escaparem da profunda antipatia popular diante dos péssimos serviços prestados

Hoje, despencamos na estafa institucional, social e econômica que faz o Brasil bater recordes de descrença, violência e desemprego. O sonho brasileiro de modernidade privada virou pesadelo de um tecido social puído pelo ódio.

Com exceções, claro, mesmo no setor privado nosso povo não apenas se desacostumou a conhecer professores, médicos, farmacêuticos e outros profissionais pelo nome – agora são todos só ou “o tio”, ou “a vó”, ou “o cara da farmácia” -, como passou a lhes dedicar franca hostilidade e total desconfiança.

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Caminhões e carretas que fogem das tarifas de pedágio em rodovias administradas por concessionárias esburacam, impunemente, as vias públicas incapazes de suportar tráfego pesado nas 24 horas, de domingo a domingo. O ônus do tapa-buraco nas rotas de fuga recai sobre as prefeituras; o das rachaduras nas moradias, sobre os infelizes proprietários. O que dizem e fazem as agências reguladoras de transportes a esse respeito?

Cidadãos que ainda podem pagar as mensalidades de plano de saúde, usualmente reajustadas bem acima dos índices oficiais da inflação, esbravejam que o atendimento nos serviços médicos credenciados pelo plano consegue a façanha de ser pior do que o do SUS.

Fazer com que várias empresas privadas de telefonia, TV por assinatura, acesso à Internet, planos de saúde e distribuição de energia elétrica cumpram o que está no contrato de prestação de serviços e no Código de Defesa do Consumidor é motivo justo de indignação, azia e insônia para muitos brasileiros. Os PROCONs estão abarrotados de queixas. Sorte dos advogados especializados em Direito do Consumidor e do dono do site Reclame Aqui.

Onde foi que falhamos?

Além de nominar os culpados por essa lambança, é bom os cidadãos e cidadãs deste país arregaçarem as mangas em defesa do que resta do nosso patrimônio público, antes que algum irresponsável proponha privatizar até o Judiciário.

 

4 comentários

  1. Privatizar.

    Desculpe, mas o judiciário já está privatizado. É só ver o comportamento dos juizes e tribunais, atendendo aos anseios dos grandes grupos econômicos, em detrimento do País, do cumprimento dos mais elementares preceitos constitucionais e legais.

  2. Quem chocou o ovo da serpente???

    Foram os militares ou foram os estudioso do PMDB, PSDB, PFL, PT?

    A certeza é que a serpente está comendo o sertor público por completo. E quem achava que o privado iria melhorar, negativo com o serviço público na berlinda o privado nivela por baixo. Escolas privadas e planos de saúde já estão com qualidades inferiores. 

    A soberania nacional foi para o brejo, o PT trabalhou errado e agora estamos colhendo o fruto amargo.

    O Brasil só não virou a Grécia porque é grande demais e o custo de vida é muito barato. 

    O Brasil possui a maior mineradora de minério do mundo, mas é incapaz de fabricar ligas metálicas de qualidade superior. 

    O serviço público do setor agropecuário está minguando enquanto as multinacionais bufando de dinheiro. O governo banca as multinacionais do agronegócio via emprestimos bancários subsidiados aos agricultores e no perdão de dívidas, como o agricultor paga em dinheiro e não em produção sifudemos!!!

    Desculpem, boa tarde!!!

     

     

    • Mea culpa

      Meu nome é Classe Média e confesso: fui eu. Me deixei manipular, me deixei enganar. Mas quem efetivamente fez fui eu.

      Fui eu acreditando na promessa de um Brasil moderno, colorido, cheio de propaganda de tudo que é empresa enorme dos EUA. Fui eu acreditando que o brasileiro é, por sua natureza, um país fadado ao subdesenvolvimento e à subserviência a países estrangeiro, muito mais legais que a porcaria do meu. Fui eu ao discriminar os pobres, ao repetir que tudo que era público podia ser uma porcaria mesmo porque era prá pobre, mesmo. E eu, quase fidalgo, era, além do nome, da classe média. Juro que acreditei que ia conseguir ganhar uma casquinha da fortuna toda que tinham aquelas empresas estrangeiras riquíssimas. Eu e meu nojo de entrar em casebre de chão de terra batida, de paredes de pau-a-pique. Aquilo não era eu, era Brasil.

      Votei nas eleições – e fora delas, torci – para nos tornarmos um EUA, uma paraíso da classe média, acreditando que para ser tão importante como “presidente do Brasil” tinha que ser, no mínimo, um Fernando. Podia ser Henrique, Collor, qualquer coisa menos um pobre. Porque pobre?… bem, pobre era fácil: ou trabalhava para mim, como empregado ou como subordinado, ou meu amigo juiz jogava na cadeia e pronto. Cada vez mais eu via, independente do lado que eu olhasse, que era bacana cuidar do meu e, olha… esse negócio de “os outros” era para os fracos. Se esse “outros” não estivesse no meu caminho, que se danasse. E se estivesse, nenhuma solidariedade. Pelo contrário, podendo eu o destruía. “O mundo é uma selva”, eu repetia olhando no espelho todo dia, “sou eu ou ele”. E assim fui fazendo do mundo uma selva, mesmo.

      Fui eu, enfim, que choquei esse ovo. E quando a serpentinha nasceu, eu a alimentei na esperança de que um dia ela me chamasse de papai. Mas que nada! Só agora, que a serpente cresceu, vejo que a criei na vã tentativas de receber um agrado dos seus verdadeiros país. E ela não só me mordeu como está mordendo a todos os meus concidadãos. E descubro que ninguém está mais acostumado a ajudar ninguém. A vida virou mesmo uma selva.

      E quem quiser que faça melhor discurso de classe média que eu. Não é difícil.

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