Como o Moralismo no Sudeste pode afetar a preservação da Amazônia, por Gunter Zibell

Como o Moralismo no Sudeste pode afetar a preservação da Amazônia

por Gunter Zibell

Eu andei observando alguns dados da última Datafolha.

Há um fenômeno interessante: se extrairmos os evangélicos do total, Bolsonaro e Haddad estão empatados.

Evangélicos são 70% pró-Bolsonaro, e esses 40% de votação a mais que Haddad, multiplicados por 30% de sua participação na população, explicam os 12 pp de diferença (56 – 44.)

Isso é muito interessante porque sabemos que há uma onda liberal de longo prazo, há também uma onda anti-PT. São os argumentos usados pelas classes médias. Mas elas não tem apenas a ver com a Lava Jato, pois a votação do PT para presidente já caia 4 a 5% a cada eleição desde 2006.

Só que justo nas classes médias a votação de Haddad não está significativamente menor que a de Dilma. Em SP capital parece até que será maior. Deveria ser uma votação bem menor, não? Pelo menos seguindo a tendência de longo prazo. Mas parece que a queda estagnou.

Na verdade, falar em corrupção ou em ser anti-esquerda agora (discurso bem do Doria) não altera os votos, em muitos grupos, daquilo que já ocorreu em 2014!

Se alguém usa isso como justificativa de voto, é irrelevante.

Ou já não votaria no PT de qualquer modo (mesmo que este tivesse feito uma montanha de autocrítica.) E nem precisaria de Bolsonaro, se contentaria (e com menor oposição da mídia) com Doria, Alckmin, etc. Qualquer perfil liberal.

Como se deu, então, a virada de Bolsonaro?

Sabemos que nas faixas inferiores de renda Haddad e Bolsonaro empatam. Mas também sabemos que evangélicos são quase a metade da população nessas faixas. E também que cerca de 2/3 deles vota em Bolsonaro.

Ora, para fechar a conta, teremos que cerca de 2/3 dos católicos nessas faixas são Haddad! (versus metade na população toda.)

Católicos são, assim, menos preocupados com corrupção ou ‘esquerda’? Ou mais preocupados com ‘democracia’? Pelo visto sim. Ou mais fieis ao PT.

Ou evangélicos tem menos medo de Bolsonaro.

O que aconteceu é que Bolsonaro usou uma estratégia brilhante:

Apropriou-se de um discurso moral (em geral legítimo) presente nas pessoas mais religiosas (que tem correlação com pessoas mais carentes.)

Embalou esse discurso em promessa social (pelo efeito, mais midiático e simbólico que real, que corrupção tem com precariedade de serviços públicos.)

Vendeu a ideia de que isso seria antissistema, o que não é, para obter a eleição de bancada de apoio e muitos governadores no Centro-Sul.

E também de que corrupção seria associada a esquerda, para fazer a classe média, que já não votava na centro-esquerda mesmo, e há décadas desejosa de uma economia menos travada, aceitar o pacote. Mesmo que com uns contrabandos autoritários nele.

Foi criada uma dificuldade (vencer os anti-liberais) para vender uma facilidade (aceitar normalizar o novo líder com todos os defeitos.)

Aí, ao final de tudo, conseguem-se os apoios necessários para realizar uma implantação de macartismo no serviço público e também obter as concessões legais necessárias para agradar sua base de apoio inicial, o agronegócio e o mercado financeiro.

O relaxamento de restrições ambientais não é necessário para a economia do país (que poderia aproveitar melhor o que já tem de terras devolutas.) Nem a redução de impostos entre os mais ricos favorecerá a economia e muito menos as contas públicas.

A massa dos eleitores de Bolsonaro, se não for prejudicada também não verá sua vida melhorar. É um autoengano em massa acreditar que um projeto ultraliberal e macartista melhorará o dia-a-dia. Com sorte sobrevirá uma decepção com a dificuldade ainda maior de se combater corrupção e criminalidade. E alguma frustração por ter assinado um cheque em branco e abdicado de alguns direitos à toa.

E tudo isso ainda relegando ao PSDB e MDB, seus mais prováveis concorrentes políticos, o papel de coadjuvantes da direita, posto que como o discurso em geral não colou entre humanistas do Centro-Sul, ou nos estados do Nordeste, o tamanho da URSAL ficou praticamente o mesmo, com a troca do Acre pelo RN e a perda de MG.

É tudo genial e se torna irrelevante discutir com amigos da mesma classe social ou nível educacional tudo isso.

Não briguemos por isso. Eu queria votar em Marina ou Alckmin. E aí nenhum amigo, que já não votaria em Haddad mesmo, estaria sentindo a culpa de jogar o país num abismo antissocial agora.

Caso se concorde com tudo isso, e haja certeza de que não haverá prejuízos, vota-se nulo. Caso haja desconforto com alguma parte dessa estratégia toda, vota-se em Haddad.

Só lamento por índios, meio-ambiente, lgbts (como eu), professores universitários, jovens de periferias e todos que dependem de serviços públicos que serão precarizados; que pagarão a conta dessa muito bem sucedida estratégia de marketing político ultraliberal.

 

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