Crônica do desastre da falta de Lula, por Rui Daher

Estive afetado por 70 acontecimentos, três deles de intensa felicidade: o lançamento do livro sobre Walther Moreira Salles, de Luis Nassif; sua antológica conversa com Juca Kfouri, na TVT; e a entrevista de Lula

Crônica do desastre da falta de Lula
Por Rui Daher

Imagino o território brasileiro 5 dias após ser descoberto pelos portugueses, em 22 de abril de 1500, onde já se prenunciava uma terra Vera Cruz arredondada, como o número, até virar Brasil, o País.

Naquele dia, estive afetado por 70 acontecimentos da semana. Três deles de intensa felicidade: o lançamento do livro sobre Walther Moreira Salles, de Luis Nassif; sua antológica conversa com Juca Kfouri, na TV dos Trabalhadores (TVT); e a entrevista de Lula para Mônica Bérgamo e Florestan Fernandes Júnior, da Folha de São Paulo e do El País Brasil, respectivamente.

Os demais 67? Os pitacos dos filhos do Capitão, sua investida contra o ensino nas áreas humanas, a oferta para o turismo heterossexual (“Venham comer nossas putas pobres, mas antes lavem os pênis”), as querelas enrustidas com Mourão, e os desfechos que conheceremos, o fim da luta ambiental, o baba-ovo tardio com a China, e merdas tantas.

Ah, sei lá mais o quê, tantos atentados são, que me farão no diálogo-crônica a seguir ser rude, preconceituoso, talvez, injusto. Mas, pelo que me diz o cotidiano, que ouço da massa ignara (Não gostaram, esquerdistas? Fodam-se! Não preciso de loas, mas sim de verdades, mesmo de proletários que, no Brasil, nunca entenderam o “uni-vos”).

Para isso, invoco nesta noite, eivada pelo “Clube da Esquina”, um vinho barato e um charuto mais ainda, o Conselho do “Dominó de Botequim”.

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Venham Darcy Ribeiro, Ariano Suassuna, Luiz Melodia, Dr. Walther e Alfredinho “Bip-Bip”, e iluminem-me. O que mais quero é estar aí com vocês. Aqui não sirvo para mais nada. Força nenhuma para continuar na luta com as trevas. Acabou a energia de minhas baterias, afinal duraram 73 anos. Como as de Lula, um herói, perto de quem sou mínimo.

– Chegaram? Bem-vindos. Tomam alguma coisa?

Uníssono: “O que tiveres”.

Brinco: “esperma de pintos limpos”. Gargalhadas gerais.

– Conselho de amigos, com as crônicas escritas nesses últimos 3 anos, você poderia publicar mais dois livros. Por que não o faz?

– Porque sou muito bem pago nas digitais, onde escrevo.

As gargalhadas soam ainda mais altas.

– Esquece, responde Dr. Walther. Sem editora, irá mais uma vez sobrecarregar o favor dos amigos e ainda perderá dinheiro. Vá a Poços de Caldas e, como sempre, se hospede no Palace. Lá, no Jardim Toscano, conversaremos e te orientarei.

– Obrigado, Dr. Walther. Recebeu a espetacular manteiga que comprei no Mercado Municipal de Poços?

–  Claro. Quando voltares lá, vamos juntos comprar. Provou o doce de leite com café?

– Maravilha, mas posso falar um pouco sobre o Brasil?

– Por isso aqui estamos. Para ouvi-lo. Desembucha! Manda um straight up, como minha gravata-borboleta pediria ao barman do cassino de Poços.

–  Amigos e povo que me lê – vão encarar? Estou convicto de que Lula e sua família não fizeram grandes ilícitos financeiros que pudessem comprometer os benefícios que o presidente fez para o Brasil, em todo o período em que foi presidente. Espero provas há anos. E ninguém me as fornecem de forma categórica. Pelo contrário, apenas ilações e delações premiadas, o “morismo”, que há de pior no país.

– Menos ainda, de Dilma, ouço a voz grave de Ariano.

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– E quem convenceu o povo de tamanho infausto, Mestre Suassuna?

– Os pulhas da mídia, do Judiciário, das elites econômicas e da ignorância popular, convenceram a todas as classes que sim, Lula roubou.

-Pois é, Darcy, mas fixo-me na última. A concepção que culpa Lula de ter enriquecido com sua família através de corrupção nunca, explicitamente, foi comprovada. Pelo contrário.

– Ruizinho, eu Darcy, e creio que os demais, não nos daremos ao trabalho, mas bastaria que seus leitores procurassem o depoimento de Paulo Okamoto, na internet, sobre como vive a família de Lula. Pobres como sempre foram. Ou seu chorado neto teria ido ao Bartira, diferente de você que, depois de sua queda recente, correu ao Sírio Libanês? Meritocracia?

– À merda, Darcyzinho. Aonde iremos parar?

– Melodia responde: “Se alguém perguntar por mim
Diz que fui por aí
Levando um violão debaixo do braço
Em qualquer esquina, eu paro
Em qualquer botequim, eu entro
E se houver motivo é mais um samba que eu faço
Se quiseres saber se eu volto diga que sim
Mas só depois que a saudade se afastar de mim
Mas só depois que a saudade se afastar de mim”.

– Certo, Luiz e Conselho, mas isso sou eu que aqui vivo. E o País?

– Cabe ao povo decidir. Você, como nós, já era. Assistiu ao filme de Glauber Rocha, “Terra em Transe” (1967)? Pois é.

 

 

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1 comentário

  1. Caro Rui, você salvou o meu domingo modorrento aqui na ensolarada praia de Boiçucanga, após a Santa missa dominical, presidida por um ministro da Eucaristía, já que o pároco titular da paróquia de São Sebastião, não dá conta, de celebrar, em mais do que 3 comunidades da paróquia, e ter que(quase) dormir, na homilía do tal ministro da comunidade local. Enfim, já que não tenho tantos “amigos”(imaginários ou não) como você, aproveito o gancho, para concordar inteiramente com você, no que concerne aos assuntos favoritos, e entre eles, a esperada entrevista do Lula ao El País e à Folha. Impressionante a capacidade do Lula, de discorrer sobre todos os assuntos da pauta,e o seu destemor, de ferir suscetibilidades, ao citar nominalmente os seus perseguidores e algozes. Certamente seria mais simples conviver(politicamente, é claro) com seus adversários políticos, de dentro e de fora do Congresso, como fêz durante os seus anos na Presidência da República, e de ter que conversar, ceder e conceder, aos hipotéticos aliados, e está sempre na defensiva, contra as oposições, mas contra a excessão do Poder Judiciário, ” o buraco é mais embaixo”mas como disse e repetiu na entrevista, priorizando o desenvolvimento do Brasil, e o atendimento prioritário aos mais necessitados, e até então excluídos. Depois desta entrevista, qualquer outro assunto, é secundário, e eu não estragaria o sabor destas geladíssimas “Original” que a Cláudia, dona da barraca de praia, gela(quase congela) prá mim, além de me ceder sempre uma tenda(pequena mas aconchegante) nesta atualmente bucólica Maresias.

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