Feliz Ano Velho, por Sergio Xavier Ferolla

Obcecados pelo predatório espírito neoliberal e devotados ao atendimento de interesses do capital especulativo e apátrida, esses executores do planejamento econômico já chegaram ao absurdo de falar, inclusive, na privatização do SUS

Feliz Ano Velho (*)

por Sergio Xavier Ferolla (**)

Em todos os continentes, cenários estudados indicam que o ano de 2020 deixará sequelas na história dos povos, não só pelos malefícios sanitários da diabólica COVID 19 e consequências decorrentes na economia, como pelas repetidas violações aos direitos e à livre manifestação das pessoas.

Por isso, lideranças responsáveis buscam alternativas para que seus países, inclusive após a esperada imunização pelas vacinas, administrando com eficiência cautelas e exigências de isolamento social, tenham condições de se engajar numa moderna revolução no setor industrial e dos serviços.

Para essa renovada etapa de progresso e desenvolvimento, a intensa utilização da automação e sistemas computacionais exigirá profissionais super qualificados, assim como políticas públicas priorizando recursos para ciência e tecnologia. É preciso ter em mente, no entanto, que apesar das providências a nível governamental e esforço dos empreendedores, efeitos devastadores restarão para boa parcela da sociedade, mesmo depois de superada a fase crítica da pandemia.

Frente a tão ameaçadores horizontes, é aterrador constatar que, até o momento, enquanto o mundo desenvolvido luta para superar muitas adversidades, nosso governo, por deturpação ideológica e incompetência, minimizando os alertas da ciência e a perda de milhares de vidas nas unidades de saúde, persiste em politicas públicas superadas e incapazes de agregar benefícios ao bem estar social.

Além de não priorizar o sistema produtivo doméstico e a geração de postos de trabalho, seus economistas consideram símbolo de modernidade entregar aos abutres do mercado empresas de interesse nacional, criadas para dinamizar segmentos da infraestrutura doméstica. Como um sistema Interconectado, tais empresas setoriais atuam em benefício de um país continental e, acentuadamente, assimétrico.

Constituem exemplos dessa estratégia, no momento sob a ameaça dos demolidores do Estado, organizações como a Nuclebrás, a Eletrobrás e a Telebrás, além da portentosa e eficiente holding Petrobrás, cuja competência é estendida às subsidiárias especializadas e organizadas para explorar potencialidades nas regiões em que atuam.

Obcecados pelo predatório espírito neoliberal e devotados ao atendimento de interesses do capital especulativo e apátrida, esses executores do planejamento econômico já chegaram ao absurdo de falar, inclusive, na privatização do SUS, Sistema Único de Saúde, assim como de instituições modelares como os Correios e a Casa da Moeda.

Conivente com tamanhas ameaças, o governo atesta sua incapacidade ao menosprezar a tragédia da Pandemia, “uma gripezinha que já está passando”, como contesta e provoca descrença nas determinações preventivas e assistenciais. Além de não coordenar ações sanitárias de responsabilidade da União, cria óbices na suplementação de recursos materiais e financeiros para a malha hospitalar do serviço público.

Com a mente voltada para sua pretensa reeleição em 2022, o Presidente estimula seguidores ideológicos e arrebanha congressistas ansiosos por cargos públicos, ao mesmo tempo em que busca solapar seus imaginados opositores. Para fugir de atribuição inerente ao cargo que ocupa, considera estados e municípios como responsáveis pelos dramas da população, mas afronta, publicamente, suas adequadas determinações.

As ameaças se avolumam na fase crescente e mais ameaçadora da segunda onda epidêmica, com a população mal informada e sem saber a quem obedecer.

Frente ao vácuo de competência do Ministério da Saúde e a urgência de um Plano Nacional de Imunização que mobilizará técnicos e especialistas nos rincões do território, a sociedade testemunha manobras políticas vergonhosas para aquisição das vacinas ofertadas e medicamentos complementares.

Infelizmente, frente à falta de ações responsáveis a nível federal, as comemorações de Boas Festas, motivadoras de alegria e alivio nas tensões políticas, também acabaram criando condições favoráveis para a propagação do Vírus.

Se superados os desencontros e os trâmites burocráticos, janeiro abrirá estreita janela para a imunização de boa parte dos mais vulneráveis, mas os temores prosseguirão por longo período, pela realização da complexa logística de distribuição e aplicação das vacinas. Por isso, grande parcela da população permanecerá exposta à contaminação em inadequados transportes públicos, como na rotineira busca por trabalho ou pelas modestas e incertas parcelas dos auxílios emergenciais.

Se continuada a inaceitável conduta da administração federal, as omissões e desastradas decisões nos poderes da república, é desalentador imaginar os brasileiros, em futuro muito próximo, considerando o amargurado 2020 que se foi, como um “feliz ano velho”.

(*) Texto publicado originalmente no jornal “A Voz do Povo”, de Bom Jesus de Itabapoana/RJ

(**) Tenente Brigadeiro Sergio Xavier Ferolla – Ministro Ap. do Superior Tribunal Militar

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