Finalmente, acabou o dia das mães, por Mariana Nassif

Finalmente, acabou o dia das mães, por Mariana Nassif

Ufa, passou o domingo.

Confesso que o meu foi extremamente problemático, o primeiro dia das mães que passei longe da cria e eu amo um ritual e amo mais ainda ser a mãe dela e, olha, ela aparentemente estava ocupada com a minha ausência e me ligaria mais tarde, quer dizer, na noite das mães e então doeu, doeu e doeu e cheguei a chorar, eu falo que a galera acha que filha de Iansã é guerreira, é sim, viu, é sim – até que coloque filho no contexto. A vida acaba, gente, é uma dor-sensação tão profunda que só quem sente assim sabe do que eu tô falando e, claro, quando escrevo aqui dou risada porque obviamente não foi tão sério assim mas naquela hora, ufa, achei que fosse morrer tamanha a ingratidão que vinha, ou melhor, não vinha, porque não vinha nada. Bom, Oxalá me livre de ter uma mãe dramática e intensa que nem eu – porque a filha, ah, igualzinha, grata.

Bom, na verdade comecei a escrever aqui pra comentar que quero começar a achar essas datas uma bobagem. Comercialmente falando eu já acho e me recuso a comprar presente, seja porque o orçamento está curto seja porque acho que dar presente feito com as mãos, pra quem sabe fazer e eu sei, é a melhor pedida – ou comprar algo incrível que alguma pequena produtora também mãe confeccionou, há tempos estou numas de economia prudente e colaborativa, vamos mudar o mundo começando com a gente mesmo, né? Agora, neste domingo, entre uma revolta pessoal e outra, me peguei pensando na enorme quantidade de pessoas que não tem um relacionamento sequer normal com a mãe. Não, não estou falando das pessoas que não são apaixonadas pelas mães, mas sim daqueles que, eu conheço e você também conhece, têm problemas reais e/ou psico (que pra mim é tudo a mesma coisa: conteúdo não elaborado é, de certa forma, a realidade que a pessoa vive, não é mesmo, Jung, meu amor?).

Como é que essa pessoa passa por um dia desse? Um dia de lembrar que foi preterido, mal-tratado, não amado, desacolhido, machucado, um dia de mágoa no coração? Ou será que esse dia passa olhando praquela tia, prima, irmã ou conhecida que pegou esse papel e cumpriu assim, por amor? Ou nem passa e eu sigo aqui fazendo o drama que me é peculiar, mas as perguntas, ah, as perguntas aparecem na minha cabeça e eu, pra me curar, escrevo.

Dei uma desligada das redes sociais por inúmeros motivos e, então, no domingo, ansiosa pela “mensagem” da cria, passeei bastante pelo Instagram e, olha, mesmo em terapia há anos, a coisa pegou um pouco. Tanta mãe incrível, maravilhosa, completa, mágica, exemplo de vida, forte, auto-suficiente… e eu ali, com algumas questões profundas com a minha mãe e, neste ano, espero que excepcionalmente, enfrentando o afastamento físico e de certa forma emocional da minha filha. A internet não é para os fracos.

Chega segunda-feira e ainda sou obrigada a me deparar com o “dia das mães adotivas”, como se, pessoal, alô, vamos encarar, fosse alguma homenagem especial comemorar num dia diferente um assunto que, inclusive legalmente, vem travando batalhas frente a igualdade. Não quero nem entrar no detalhe da questão pessoal, mas apontar a lupa para o quanto a galerinha anda abordando temas relevantes de forma “pires”, que é como eu chamo este olhar raso pra tudo e qualquer coisa, mesmo praquilo que é necessário e essencial – como a questão da adoção, por exemplo. E não me vem falar que sabe sobre o tema porque segue o Bruno Gagliasso e a Giovanna Ewbank porque, olha, eles são demais mesmo, mas eles são elite e, acredite, eles também editam a vida real quando ela vai pro online. Quase ninguém “sabe sobre o tema” de espiar a vida alheia, anote: serve para qualquer tema.

“Tem as mães que morreram”- é, tem mesmo, e eu não me sinto confortável em escrever sobre isso porque acho que o luto é algo tão sensível e profundo que palavra alguma pode expressar o que é intensificar sensação num cenário desses.

Uma amiga em Santos contou que na escola da filha dela é celebrado o dia da família – no das mães e no dos pais – e, olha, achei uma saída muito mais criativa e positiva e, veja só, mais honesta e confortável especialmente pra criança. Vai quem é familiar: avó, avô, tio, tia, mãe, pai também.  E no dos pais, a mesma coisa: vai quem tem vínculo.

Vínculo.

Confesso que essa pequena informação salvou meu dia, assim como eu acho (tenho certeza, na verdade) que vínculo salva vidas – muito mais do que mãe ou pai celebrado num domingo qualquer do ano, seja em Maio ou Agosto. O mundo, eu sempre falo, está esquisito, mas caminhando, caminhando e caminhando…

 

5 Comentários

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Eduarda Tagliari

- 2018-05-17 12:32:02

O dia amanheceu feliz para
O dia amanheceu feliz para Rodrigo e do outro lado do mundo para Isabella. Rodrigo acordou cedo e preparou um ótimo café, atravessou a sala com uma bandeja na mão e entrou no quarto de sua mãe, e a acordou carinhosamente. -filho não acredito, você fez panquecas para mim, é um ótimo cozinheiro, arrasou. -te amo mãe, eu fiz isso pra te agradecer, a minha vida é tão corrida, que decidi que nesse dia das mães não me importaria com mais nada e viria aqui te agradecer por tudo, por aceitar a minha homossexualidade,por me dar apoio sempre quando eu preciso, mesmo não sendo a minha mãe biológica, quando uma mãe me abandonou, eu ganhei outra e essa é a melhor mãe do mundo, jamais te chamaria de adotiva, você é minha mãe, minha única mãe. No outro lado do mundo acordou Isabella, fez um ótimo café, pegou as fotografias e enquanto bebia uma xícara quente de café, folhava um álbum antigo, lágrimas caiam de seus olhos. -a minha mãe de verdade era cruel, ela tinha problemas e você vovó, minha mãemae que cuidou de mim tão bem, me ensinou a perdoar o passado. A senhora não está mais aqui, mas meu coração se enche de alegria de lembrar de você, minha mãe, que cuidadora o que, a senhora não só me cuidou mas fez o papel de uma mãe de verdade, me ensinou muitas coisas, me tornou a mulher que sou hoje, eu não estive numa creche esses anos todos sendo cuidada enquanto minha mãe se divertia com as loucuras dela, eu estivesse num lar sendo amada e sei que mesmo numa creche a mulher que cuida das crianças que nao ganham amor suficiente das mães, é vista pelos olhos da criança como uma mãe e até nos orfanatos a Freira Maria, Joaquina, Manuela e tantas outras são vistas como mãe e não como cuidadoras. Você mamãe me ensinou que onde a amor não importa os nomes ou os termos, sempre a uma mãe mesmo que ela esteja longe. Aceitaremos a igualdade, quando aceitarmos um dia das mães misto com a mãe de criação, a mãe biológica, a mãe adotiva, aceitaremos um dia dos pais misto com um pai de criação, um pai biológico, um pai padrasto, um pai adotivo. Por que se fazer o dia da família ou o dia dos pais adotivos ou o dia dos pais cuidadores se no coração de cada um e na fala de cada um existe o afeto e as palavras mãe e pai? Eu quero encontrar alguém no mundo que chame sua mãe que morreu de morta, a mãe de criação de cuidadora e mãe de adoção de adotiva. E se sua filha não te mandou mensagens no dia da mãe não se preocupe você sabe que ela te ama e não se esqueça que muitas pessoas talvez tenham feito as pazes com suas mães nessas datas, pois existe um dia das mães para aqueles que esquecem delas e isso pesa na mente para existir a saudade e da saudade a reaproximação e o perdão. Obrigada por lerem e tenham um ótimo dia.

Carioca

- 2018-05-16 14:00:44

Caracas! Só muda o endereço.

Caracas!

Só muda o endereço. Domingo, dias das mães, o filho maior de idade em merecidas férias junto com a namorada no interior do Paraná e a mãe aqui em casa no Rio acorda as 7h da madrugada, pega o celular e .... "Ué! ele nem mandou mensagem pelo dia das mães?"

Frase repetida até as 23:59h quando em arrebatado arrebatamento pega o celular e manda um coraçãozinho pulsante pro celular do filho.

Para alívio da minha cabeça ele devolve o coraçãozinho não pulsante na segunda ..

Rui Ribeiro

- 2018-05-16 13:48:20

Por falar em maternidade...

Ontem, nas minhas alucinações, eu pensei no caso do governador de São Paulo, Márcio França, o qual homenageou uma policial militar que assassinou um assaltante. Eu cheguei à conclusão de que se a agente de polícia tivesse assassinado o assaltante não por prazer, mas por força das circunstâncias, ela abateria também o governador que, ao homenageá-la por ela ser assassina, tira proveito até da falta de segurança pública, que é um direito e responsabilidade de todos e um dever do estado, o qual é governado por ele.

É como se o governador tirasse proveito de sua própria torpeza.

 

"Just as every cop is a criminal
And all the sinners saints
As heads is tails
Just call me Lucifer
'Cause I'm in need of some restraint" Rolling Stones, simpathy for the Devil

Maria Luisa

- 2018-05-16 13:30:50

Todo dia é dia D...

Essas datas comemorativas para consumo me consomem. Primeiro porque não sou pessoa de datas homologadas pelo calendario, segundo porque acho tão sem sentido darem presente para mãe ou pai ( anos atras um colega "super sensivel" deu um livro de receitas para que a mãe melhorasse sua cozinha e ainda achou um absurdo a mae não ter gostado muito...) e acompanhar esse presente daquele gesto tão sem-graça de "feliz dia isso ou aquilo". 

Quem quer, quem ama, quem gosta, quem recebeu afeto e o tem para dar, qualquer dia, quaquer momento é aquele de se dizer que se quer bem. Apesar de todos os pesares das familias.

Em um dos filmes de Woddy Allen, um personagem diz que as pessoas deviam passar por um psicotécnico antes de terem filhos... Se assim fosse metade da humanidade seria proibida de pôr gente no mundo.

Eduardo Outro

- 2018-05-16 12:50:41

Mariana, penso que há 2 dias

Mariana, penso que há 2 dias das mães. Um de verdade, sem data,  aquela estória de que deve ser comemorado todo dia pois dia das mães é todo dia, etc. e tal. E esse para vender bugigangas, mesmo caras, bugiganga no sentido de não necessárias. As mães não reclamam, fingem que gostam,  porque são mães. Mas me desculpe a ousadia. Uma dúvida que não me deixa, por não ter encontrado explicação, não sei se há, é o porque de numa frase com substantivo masculino e feminino o adjetivo ser masculino e não o contrário. "Luis Nassif e Mariana Nassif são AUTORES de posts no GGN". Se mudar autores por autoras está gramaticamente errado, não soa bem, mas por que ? As mulheres são desvalorizadas desde Adão e Eva   (Deus fez Eva da costela de Adão e não o contrário, seria porque Deus é homem e machista ?) mas isso  explica a Gramática ? Não sei ! E agora, ousadia é escora frágil, mais para petulância mesmo, pergunto : Mesmo sem ferir a Gramática, não seria mais pertinente ter escrito "Como é que uma pessoa passa por um dia desse ? Um dia de lembrar que foi preteridA, mal-tratadA, não amadA, desacolhidA, machucadA..." ?. 

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