Nasce uma estrela, por Gustavo Conde

Eis o papel histórico de Guilherme Boulos. O que Ciro não conseguiu, o que Marina não conseguiu, Boulos consegue: rasgar a terra da esquerda com seu arado de Édipo e herdar a energia social que estrutura o lulismo.

A Empresa Brasil de Comunicação (EBC) entrevista o candidato à Presidência da República pelo PSOL, Guilherme Boulos. Ele é o quarto a participar da série de entrevistas da EBC com presidenciáveis.

Nasce uma estrela

por Gustavo Conde

Boulos utilizou todos os conceitos criados pelo PT ontem no Roda Viva. Inversão de prioridades e orçamento participativo são apenas dois. Falou muito da volta da esperança e de “fazer política com emoção”.

Fanáticos por Boulos irão protestar, é claro (pela acusação de “falta de originalidade”).

Mas, para um linguista, esses fenômenos de “desapropriação do discurso” são interessantes demais para serem reprimidos em nome do patrulhamento.

Quando um discurso troca de “mãos”, há um espetáculo técnico para ser contemplado e analisado. É iguaria pura. É como o nascimento de uma estrela para um físico: para-se para ver e relatar.

Boulos tem luz própria, claro. É muito talentoso e tende a ser cada vez mais. Mas também é mais um sintoma de que se tornar um líder original depois de Lula é tarefa basicamente impossível.

A singularidade de Boulos talvez esteja aí: na impossibilidade de se forjar uma nova liderança plena de originalidade e frescor do ineditismo – pelas dimensões monumentais do líder referencial anterior ainda em ‘ação’-, a única chance de sair da ‘sombra’ é ‘sendo a própria sombra’.

Eis o papel histórico de Guilherme Boulos. O que Ciro não conseguiu, o que Marina não conseguiu, Boulos consegue: rasgar a terra da esquerda com seu arado de Édipo e herdar a energia social que estrutura o lulismo.

Não é para pouco nem para menos: Boulos não ataca Lula como os fracassados supracitados. Bastaria isso somado a algum talento para mexer no tabuleiro político historicamente consolidado no imaginário social do país.

O sabor levemente amargo dessa engrenagem que se nos apresenta é que o PT sai fortalecido mais uma vez, pelo menos no conceito. Boulos deixa claro que todas as políticas dignas do nome – com P maiúsculo, como ele diz (um clichê) – são oriundas do PT e dos movimentos sociais que, por sua vez, fundaram o PT.

Poder-se-ia dizer que Boulos estaria muito mais confortável no PT, mas esse é o ponto: no PT, a sombra de Lula seria muito grande e, definitivamente, castradora. Em suma, ele está no lugar certo, na hora certa e do jeito certo.

Lula, na sua onipresença leitora, sabe perfeitamente o que está acontecendo e oferece seu beneplácito, transbordando sua boa e velha estratégia invisível e quase espontânea: se Boulos rompe a terra árida do lulismo e se impõe à semi-distância, Lula também se beneficia diante do surgimento de um novo líder de massas que lhe empresta o conteúdo e a forma.

O duplo Lula-Boulos/Boulos-Lula é a nova dimensão da organização progressista no país. Um precisa do outro e o outro precisa do um. Juntos, serão o antídoto para frear tubos de ensaio tóxicos como Luciano Huck e Sergio Moro. São a triangulação possível diante do sufocamento dos meios de comunicação tradicionais e da espuma festiva das mídias alternativas – que celebra ou rejeita tudo o que vê pela frente.

Em resumo, um país vai nascendo novamente sob os escombros do golpe, da Globo e de Bolsonaro. Se parte da plateia descer do pedestal das idolatrias, pode aproveitar alguma coisa e, quem sabe, também protagonizar o processo.

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11 comentários

  1. Sou eleitor do PT, não exclusivamente. Sou eleitor de esquerda, não integralmente. Sou pelas ações sociais, inclusivas e distributivas. Sou pelas liberdades religiosas, ideológicas. Legalista ao máximo, sem esquecer, em condições necessárias, o uso ponderado e razoável de se fazer a justiça social e minimizar as idiossincrasias das elites, enraizadas quando o assunto é domínio e poder! Tenho boa vontade pelos nomes individuais que surgem como alternativa de poder. Tenho votado, com cuidado e zelo numa coisa que se pareça “social democracia”… sei que é coisa difícil por essas politicas de coalizão de forças! Mas coisa de votar estava no automatismo, na obrigação mesmo! Então, temos BOULOS PARA MOSTRAR UM POUCO DE REALIDADE, NOVAMENTE AOS SURDOS, DESAVISADOS E EGOÍSTAS! EDNO GANACIM – MARINGÁ – PR

  2. Não nasce estrela nenhuma, e Lula era estrela para quem vê política com folclore. Quer colar apelidos de Lula, porque quer carimbar com “Lula” tudo que de bom aparece na esquerda. Quem precisa de líderes populistas e folclóricos? Quem precisa “adorar”, participar de manadas e rebanhos? É tão gostoso assim o conforto de pensar igual? Infelizmente é: e por isso o fascismo e o populismo de todas as cores existem, incluindo o sebastinismo lulista do autor do texto. É confortável se livrar da responsabilidade de pensar por si, é confortável apagar a individualidade, trocar o “eu” pelo “nós”, se livrar da responsabilidade, ser uma ovelha fora da selva, mas dentro dum rebanho de discurso único onde se errar não é pela própria culpa, e se manter no grupo coeso na base do medo, maniqueísmo e ódio, com um oportunista aglutinador com discurso que orquestre isso tudo. Eu não preciso de líderes, penso por mim, e tomo pedradas da esquerda lulista ultrapassada e sem projeto para o país (e deixo claro que embora não acredite, não descarto que Lula seja corrupto, lembro da embriaguez de poder dele na primeira década, quando um cara se acha inatingível, toma menos cuidado ético.)

    Não incluo nessa chinelada a ala civilizada do PT, capaz de dialogar, ceder, e que o autor do texto acima provavelmente suspeita de “traíras almofadinhas”, nem de Ciro Gomes, nem Marina Silva, não os acho fracassados como o autor coloca, fracassado é Lula, que tenta fazer do PT seu puxadinho e caixa de ressonância para seu chororô muito chato. Fracassado é o discurso magoado de Lula, tentando resgatar tarde demais os discursos setentistas e oitentistas que ele mesmo jogou no lixo em churrascos com a direita, com a Globo, com líderes fanáticos evangélicos, todos com o DNA colonial. Só pensa em si mesmo, saudoso da arrogância do papo dos “postes”, daquele poder político que afagava o ego, e essa realidade apareceu, entre outras situações, no ato falho revelador do “Ainda bem que a natureza, contra a vontade da humanidade, criou esse monstro chamado coronavírus” no auge das mortes. O BRASIL NÃO PRECISA DO TEU ÍDOLO LULA, A ÚNICA ESPERANÇA DE BOLSONARO SE MANTER EM 2022.

    Espero que a esquerda sindicalista-barbuda (mesmo quando faz a barba), que só se interessa pela garantia e ampliação das tetas e de suas molezas, e seus representantes, todos desconectados com a modernidade não sejam uma bola de chumbo para a esquerda que, para ela, é “caviar ou nutela”, e que estes ultrapassados LULISTAS, sem ideias, do qual faz parte o autor do texto, não cobrem pedágio ou bloqueiem, nem cobrem toma lá dá cá pelo espaço da representação popular e humanista, que não mais representam mas resistem a dar lugar para os “nutelas/caviar” das novas gerações esquerdistas, que não me venham como se tivessem o monopólio da ética, da bondade, em meio a mil teorias de conspirações, contra os “malvados”, incluindo os “malvados infiltrados” da esquerda arejada, racional e capaz de dialogar e que não faz negacionismo de um mundo em constane transformação, seja nas coisas do nosso dia a dia, seja na política/economia mundial.

  3. “Boulos utilizou todos os conceitos CRIADOS pelo PT”… Sua análise é breve, mas realista em muitos pontos. Mas esta arrogância do PT ser o dono de conceitos, propostas e discursos, que na verdade se inserem naquilo tudo que chamamos de “esquerda”, só demonstra a vaidade de um partido que se acha único, original e melhor do que qualquer outro. É a semente do separatismo da ala progressista, assim como manter uma animosidade com o Ciro que só interessa a direita.
    Lula já abraçou Maluf, ACM e tantos outros com o mesmo nível de currículo, tudo em nome da governabilidade e do pragmatismo. Mas quando é necessário esforço e boa vontade para resolver antigas mágoas ou desentendimentos para compor com outros progressistas… aí o orgulho e os rótulos valem mais do que começar a ter uma estratégia para vencer o fascismo em 2022.

  4. Falar mal do Lula é fácil. Mas quero ver quem aguenta apanhar da globo dia sim outro também com espetáculoas de moro, pf, judiciário et caterva sem provas e ainda manter a serenidade. preso por atos indeterminados. muito pouca gente aguentaria isso.

  5. Ouvir entrevistas do Juliano Medeiros, presidente do PSOL, nos faz sentir uma brisa suave nos ouvidos, em comparação com o stalinismo fanático da Gleisi Hoffmann, presidente do PT.

  6. Gustavo Conde parece que está sempre em processo pré-depressivo. A aceitação de Boulos se dá como uma sombra, um apêndice ou um filho não planejado do “lulismo” (termo que me causa asco tanto quanto o bolsonarismo, pelo seu vazio e seu personalismo). E é o que torna a leitura de Conde reacionária
    A situação de migração de votos dentro do mesmo espectro político era algo bastante previsível, aliás. O PT não se atentou a isto. E nem poderia fazè-lo. O PT nacional está apodrecendo e insiste. Quem percebe que não vai mudar, pega o boné e vai embora.

  7. Que droga será que esse articulista tomou. Boulos não é líder de nada, é apenas um pequeno-burguês do Não Vai Ter Copa, de um partido lavajateiro que faz tudo por uma eleição, um candidato “esquerdista” incrivelmente impulsionado pela imprensa golpista na política de Frente Ampla para isolar cada vez mais o PT. Tudo para em 2022 apoiarem Doria contra o “demônio” Bolsonaro e a burguesia finalmente ter um liberal puro-sangue.

    Se bem que o PT ajuda também, Jilmar Tato é lá candidato de alguma coisa?

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