Novos ventos?, por Lincoln Barros

Tornou-se evidente para todos, inclusive para a turma da bufunfa, que o retorno a uma relativa normalidade e a consequente retomada econômica requer necessariamente o combate efetivo contra a pandemia.

Novos ventos?

por Lincoln Barros

Há novos ventos na conjuntura. Como é de costume, domingo é dia dos jornalões darem espaço a seus colunistas principais, isto é, a seus porta-vozes que posam de imparciais, para firmar sua versão sobre a semana que passou e propagar os ventos que gostariam de ver soprar na próxima. Pois bem, neste domingo há convergências evidentes entre eles, que vale comentar.

O editorial do Estadão é primoroso, ao falar em nome das elites que representa, colocando palavras na boca do povo: “Com o sistema de saúde em colapso, péssimas perspectivas econômicas e cansado de tanta confusão, o povo quer apenas que Bolsonaro pare de prejudicar o País. A esta altura, será um grande favor”, está dito lá.

A Rede Globo é mais incisiva, nas palavras de Mirian Leitão, que poderiam estar na boca de qualquer pessoa de esquerda: “Ele está nos levando para a morte. Qual é a palavra exata? Genocídio.”, escreve ela.

A Cantanhêde não deixa por menos: “como o vírus, o presidente está fora de controle, sempre testando os limites da democracia. Não vê o que todos vêem: o colapso da saúde e as mortes. Mas vê o que ninguém vê: insurreição popular e quebra-quebra, mantendo seus delírios sobre golpes e arroubos autoritários. Uma união nacional contra o vírus depende de uma premissa: isolar Bolsonaro”, é o que ela afirma.

E, claro, nessa linha de ação, nem meia palavra sobre a crise econômica e o flagelo social que daí decorre. Este é um outro assunto.

Então, de forma evidente e cristalina, é um apelo uníssono para afastar Bolsonaro dirigido a quem tenha poder para isso, seja às instituições “que funcionam”, seja aos tutores do genocida, já que a gestão assassina que assistimos está sendo feita por um general da ativa e, portanto, sua responsabilidade não pode ser atribuída a Bolsonaro isoladamente, mas direcionada também ao Exército brasileiro, que autorizou Eduardo Pazuello a assumir o Ministério da Saúde.

Em síntese, Bolsonaro perdeu a narrativa. Tornou-se evidente para todos, inclusive para a turma da bufunfa, que o retorno a uma relativa normalidade e a consequente retomada econômica requer necessariamente o combate efetivo contra a pandemia.

Os temores da direita não param por aí. Lula está de volta. E ele, mesmo não sendo candidato, já movimentou consideravelmente o cenário político. Como apontou, também hoje, o jornalista Jânio de Freitas em sua coluna, “O ressurgimento de Lula da Silva, prestigiado até pela atenção da CNN americana, simultâneo a outros fatos de aguda influência, levam Bolsonaro ao estado de maior tensão e descontrole exibido até agora”.

Somado a isso, a suspeição do ex-juiz Moro parece inevitável, afastando a possibilidade de um novo golpe judiciário-midiático sobre Lula. Como afirma a advogada do ex-presidente, Valeska Martins, em entrevista essa semana: “Abusos de Moro estão provados e não vemos risco de um novo golpe contra Lula”.

Coube à Folha de São Paulo abrir as baterias nesta outra linha de ação, de anular o PT, retomando os ataques a Lula. “A condenação de Luiz Inácio Lula da Silva no caso do tríplex de Guarujá foi justa, e o ministro Edson Fachin (Supremo Tribunal Federal) agiu mal ao anular esta e outra sentença contra o petista, tornando o ex-presidente elegível por ora. Esta é a opinião da maioria dos brasileiros ouvidos pelo Datafolha nos dias 15e 16 de março.” É o que abre a seção poder do jornal nesta segunda.

Pois então, segundo a meteorologia política dos jornalões, a semana não está prometendo uma mudança nos ventos?

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