A possibilidade de independência da Catalunha

Por Marco Antonio L.

Da Carta Maior

A Catalunha à deriva

Caso o plebiscito se realize, e caso a separação vença, isto poderia significar o fim da Espanha como conhecemos hoje, porque é claro que outras regiões, como o País Basco e a Andaluzia poderão imitar o movimento, animando ainda outros separatismos pela Europa, como na Bélgica, Holanda, Itália e até na vizinha França.

Neste fim de semana se realizam eleições parlamentares parciais na Catalunha, a região mais rica da Espanha. Dependendo do resultado, poderá haver, no futuro, um plebiscito sobre a sua independência em relação à Espanha. Essa é a promessa dá coalizão hoje dominante no Parlamento Catalão, o Convergencia i Unió, que tem 62 das 135 cadeiras disponíveis. O presidente (governador) da Catalunha, Artur Mas, pertence ao partido mais forte na coalizão, a Convergência Democrática da Catalunha.

Tanto a esquerda do Partido Socialista (28 cadeiras) como a direita do PP de Mariano Rajoy (18 cadeiras) se opõem ao movimento separatista. Caso o plebiscito se realize, e caso a separação vença, isto poderia significar o fim da Espanha como conhecemos hoje, porque é claro que outras regiões, como o País Basco e a Andaluzia poderão imitar o movimento. E certamente ele animaria outros separatismos pela Europa, como na Bélgica, Holanda, Itália e até na vizinha França.

É claro que o nome “Catalunha” desperta acordes e hinos favoritos das esquerdas. Afinal, a Catalunha foi das províncias espanholas uma das mais encarniçadas contra os falangistas de Franco. (Ver, por exemplo, o romance Saga, de Erico Veríssimo e o livro de memórias Um brasileiro na Guerra Civil Espanhola, de José Gay da Cunha. O também famoso Por quem os sinos dobram, de Ernest Hemingway, se passa em outra região). A Batalha do Ebro, rio catalão, foi das mais longas, sangrentas e famosas do confronto. 

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Mas o movimento separatista de hoje não tem muito a ver com esse passado glorioso. Tem mais a ver com a onda de direita que varre a Europa, dinamitando as pontes de solidariedade entre países e regiões. O argumento principal do separatismo de hoje é o de que a Catalunha, região mais rica da Espanha, está financiando, através dos impostos, regiões mais pobres e não tão produtivas ou produtivistas. 

O argumento repete o preconceito de que, por exemplo, os países laboriosos do Norte europeu financiam os países indisciplinados do Sul, que se afundaram em dívidas devido aos privilégios concendidos a seus trabalhadores e aposentados. É também hoje um dos principais argumentos levantados contra o governo “vermelho” do agora “perigoso” François Hollande que, com seu “populismo” seria, nessa ótica, a verdadeira “ameaça” contra o euro e a necessária “modernização” da Europa.

Mas, ele mesmo, nunca foi um entusiasta da separação. Há fortes razões para isso, porque a Catalunha correria o risco de perder parte do mercado hoje interno da Espanha. Já há boicotes a produtos catalães em outras regiões devido à “arrogância” do separatismo. Haveria complicadas negociações a empreender em todos os setores, além de, pelo menos num primeiro momento, a Catalunha ter de enfrentar uma forte oposição por parte dos demais governos europeus e a batalha pelo reconhecimento internacional. Não se sabe, portanto, o que ele vai de fato pretender com esse movimento, se de fato levar adiante o plebiscito (que teria uma oposição judiciária por parte do governo de Rajoy), ou se negociar vantagens com Madri.

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Há uma parte dos trabalhadores catalães que se sentem seduzidos pela idéia da separação, uma vez que o governo de Rajoy vem atacando direitos e reduzindo salários. Mas seria uma ilusão pensar que um governo catalão conservador fosse seguir uma outra política que não a da cartilha ortodoxa hegemônica na União Européi a e na Zonda do Euro.

Domingo estarei em Barcelona, presenciando in loco os acontecimentos.

Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim.

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