O jogo eleitoral do jeito que Lula quis

Do Estado de Minas

Por Marcos Coimbra

O roteiro da eleição

Uma coisa chama a atenção no modo como o tabuleiro acabou montado: o quanto é parecido com o que Lula queria. Conseguiu o que havia planejado para Dilma e antecipou os movimentos da oposição

Com as convenções do fim de semana, o jogo da eleição presidencial assumiu feições definitivas. De agora até o fim do mês, de relevante, só resta uma pergunta por responder, a de quem será o companheiro de chapa de Serra.

Não é algo que tenha impacto eleitoral decisivo, pois só em casos excepcionais o nome do vice faz alguma diferença apreciável. Ainda assim, é um lance que não foi jogado e que ocorrerá nos próximos dias, junto com os últimos acertos sobre coligações formais, que interessam pelas repercussões no tempo de propaganda gratuita na televisão e no rádio.

Mas o jogo fundamental foi concluído e uma coisa chama a atenção no modo como o tabuleiro acabou montado: o quanto é parecido com o que Lula queria. Ele não só moveu suas próprias peças de forma a conseguir o que havia planejado para Dilma, como antecipou corretamente os movimentos da oposição, assim se precavendo contra o que elas acabaram fazendo.

Ele talvez não calculasse que Marina fosse picada pela mosca azul de uma candidatura presidencial, que se dispusesse a deixar o PT, mudasse de partido e embarcasse em voo tão ambicioso. Sem ela, o cardápio da eleição ficaria ainda mais igual ao que ele havia imaginado, um plebiscito em que a população escolheria apenas entre alternativas, PT e PSDB, seu governo e o de FHC.

 Em retrospecto, a única operação que poderia gerar traumas maiores nas fileiras do governismo, a retirada de Ciro Gomes do páreo, transcorreu sem deixar cicatrizes visíveis, pelo menos por enquanto. Lula, ao que parece, calculou bem que Ciro poderia ficar (e tudo indica que ficou) frustrado ao lhe ser subtraída a possibilidade de se apresentar como candidato, mas que não teria como se colocar contra Dilma, depois de tudo que dissera e fizera nos últimos anos.

Dentro do PT, os questionamentos a respeito da preferência por Dilma nunca foram significativos. O que faltava era aplainar resistências em algumas seções estaduais, de forma a conduzi-las todas a aceitar as reivindicações dos futuros parceiros na empreitada presidencial. Fundamentalmente, acomodar petistas e peemedebistas em conflito.

Pensando no conjunto do país, Lula só pediu de seus companheiros um sacrifício realmente grande, em Minas Gerais. Nos demais estados, a regra foi não interferir quando o PT tivesse candidatos viáveis aos governos estaduais ou ao Senado. É verdade que alguns grupos locais ficaram magoados, mas não foram forçados a abdicar de projetos concretos. Tiveram que engolir sapos ou adiar sonhos, mas não perderam nada de palpável. Talvez só lhes tenha sido exigido aquilo que antigamente se chamava “coerência”, mercadoria tão desvalorizada na política brasileira atual, não estivéssemos vendo, nos dois campos, casamentos tão esdrúxulos como os que estão em gestação.

Em Minas, não. Foi com dificuldade que o PT mineiro acatou o comando de se retirar da disputa pelo governo do estado, pois se sentia em plenas condições de pleiteá-lo. Mais ainda, não compreendia por que deixar de buscá-lo ajudaria Dilma. O argumento do palanque único não o justifica, pois seria até mais fácil raciocinar que dois ajudariam, em vez de atrapalhar, o “projeto nacional”.

Mas Minas era parte do preço para ter o PMDB formalmente coligado, objetivo que Lula traçou desde o início, raciocinando que mais tempo de televisão para Dilma era menos tempo para Serra. Lá atrás, pouca gente acreditava que o alcançaria, mas ele chegou lá (não custa lembrar, no entanto, que a última e, até agora, única vez em que o PMDB se coligou com outro partido foi na candidatura Serra em 2002, com resultados conhecidos).

Quanto às oposições, Lula foi capaz de adivinhar direitinho o que fariam: o PSDB viria com Serra e os outros partidos o secundariam. Por elas, o segundo turno seria antecipado, que era o que ele queria. No tocante a Serra e Aécio, conhecendo a ambos, Lula deve ter apostado desde sempre que um nunca seria vice do outro.

O fim desta fase que fingimos ser de “pré-campanha” (fingindo respeitar uma legislação que nunca foi respeitada) deve ver Dilma assumindo a dianteira nas pesquisas. É a consequência natural de um jogo bem jogado. Quem o inventou foi Lula, que escreveu um roteiro do qual ninguém, incluindo os adversários, conseguiu escapar. 

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