Os recados a Jair. E o projeto de poder que precisa sobreviver, por Eliara Santana

Os muitos recados ao presidente sinalizam que ele está perturbando mais do que deveria

Agência Brasil

ELEIÇÕES 2022: OS RECADOS A JAIR. E O PROJETO DE PODER QUE PRECISA SOBREVIVER

por Eliara Santana

em seu blog

A semana agitada e fértil em recados se encerra com a nota de Antônio Barra Torres, presidente da  Anvisa, respondendo às investidas de Jair contra os técnicos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. O discurso que a nota enseja é todo articulado para estabelecer um distanciamento em relação ao governo de Jair Bolsonaro. Lembrar aqui um provérbio citado por William Shakespeare pode ser muito útil para entendermos essa lacradora cartinha de Barra Torres: “O diabo pode citar as Escrituras quando isso lhe convém”.

Muito bem, pra início de conversa, é um recado “em tom pessoal”, como noticiou a imprensa. Ou seja, Barra Torres se coloca pessoalmente, enumera seus atributos, suas virtudes; não é uma resposta institucional somente. E, se o presidente de uma instituição ligada ao governo fala em nome da instituição, creio que não cabe esse tipo de recado, a não ser que se queira intensificar certo tom de ameaça PESSOAL. Barra Torres começa a nota destacando sua formação, mostrando que é general – portanto, superior a Jair. Mostra também a “devoção” ao país, ao qual “serviu por 32 anos”. E ressalta que a vida pessoal é pautada por “austeridade e honra” – elementos caros ao pensamento de extrema-direita que faltam a Jair, e Barra Torres pontua isso muito bem.

Ao longo de toda a nota, há um intenso e bem calculado uso de palavras fortes, emotivas, bem marcadas, que resgatam a moralidade e o trabalho árduo, sentidos que são importantes para os bolsonaristas. No começo, ele diz: “Pautei minha vida pessoal em austeridade e honra. Honra à minha família que, com dificuldades de todo o tipo, permitiram que eu tivesse acesso à melhor educação possível, para o único filho de uma auxiliar de enfermagem e um ferroviário”. Ou seja, ele está autorizado a falar de onde fala por puro mérito pessoal e quer deixar isso bem claro para Jair. 

Barra Torres também diz que é médico e cristão e que buscou manter a razão e cumprir os mandamentos. Faz apologia à austeridade ao dizer que vai morrer sem conhecer riqueza – recados bem claros para quem esbanja no cartão corporativo, faz passeios extravagantes e fala coisas estúpidas.

O bolsonarismo raiz – esse projeto de poder da extrema-direita que apenas se usou de Bolsonaro para ser levado adiante – está sendo avacalhado por Jair, o ogro incomível entupido. Portanto, precisa manter de pé seus valores – a moralidade, a religião, a ideia de Pátria, a família tradicional, o senso de honradez. Isso tudo está indo para o buraco com Jair à solta. Esse projeto de poder – bolsonarismo sem Bolsonaro – precisa se manter depois que Jair for afastado – e ele será, não duvidem. 

Em sua nota cuidadosamente estruturada e encenada, Barra Torres evoca a questão do trabalho duro e da honradez pessoal. Usa a linguagem da guerra, de combate ao inimigo. Elementos muito caros a esse grupo messiânico de extrema-direita. Como venho dizendo, precisam se livrar do bode na sala, no caso, Jair. Após colocar todo o seu histórico de pessoa ilibada, honrada e comprometida, em contraponto com Jair, ele exige que o presidente da República se retrate.

Vejam bem: se estivesse falando apenas como presidente da Anvisa, portanto, colocando-se na posição de subordinado ao presidente da República, ele iria rebater as acusações e dizer que nada daquilo procedia. Jamais, se se colocasse como subordinado, ele iria exigir retratação.  Mas, após deixar bem claro sua trajetória pessoal e de carreira bem superior à de Jair, ele exige retratação do presidente da República – como quem diz “sou superior a você, estou onde estou por mérito, o que não é o seu caso”. Ou seja, Barra Torres se coloca explicitamente como superior a Jair, mesmo que ele seja o presidente da República.

Apesar de todo o discurso emotivo que evoca a honra e o respeito à Ciência, não podemos nos esquecer que Barra Torres é aquele que se colocou ao lado de Jair em manifestações em março de 202, sem máscara, e que autorizou o cancelamento dos estudos sobre a Coronavac. Mas, claro, todo mundo pode mudar…       

Por fim, penso que a nota de Barra Torres em nome da Anvisa vem num timing perfeito, na sequência do editorial do JN que bate em Bolsonaro. Portanto, nesta semana, três instâncias de Poder enquadraram Jair e mandaram a ele seus recados: Mídia (representada pelo editorial do JN); Forças Armadas (representadas pela nota da Anvisa e pela portaria do Exército que proíbe a divulgação de fake news e obriga a vacinação nos quartéis); Mercado (nas tratativas que já consideram a eleição de Lula).  

É a tríade em funcionamento para manter o projeto de poder, conquistado sob as bênçãos da Lava Jato e com a unção de Jair, o incomível. 

Essas três instâncias apoiaram o golpe. Ajudaram a destruir o segundo governo Dilma Rousseff. Deram suporte à aberração Bolsonaro; ajudaram a elegê-lo. E igualmente acharam que poderiam controlar o incontrolável.  

Estão vendo que não podem e que Jair, à solta, é uma grande ameaça. 

Por isso, repito: não se assustem se Jair não aparecer na cédula eleitoral.

Editorial de O Globo soa como recadinho do deus Mercado a Lula

Em seu editorial do dia 6/01, o jornal O Globo teceu várias considerações sobre o plano econômico de Lula para a campanha, para um futuro governo. O editorial veio na sequência de um artigo do ex-ministro da Economia dos governos petistas, Guido Mantega, no jornal Folha de S. Paulo. 

O editorial, para mim, soa como recados para acomodações futuras. É como se o deus Mercado, cuja mídia corporativa é porta-voz, dissesse: “Veja, companheiro Lula, a gente vai ter de te engolir, mas seria razoável vc assinalar com alguns pontos mais favoráveis a nós, porque fizemos uma aposta totalmente errada com Jair, o energúmeno, e agora precisamos de você. Mas pega leve, cuidado com as propostas muito transformadoras”.

Segundo o editorial, Lula deveria ser “mais explícito sobre seu plano econômico”. Além disso, o texto faz algumas construções interessantes para talvez colocar Lula contra a parede e tentar colocar para os eleitores que o candidato do PT não está assim tão forte. 

Do lado de quem sempre observou esses movimentos – mídia porta-voz do Mercado –, farejo que o todo poderoso deus já percebeu que as coisas não estão boas de fato para os seus candidatos. Nenhum deles se sustenta e/ou encanta o eleitor no cenário de um pais fraturado – será preciso engolir (e bem) um prato de Lula e será necessário não fazer gracinhas do tipo boicote. Porque o Brasil está muito ferrado, e não haverá espaço, a partir de 2023, para  golpezinhos e outras peripécias – caso contrário, todos morrerão. Portanto, o deus Mercado quer negociar, colocar suas condições aqui e acolá para “engolir” o prato indigesto de Lula. E a porta-voz de sempre, a mídia, fará seu trabalho.    

Eliara Santana é uma jornalista brasileira e Doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), com especialização em Análise do Discurso. Ela atualmente desenvolve pesquisa sobre a desinfodemia no Brasil em interlocução com diferentes grupos de pesquisa.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

2 Comentários

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BRAGA

- 2022-01-10 13:08:25

Eu não duvido nem um milimetro que o Partido dos Generais deu autorização para que Barra torres fosse tão duro. Querem manter a hegemonia de poder conquistado com a ajuda do Partido Lavajatista e coma subserviencia do Judiciário.

Jaçatuba Silva Jr

- 2022-01-09 23:51:35

É a antiga e pequinina, mas muito muito boa: "O VELHO TOMA LÁ, DÁ CÁ."

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