Em SP, deputados criam CPI para investigar “marxismo cultural” nas universidades

Parlamentares da Assembleia Legislativa do estado querem combater “aparelhamento de esquerda” e mudanças na lista tríplice para escolha de reitores

Deputado estadual de São Paulo, Wellington Moura, cria CPI para investigar universidades. Foto: Divulgação/PRB

Jornal GGN – Deputados federais do Estado de São Paulo instituem uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), na Assembleia Legislativa, para investigar e alterar a gestão das universidades públicas paulistas. A medida tem como pano de fundo o combate ao “aparelhamento de esquerda”. As informações são do Estado de S.Paulo.

Os deputados que lideram a proposta são Wellington Moura (PRB), autor da CPI, e vice-líder do governo João Doria na casa, e Carla Morando (PSDB), líder do seu partido na Assembleia.

O texto da CPI, divulgado no Diário Oficial, afirma que a medida tem como objetivo “investigar irregularidades na gestão das universidades públicas”. Para o jornal, acrescentaram que as instituições de ensino efetuam “gastos excessivos com funcionários e professores”.

Eles ainda querem alterar o modelo de escolha de reitores, hoje baseada a partir de uma lista tríplice enviada ao governador, que escolhe um dos nomes. A lista é produzida partir de uma eleição dentro da comunidade universitária, onde os votos dos professores tem mais peso.

“Depois da CPI, muitas ideias vão surgir. Um projeto de decreto legislativo pode alterar a forma de escolher os nomes da lista tríplice. Pode ser um nome indicado pelo governo, outro pelos deputados e um terceiro pela universidades”, disse o deputado Moura.

“Vamos analisar como as questões ideológicas estão implicando no orçamento. Eu percebo um predomínio da esquerda nas universidades. Infelizmente, muitos professores levam mais o tema ideológico do que o temático para a sala de aula”, completou o parlamentar.

Para reitores e ex-reitores a medida aponta para “falta de conhecimento” dos deputados sobre o tema das universidades e as bases que consolidaram as leis hoje estabelecidas tanto para conduzir os recursos do setor de ensino superior público, quanto para a escolha da administração universitária.

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“Temos pessoas de esquerda e de direita convivendo com relativa tranquilidade, somos um espaço para debate de ideias e respeito pelas ideias do outro”, ponderou Marcelo Knobel, reitor da Unicamp, sobre a argumentação dos parlamentares de que setores de esquerda dominariam as universidades.

“Não temos o que temer com a CPI, mas preocupa esse tipo de discussão sobre a importância da universidade”, disse por sua vez Vahan Agopyan, reitor da USP. “As universidades de pesquisa não são só para formar excelentes profissionais e fazer pesquisas. É onde se discutem e se desenvolvem políticas públicas e se trabalha para modificar e melhorar a sociedade”, completou.

Sobre a mudança no modelo de escolha para reitores, baseada na lista tríplice, o ex-reitor da USP, José Goldemberg chamou a ideia dos deputados de “extravagante”.

“O (presidente Ernesto) Geisel mudou a lista tríplice para a lista sêxtupla. Quando eu era reitor (1986-1990), fui ao STF e derrubei essa medida porque a lista tríplice foi colocada no estatuto da USP quando ela foi criada (em 1934). Ela tem autonomia para decidir.”

O modelo de condução de recursos públicos às universidades, lhes permitindo autonomia de gestão, foi implantado em 1989, pelo então governador Orestes Quércia. Ele vinculou recursos do ICMS para USP, Unesp e Unicamp. Um ano antes, a Constituição de 1988 garantiu a autonomia das universidades em todo o país, justamente para não ficarem à disposição dos humores da política. Com isso, as entidades de ensino passaram a ter autonomia para escolher os currículos, programas, dirigentes e colegiados, por exemplo.

Ainda segundo informações do Estado de S.Paulo, desde a autonomia, a USP aumentou em mais de 1.100% a produção científica publicada em revistas conceituadas mundialmente. No mesmo período, em três décadas, houve aumento de 50% dos alunos da graduação e de teses defendidas, 400%.

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Nos últimos anos, as universidades foram atingidas pela crise econômica e enfrentaram problemas financeiros, algumas chegaram a ter mais de 100% dos orçamentos com folha de pagamento comprometidos.

A ideia de que a esquerda aparelhar as instituições vem sendo difundida também por grupos ligados ao governo federal, especialmente estimulados pelo guru e escritor Olavo de Carvalho. O mais novo ministro da Educação, e ex-aluno o influenciador digital, Abraham Weintraub já fez várias manifestações nesse sentido, em uma das ocasiões disse que é preciso “vencer o marxismo cultural nas universidades”.

Os parlamentares da Assembleia Legislativa de São Paulo fazem parte da base do governador João Doria (PSDB) que também tem apoiado ofensivas nesse sentido. Para ler a matéria do Estado na íntegra, clique aqui.

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5 comentários

  1. Gente,

    a tarefa vai ser árdua e longa, pois, como na inteligência humana, existem muitas espécies de marxismos:
    – marxismo culturai;
    – marxismo científico;
    – marxismo artístico;
    – marxismo religioso;
    – marxismo esportivo;
    – marxismo turístico;
    – marxismo pedagógico;
    – marxismo relaxante;
    – marxismo competitivo;
    – marxismo pacifista;
    – marxismo contemplativo…
    A lista é longa, inesgotável talvez.
    Haverá verba suficiente no nosso orçamento?

    Sei não.

  2. A Douta e “poderosa” academia paulista, nunca se declinou a matar a cobrinha quando ela era pequenina, com isto a falácia do “marxismo cultural” cresceu e virou uma enorme serpente, agora vão chegar a conclusão que não eram tão poderosos como achavam que eram e a USP vai virar salame.
    Agora perderam o “timming” e vão ter que correr atrás do prejuízo.

  3. É verdade. Os parlamentares não conhecem muito bem o funcionamento das Universidades públicas paulistas.
    Vai ser um “vamos nos salvar e jogar o peso ao mar”.
    Como sempre, vai sobrar para a arraia-miúda, que está sempre fora dos acordos de bastidores.
    Com ou sem CPI, há pesquisa decente e também coisa de bastidor, em ambos os casos, pouco conhecidas do grande público.
    De fato, não se sabe muito sobre as Universidades paulistas. Para o bem e para o mal.

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