Intercept divide louros e dramas com a Folha – e agora #VazaJato?!, por Bruno Lima Rocha

A parceria com o The Intercept fez com que a Folha ganhasse um pouco de dignidade. Ela mesma, a que firmou a "Ditabranda" e esconde ao máximo o seu passado de amiga da Operação Bandeirantes

Por Bruno Lima Rocha

A estratégia de Glenn Greenwald está correta. Já na sessão da Comissão de Constituição e Justiça do Senado (em 19 de junho de 2019), o ainda ministro da Justiça de Jair Messias Bolsonaro, o popular Sérgio Fernando Moro, disse que não seria conveniente fazer uma operação policial contra o site jornalístico, pois colocariam os difusores das conversas como vítimas. Agora, será que vale a pena entrar na redação da Folha, reproduzindo uma espécie de acerto de contas que Fernando Collor de Mello fizera contra o jornal dos Frias? Óbvio que não.

Ironia da história, como vem sendo dito aos quatro cantos da internet política brasileira. A parceria com o The Intercept fez com que a Folha ganhasse um pouco de dignidade. Ela mesma, a que firmou a “Ditabranda” e esconde ao máximo o seu passado de amiga da Operação Bandeirantes (OBAN, o braço repressivo da ditadura em São Paulo). Na guerra suja, o Grupo Folha emprestava seus veículos para a repressão política que o atual presidente e seu general à frente do Gabinete de Segurança Institucional, o GSI, hoje com Augusto Heleno Ribeiro Pereira e no governo ilegítimo de Michel Temer, com Sérgio Westphalen Etchegoyen tanto admiram.

Vale observar que Augusto Heleno foi ajudante de ordens do ídolo da linha dura, o general quase golpista contra Geisel, o impagável Sylvio Frota! Ou seja, talvez o chilique de Augusto Heleno tenha uma raiz muito maior do que se imagina, tanto no sentido ideológico (por ser chamado de entreguista) como nas relações que possa ter tido na direção do Comitê Olímpico Brasileiro e na Autoridade Pública Olímpica, em período contemporâneo ao reinado de Carlos Arthur Nuzman.

Voltando à cobertura jornalística, a Folha confirma a autenticidade dos diálogos e, ao mesmo tempo, todos nós sabemos que não haveria Operação Mãos Limpas (a original, a italiana) sem aliança entre a Procuradoria e a mídia impressa adversária de Berlusconi. Falando da operação mãe de todas as similares (vide o artigo de Moro avaliando a mesma, datado de 2004), vale lembrar que essa, por sinal, terminou como grande vencedora do desmonte total promovido por Antonio Di Pietro e a quebradeira política do antigo Partido Comunista Italiano (o outrora todo poderoso PCI), vindo a rachar em dois e depois em ao menos três legendas.

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No Brasil, é certo que já vivíamos um clima de “revolução colorida”, quando a partir de 2014, o absurdo se torna o novo normal. Como exemplo, o hoje impagável deputado federal eleito pelo PSL-SP, o ator Alexandre Frota, disse – em entrevista dada ao programa Direto ao Ponto, na Rádio Guaíba de Porto Alegre, na manhã de 20 de junho de 2019 – ter “criado um movimento cibernético para ele” naquele ano. O que diríamos então da sanha udenista dos Nutellas formados nos “workshops” de liderança pelos então jovens que retornavam dos cursinhos de lavagem cerebral e propaganda ultra-liberal financiados pelos Irmãos Koch e realizados na Rede Atlas (Atlas Network), na capital do Império?! Sim, o algoritmo, o Voxer e outros programas de extração de dados e invasão de contas deitaram e rolaram e continuam fazendo-o. Mas, sem mídia convencional e consagrada, nada disso seria possível.

Logo, a indústria dos vazamentos é constitutiva da Lava-Jato e como tal é parte dela. Por tanto, não faz sentido reclamar de tragarem do próprio veneno, pois ao jornalismo – de qualquer matiz ou vertente – cabe difundir o que for de interesse público e após exaustiva checagem. Para quem difundiu conversas de ministros de Estado e presidenta eleita no exercício do cargo, conhecimento de conversas através de celulares funcionais são o que há de menos significativo em tudo isso.

Bruno Lima Rocha (estrategiaeanaliseblog.com / blimarocha@gmail.com) é pós-doutorando em economia política, doutor e mestre em ciência política, professor universitário nos cursos de relações internacionais, jornalismo e direito. É membro do Grupo de Pesquisa Capital e Estado (https://www.facebook.com/capetacapitaleestado/)