Mitos liberais: produtividade, competitividade, economia aberta, por André Motta Araujo

Os fanáticos neoliberais propõem abrir a economia completamente, são loucos. Os EUA têm grande número de proteções e tarifas, inclusive contra o aço brasileiro, para proteger a industria siderúrgica deles

Sempre me surpreendeu a ligeireza com que comentaristas da mídia e seus entrevistados tratam questões complexas com comovente simplicidade.

Abrem a boca para falar de conceitos como se sempre fossem coisa boa, um caminho linear para a prosperidade, um maná para a economia.

PRODUTIVIDADE é um conceito não linear, pode ser analisado do ponto de vista da empresa e do País. Para a empresa aumentar a produtividade parece ser sempre bom, mas para um País a análise é outra.

Vamos a um exemplo. Uma cidade com muitas fábricas de tecidos, emprega 10.000 operários. A cidade vive desses empregos. Uma onda de automatização elimina 9.000 empregos, com 1.000 se produz o que se produzia com dez mil.

Para as empresas foi um fantástico ganho de produtividade, mas para a cidade, uma tragédia. Os desempregados vão deixar de consumir, o comércio afunda, os serviços de saúde são demandados por operários doentes por causa do desemprego QUE É UMA DA MAIORES CAUSAS DE DOENÇAS MENTAIS E GERAM DOENÇA FÍSICA, ALCOOLISMO, DESAGREGAÇÃO DE FAMÍLIAS. As empresas ganharam com produtividade, a cidade perdeu.

A VALE, empresa de mineração, é campeã de prêmios de produtividade, consegue extrair minério de ferro a um custo cada vez mais baixo. Um dos fatores é não gastar muito com represas de contenção de rejeitos de mineração. A produtividade na extração de minérios gastando pouco nas represas levou a uma mega improdutividade a nível macro, para o Pais como um todo, sem falar nas trágicas perdas humanas. O QUE VALEU ESSA PRODUTIVIDADE?

Em nível de Pais, a produtividade nos EUA destruiu os empregos da classe média industrial, levando a uma crise social aguda. No Reino Unido a busca pela produtividade deixou um rastro de desolação e desemprego no interior do Pais, o que levou ao BREXIT. Os ganhos de produtividade para as empresas foram de 60 bilhões de libras, a perda de PIB causado pelo BREXIT até agora vale 230 bilhões de  libras. As empresas ganharam, o País como um todo perdeu muito mais.

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Exemplo clássico é a pequena cidade onde nasceu a fábrica de vestuário BURBERRY. A empresa fechou a fábrica, única fonte de emprego da cidade, que está morrendo. A Burberry hoje só produz na China por causa de ganhos de produtividade. Ganhou ela, e perdeu o País, mas a longo prazo a própria empresa pode perder, há um boicote de muitos clientes que querem roupa produzida na Inglaterra e não na China.

Muitas empresas que investiram pesadamente em automação também podem quebrar. A automação exige incremento do fator capital, quando há queda nas vendas o investimento é irremovível e o custo do capital tem que ser pago, enquanto empresas com menos automação e mais mão de obra podem ajustar mais facilmente seus custos. Mas o pior é a produtividade sem ganho para o consumidor, caso dos bancos, cada vez mais automatizados mas as tarifas. Se os juros não caem, o capital se apropria de todo o ganho de produtividade, o mesmo com o projeto de tirar o cobrador dos ônibus, sobrecarregando o motorista, sem que isso signifique redução do preço da passagem, aumenta o risco de acidentes e conflitos, um mau “aumento” de produtividade.
A COMPETIVIDADE DOS PAPAGAIOS
Rapazes do MBA e seus repetidores na mídia enchem a boca qual dizem que o problema do Brasil é falta de competitividade. Não têm a menor noção do que estão falando, repetem mantras de gurus festejados, mas para entender esses conceitos de maneira ampla é preciso cultura econômica muito maior do a que se espalha pela GLOBONEWS.
É preciso conhecer história econômica, história do pensamento econômico, é fundamental um conhecimento filosófico maiselevado, não basta apostila do INSPER.

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Competividade tem fatores políticos, econômicos, logísticos, cambiais. O Brasil é competitivo em grande número de setores, a China tornou-se competitiva por baixa custo de mão de obra e manipulação da taxa de câmbio. As variáveis dessa capacidade de competir são infinitas, não podem ser simplificadas como os que enchem a boca mostrando sabedoria e modernidade.

A ECONOMIA ABERTA
Aberta onde, em que, porquê? Todos os países industriais posteriores à Inglaterra formaram sua indústria FECHANDO SUA ECONOMIA, porque sem isso ninguém teria indústria no mundo, a não ser a Inglaterra. O Brasil formou sua base de indústria de bens de capital com a Lei do Similar Nacional, que abolida no governo Collor deu início ao desmanche da indústria no Brasil, era 24% do PIB, hoje é 9%, com a respectiva perda de empregos aos milhões.
Os fanáticos neoliberais propõem abrir a economia completamente, são loucos. Os EUA têm grande número de proteções e tarifas, inclusive contra o aço brasileiro, para proteger a industria siderúrgica deles.
Hoje temos no Brasil em supermercados do interior, falo de uma cidade de 70 mil habitantes onde circulo, se encontra água mineral francesa de várias marcas em uma região famosa por água mineral, café italiano, ervilha belga, lentilha da França, e essas almas penadas ainda dizem que a economia brasileira é das mais fechadas do mundo, porque não investigam a economia coreana?
A MANIPULAÇÃO DE CONCEITOS DA MODA
Um dos maiores empresários dos EUA em visita a São Paulo queria conhecer os vinhos brasileiros. Nos restaurantes da moda é mais fácil achar ouro no chão.
O brasileiro acha muito mais chique jantar com vinho francês ou italiano, no entanto o vinho brasileiro, especialmente os brancos, estão a cada dia melhor.
Nos jantares nos palácios oficiais será difícil achar vinho brasileiro, nos EUA só tem vinho da Califórnia em jantares oficiais. Felizmente há um restaurante em São Paulo, com estrela Michelin, que tem uma esplendida adega de vinhos brasileiros, mas é só ele porque o famoso chef é um nacionalista convicto (Alex Atala).
Há um sério problema cultural no Brasil que acompanha esses “mitos” neoliberais e seus arautos. Falam esses termos como prova de modernidade, mas simplesmente não sabem o significado muito mais complexo desse conceitos.
A PRODUTIVIDADE MACRO
Quanto custa ao País manter 30 a 40% da base produtiva ociosa, 12 milhões de jovens nem-nem, 14 milhões de desempregados? Da população economicamente ativa de 93 milhões de brasileiros, só 45 milhões trabalham. Quanto custa a ociosidade dos “encostados”?
Essa falta de produtividade MACRO custa por baixo 600 bilhões de dólares por ano, são fatores de produção parados, nisso os “moderninhos”não pensam porque não têm como entender, está além de sua compreensão. Compreensão de equações complexas é algo que não está na moda.

12 comentários

  1. GOstaria de um artigo do Andre’ analisando a elite e os liberais brasileiros que nao construiram nenhum grande grupo com presenca mundial que geraram tecnologia ou mesmo uma marca. HOje temos presenca no Brasil de grandes grupos economicos de varios paises que atuam nos mais variados segmentos (automobilisto, autopecas, eletrodomesticos, alimentos, eletronicos, farmaceuticos, etc) e nao vejo essa atuacao no sentido inverso. NO Plano real praticamento todo o setor de autopecas foi praticamente desnacionalizado. VEjo essa defesa da iniciativa privada e o des credito da atuacao do estado, mas foi o estado que implantou grandes empreendimentos de energia, tratamento de agua, transporte e mesmo industria (Embraer, FNV, FNM, COsipa, CSN, Usiminas, Tubarao). SE a iniciativa privada e’ de competencia superior onde esta a ela todo esse tempo.

    • Perda de lucratividade do capital investido? Pô . De 1997 em diante, quando FHC reuniu todas as dívidas dos Estados Federados, em torno de 70 bilhões de reais, conseguiram transformar em uma DÍVIDA PÚBLICA, hoje, perto de 6 TRILHÕES DE REAIS, agindo como agiotas em FAVOR de , principalmente SEIS famílias, mas “explodindo” as contas dos Estados. Inacreditável, agiotagem FEDERATIVA. O RS por exemplo, em números aproximados, enviou uma dívida de 6/7 bilhões , já pagou mais de 30 bilhões até hoje, e deve mais de 60 bilhões que deve se transformar em 90 bilhões pois não está pagando por efeito de LIMINAR. A tal DIVIDA FEDERAL é só de JUROS SOBRE JUROS (NUNCA algum investidor(?) adiantou algum dinheiro ao Governo).As dívidas dos Estados SÓ poderão ser pagas com PERDÃO TOTAL da agiotagem(alguns tem ajustes da Lei Kandir) e parcelamento da dívida REAL. A dívida Federal, como em qualquer País SÉRIO, tem que ser AUDITADA, como pedem ha mais de uma DÉCADA os Trabalhadores da RECEITA E DA POLÍCIA FEDERAL (a maioria, pois tem gente que não fala nada). ESSA DÍVIDA PÚBLICA FEDERAL, tirando uns 10 ou 20% de títulos pertencentes a FUNDOS nacionais(BB, CAIXA, PETROBRAS, ETC) O RESTO PERTENCE A fundos estrangeiros e a meia dúzia de famílias brasileiras que controlam AS TERRAS, OS BANCOS , GRANDES EMPRESAS EX ESTATAIS. ONDE SERÁ QUE FORAM OS 609 bilhões liberados tempos atrás pelo “governo” bozonazi? Estou errado?

  2. André.
    Comentário do comentário:
    Há inclusive uma bela tradução aqui no GGN intitulada “Imperialismo, globalização e rentabilidade do capital – Michael Roberts”, que poucas pessoas deram atenção, mas que é a base teórica de toda a tua preocupação.

  3. “Os fanáticos neoliberais propõem abrir a economia completamente, são loucos. Os EUA têm grande número de proteções e tarifas, inclusive contra o aço brasileiro, para proteger a industria siderúrgica deles.”

    “Nos jantares nos palácios oficiais será difícil achar vinho brasileiro, nos EUA só tem vinho da Califórnia em jantares oficiais.”

    Nossa, que país legal, esses EUA, né? Nada a ver com o Brasil… ‘magina, levar um americano – legítimo, hein? – prá pagar um jantar prá ele. Que honra! E, ainda por cima, “um dos maiores empresários dos EUA”… tem coisa mais chique que isso? Que diferença desses fino e dos – bah! – empresários brasileiros. E mesmo de diretorzinhos e gerentinhos brazucas, meros capitães-do-mato, puxa-sacos aliciados a serviço dos “líndricos” e verdadeiramente grandes! Aposto que o mais fajuto diretor americano é muito mais legal que o mais importante administrador brasileiro.. se é que algum brasileiro é realmente importante, né?

    Acho que devemos fazer tudo o que esses super lindos e poderosos quiserem. Vender a Petrobras é pouco, devíamos ceder logo a Amazônia de tão bacanas que são esses americanos, que cê acha? Se bem que você é brasileiro, né? Mesmo assim, que cê acha?

    Os Bolsonaros, Moro, Dallagnnol, Dodge, Serra, Janot e a classe média “miamificada” hão de concordar com isso. E farão coro: “Jamais o Brasil foi feito para prosperar e independer! Pode até dar lucro mas o bom deve ir sempre pros ‘states’!”

  4. A busca da competividade provoca, caro André, a redistribuição da riqueza.

    Se países como EUA e a EUROPA e Japão não buscassem reduzir os seus custos, a CHINA teria mais de 1 bilhão de pessoas na miséria, idem com a India e outras naçoes.

    Como seria o mundo fechado, com EUA e Europa riquíssimos, mercado fechado, e 2/3 do mundo na extrema pobreza?

    A China abriu o mercado pros abutres, mas o dinheiro deles está permitindo emergir a maior classe média do planeta. Os filhos dos trabalhadores explorados há 20, 30 anos, tem hoje alto nivel de escolaridade e já recebem mais do que os trabalhadores brasileiros.

    A queda nos custos dos produtos permitiu a maior expansão do PIB jamais vista sem gerar inflação.

    Hoje as indústrias de vestuário estão se mudando da China para a Índia, Bangladesh e Africa. Por acaso essa mudança é ruim?

    Por que, ao invés de tentar parar o bonde, você não se preocupa em pensar no jeito de subir nesse bonde em movimento?

    • Porque ele é burro!

      Esse sujeito simplesmente é burro… Ele tem distúrbio cognitivo assim como a maioria dos esquerdistas.

  5. Prezado André

    Até hoje os norte-americanos praticam as sugestões do Relatório sobre as Manufaturas, de Alexander Hamilton, que foi influenciado, creio, pelas ideias do economista alemão Friedrich List
    E os pangares daqui pararam de ler e estudar na década de 1980

  6. André Araújo, o seu texto me fez recorda de um texto escrito por Einstein, de título “O Perigo do Fascismo e o Desemprego”. Eu extraí um trecho do referido artigo e o transcrevo a seguir:

    “(…)
    Imaginemos uma ilha isolada do resto do mundo, na qual a terra possui um rendimento suficiente para nutrir os seus 300 habitantes. Supondo que existem 100 campos nessa ilha e que 100 habitantes possuem um campo cada um, com a condição de que todos os cultivem produz-se mesmo à justa para sustentar os trezentos habitantes.

    Para que todo este sistema funcione de maneira satisfatória aqui está o que deve passar-se: cada camponês cultiva o seu campo com dois empregados, a quem paga para o ajudarem. Com o seu salário estes compram aquilo de que têm necessidade para viver. Deste modo, tudo está em ordem.

    É então que um dos camponeses inventa uma ferramenta de trabalho particularmente eficaz que lhe permite obter do seu campo o rendimento habitual com a ajuda de um só empregado. Resultado: temos um desempregado e um camponês para o qual o lucro é mais importante que aqueles seus colegas, porque este último pode vender os seus produtos mais baratos dado que tem que desembolsar menos em salários.

    A satisfação é de curta duração. Ele faz, de facto, aos outros camponeses uma concorrência desmesurada. Estes vêem-se, deste modo, constrangidos a utilizar, por seu turno, a nova ferramenta que ele inventou, o que lhes permitirá também obter doravante com um só empregado o mesmo rendimento do costume.

    Mas algo de grave se passou entretanto. Cem homens são forçados ao desemprego e os camponeses não mais chegam a desfazer-se de um terço da sua colheita, tanto mais que não existe mercado exterior. Produzir do mesmo modo não tem mais sentido algum. Não existe “procura” correspondente àquilo de que cem homens têm necessidade para viver. Pode-se, entretanto, produzir quanto muito um pouco mais que dois terços da quantidade normal a fim de evitar que os 100 desempregados morram de fome e se revoltem.

    Eis que vejo os meus sensatos leitores torcerem o nariz de desdém e dizerem que nada percebo de economia. Esses cem desempregados, pensam, acabarão na realidade por descobrir na sua miséria um meio de fazer frutificar o seu trabalho utilmente e de receber em troca dinheiro e pão. Eles poderão, por exemplo, tornar-se cabeleireiros, actores, enfermeiros, etc., e dessa forma suavizar a vida da comunidade. Eis o que é perfeitamente verdadeiro. Mas que este processo não logra, contudo, compensar o facto de que a necessidade de mão-de-obra baixou em virtude do aperfeiçoamento do processo, eu o vejo revelar-se na nossa economia de verdade e não neste exemplo um pouco simplista que escolhi para clarificar a ideia.

    Voltemos ainda ao nosso exemplo! Os nossos trezentos insulares quebraram a cabeça para encontrar uma forma de se desenvencilharem do desemprego de modo a recriarem o seu paraíso perdido. Para começar, é evidente que um só camponês não pode contratar duas pessoas e dividir o tempo de trabalho por dois. Isto porque lhe seria necessário gastar tanto dinheiro com os salários destes dois empregados que se tornava impossível a ele sustentar a concorrência dos outros camponeses.

    De facto, sozinho um camponês não pode resolver o problema! Mas, todos juntos poderiam consegui-lo, e eis o que eles determinaram: cada um deles contrataria duas pessoas a meio tempo, mas com salário completo. A bem dizer, não era indispensável exigir um salário normal, porque se as pessoas passassem a receber um salário reduzido a metade os preços dos cereais teriam forçosamente que baixar, eles também, para metade, e seria oportuno evitar este choque no mundo dos negócios.

    Se estas pessoas tivessem podido dispor, como nós, de um vocabulário erudito elas teriam qualificado essa solução de “economia planificada” no quadro de uma sociedade capitalista. No caso da nossa estrutura económica actual, que é eminentemente complexa, o problema é muito mais complicado; [ainda assim] ele não permanece [por isso], no essencial, menos o mesmo. Como as pessoas da nossa ilha estavam longe de serem tão instruídas quanto o somos hoje em dia, não se encontrará pessoa alguma para combater essa proposição sob o pretexto de que se trata aqui de um entrave ao direito do cidadão de agir livremente, tal como o está garantido pela constituição; e, por outro lado, à falta de uma Supreme Court, uma tal diligência não teria, por assim dizer, nenhum sentido.

    Indiquei, no que precede, o que é preciso, quanto a mim, procurar o único remédio contra o perigo fascista. Impormo-nos voluntariamente limites em favor de uma ordem cuja necessidade reconhecemos é na verdade, em geral, o meio mais eficaz para chegar ao mais alto grau possível de liberdade e de segurança, inclusive no domínio da política internacional”. – Albert Einstein

    https://jornalggn.com.br/politica/mitos-liberais-produtividade-competitividade-economia-aberta-por-andre-motta-araujo/

  7. E eis aí o motivo de os States estarem em briga contra o mundo todo: acabar com a porcaria da globalização que ele próprios criaram.Mas já se dá como certo que somente com a redução das horas de trabalho é que tudo voltará, ou terá a chance de voltar ao “normal”. e ademais, não faltam aqueles que apontam como mais plausível, que o conjunto do sistema esteja se aproximando dos limites máximos estruturais do capitalismo e que esse modo de produção parece ter atingido o ponto de máximo, de onde não há retorno, senão o caminho do colapso. Acontecendo isso ou não, parece também, que a Asia já assumiu de vez a linha de frente do desenvolvimento humano.E se a nova “rota da seda” se consumar de fato, então já era mesmo, e mais um império simplesmente implodiu. E eu espero que nada caia em cima de mim!!!!

  8. Alguns Gênios da Humanidade escreveram:

    “Uma nação que procura desenvolver-se espiritualmente com maior liberdade não pode continuar vítima das suas necessidades materiais, escrava do seu corpo. Acima de tudo, precisa de tempo livre para criar e fruir da cultura. Os progressos da organização do trabalho facultam esse tempo. Um simples trabalhador na cultura do algodão produz agora frequentemente, com a ajuda de novas forças motrizes e de máquinas aperfeiçoadas, tanto como antes produziam 100 ou mesmo 250-350 trabalhadores. Iguais realizações há, embora não na mesma escala, em todos os ramos da produção, como conseqüência necessária do fato de as forças da natureza se verem progressivamente forçadas a colaborar com o trabalho humano. Se a quantidade de tempo e de esforço humano que em época anterior se necessitava para satisfazer determinada soma de necessidades materiais foi reduzida em metade, então o tempo disponível para a criação e fruição cultural, sem qualquer diminuição no bem-estar material, aumentou em igual medida. Mas a divisão das vantagens que conquistamos ao velho Cronos no seu próprio campo é ainda determinada pelo jogo dos dados do acaso cego e injusto. Calculou-se já que em França, ao presente nível das forças produtivas, a média de um trabalho de cinco horas diárias por cada pessoa capaz de trabalhar seria suficiente para obviar a todas as necessidades materiais da sociedade. Apesar da economia de tempo por meio da modernização da maquinaria, a duração do trabalho servil nas fábricas aumentou para grande parte da população”… Esse trecho consta dos Manuscritos Econômicos-Filosóficos do Karl Marx. É uma citação de um autor feita pelo Marx

    Os dois trechos seguintes são de Elogio ao Ócio, do Bertrand Russell:

    “Suponha que, em um dado momento, certo número de homens se ocupe na produção de alfinetes. Eles produzem tantos alfinetes quantos o mundo precisa, digamos que trabalhando oito horas por dia. Alguém inventa um mecanismo e o mesmo número de trabalhadores passa a produzir o dobro de alfinetes durante a mesma jornada de oito horas: alfinetes já custam tão pouco, dificilmente alguém comprará alguns a mais só porque custam menos ainda. Em um mundo racional, todos que se ocupam da produção de alfinetes começariam a trabalhar quatro horas ao invés de oito horas e tudo prosseguiria como antes. Mas no mundo de verdade isso seria desmoralizador. Os homens ainda trabalharão oito horas, produzirão alfinetes demais, alguns empregadores quebrarão e a metade dos homens antes ocupados em fabricar alfinetes estará desempregada. No final, haverá tanto tempo livre quanto antes das demissões, porém agora metade dos homens estará totalmente à toa enquanto a outra metade estará trabalhando em excesso. Essa forma de pensar apenas assegura que o lazer de todos  –  consequência inevitável do avanço técnico – funcione como causa da miséria ao invés de funcionar como fonte universal da felicidade. Alguém imaginaria algo mais insano?”

    “Não temos nenhuma preocupação com justiça econômica, então direcionamos uma quantidade enorme da produção total para uma minoria da população, boa parte da qual não trabalha de jeito algum. Devido à ausência de um controle centralizado da produção, produzimos toneladas de coisas que não queremos. Mantemos uma larga fatia da população sem ter o que fazer, uma vez que podemos dispensar o trabalho dessa população e obrigar outros a trabalhar em excesso. Quando todos esses métodos se mostram inadequados, iniciamos uma guerra: colocamos uma multidão para fabricar explosivos, outra multidão para explodí-los, como se fôssemos crianças descobrindo os fogos de artifício. Combinamos esses métodos e administramos, embora com dificuldade, a sobrevivência do ideal de que o cidadão médio está fadado a completar a maior parte do trabalho manual desgastante”.

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