Contra a fome, movimento “Vamos Juntos Pelo Brasil” defende Reforma Agrária Popular

Com a aproximação das eleições de 2022, movimento propõe a união nacional pela reconstrução do Brasil e discute pautas populares para os rumos do país

Lula na Feira Nacional da Reforma Agrária, em 2015. Foto: Joka Madruga

da Página do MST

Contra a fome, movimento “Vamos Juntos Pelo Brasil” defende Reforma Agrária Popular

Por Fernanda Alcântara
Da Página do MST

No último fim de semana, o movimento “Vamos Juntos pelo Brasil” ganhou destaque a partir da promessa de união nacional pela reconstrução do Brasil. Segundo os organizadores, a ideia é formar uma frente ampla, inspirada no movimento das “Diretas Já”, para impedir a reeleição do atual presidente Jair Bolsonaro (PL).

Diversos motivos levam a este caminho de pré-candidatura do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, entre eles, as crises e avanços das desigualdades extremas e da inflação sem precedentes que atinge o preço dos alimentos, dos combustíveis e da energia, potencializada pela má condução de Bolsonaro frente à pandemia da Covid-19. Tudo isso converge para uma situação catastrófica que atinge, principalmente a população mais pobre do país.

Formado com o objetivo de reconstruir o Brasil, com desenvolvimento sustentável, emprego e salário decente, proteção social e com o povo no Orçamento da União, o ‘Vamos Juntos pelo Brasil’ reúne 7 partidos políticos e 7 centrais sindicais além de movimentos populares como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). 

Fome: velha conhecida, novos desafios

Crianças que receberam doações de alimentos da Reforma Agrária Popular, em ações de solidariedade do MST, em Recife. Foto: Acervo MST

“Em 2003, disse que se, ao final do meu mandato, todos tivessem café da manhã, almoço e janta, eu teria cumprido a missão da minha vida. Travamos contra a fome a maior das batalhas, e vencemos. Mas hoje sei que preciso cumprir a mesma missão”, afirma Lula.

A proposta de um projeto popular passa pela Reforma Agrária quando o que está em jogo é a segurança alimentar de toda uma população. Um relatório das Organização das Nações Unidas (ONU) mostra que a fome cresceu 20% no mundo em 2021. “Se nada for feito para apoiar as comunidades rurais, a escala da devastação em termos de fome e perda de meios de subsistência será terrível”, afirma o relatório.

A agricultura familiar camponesa é a principal responsável por mais de 70% da produção dos alimentos que são disponibilizados para o consumo da população brasileira, e está enraizada na base do MST desde a fundação do Movimento, que tem como meta reivindicar as terras de latifúndios a serem desapropriados para o assentamento de famílias Sem Terra, assim como está previsto na constituição.

Para agricultura familiar camponesa, a gestão da propriedade é compartilhada pela família, e a(o) agricultor(a) familiar tem uma relação particular com a terra, seu local de trabalho e moradia. É constituída de pequenos produtores rurais, povos e comunidades tradicionais, assentados da Reforma Agrária mas, apesar desta importância, as políticas públicas adotadas ainda privilegiam os latifundiários.

A fome e a insegurança alimentar pela qual o país passa hoje está diretamente ligada ao projeto que Bolsonaro representa hoje. Quando a população não tem acesso pleno e permanente aos alimentos ou substitui alimentos ricos e nutritivos por aqueles mais baratos, que não suprem as necessidades nutricionais, temos um índice de insegurança alimentar que chega a 85,3% entre os mais pobres, segundo a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede PENSSAN).

Segundo a reportagem do jornal Folha de S. Paulo, em quase três anos e meio de gestão, o governo de Jair Bolsonaro (PL) intensificou ação iniciada pelo antecessor Michel Temer (MDB) e transformou radicalmente o programa de Reforma Agrária brasileiro. O modelo de distribuição de terras a camponeses pobres deu lugar a outro em que as verbas são minguantes, as desapropriações de terras e assentamentos de famílias quase não existem mais e o foco se resume a uma maratona de entrega de títulos privados de propriedade aos antigos beneficiários.

Doação de alimentos da Reforma Agrária no RS. Foto: Maiara Rauber/MST no RS

Tudo isso resultou nesta insegurança alimentar grave, quando a falta de comida vira uma experiência constante para as famílias, uma condição que pode ameaçar a sobrevivência desses indivíduos, voltou a ser um dos assuntos que mais assusta no dia-a-dia da população brasileira que, sem proteção social, assiste a um momento de crise econômica e social do Brasil. Assim, a essência deste novo projeto de união nacional que busca recuperar o Brasil exige a combinação entre o crescimento econômico e a inclusão social.

“As famílias vão para uma ocupação de terra, ou o MST incentiva o avanço na ocupação de terra, quando tem uma perspectiva de que tenha um processo de assentamento, de regularização fundiária. Nós não queremos ir para terra só porque achamos bonito acampar”, explica João Paulo Rodrigues, da Direção Nacional do MST.

Sem Medo de Ser Feliz

No ato, que deu início aos trabalhos do novo projeto popular para o Brasil, uma nova versão do jingle histórico da campanha eleitoral de 1989, “Lula lá”, foi apresentada com a participação de nomes como Pabllo Vittar, Paulo Miklos, Duda Beat, Zélia Duncan, Lenine, Chico César, Martinho da Vila e outras expressões da música popular. 

“Defender nossa soberania é defender os bancos públicos. Garantir o crédito barato a quem quer produzir e gerar empregos. Financiar obras de saneamento e a construção de casas. Apoiar a agricultura familiar e os pequenos e médios produtores rurais”, afirmou Lula em seu discurso.

Para João Paulo Rodrigues, essa campanha é mais do que somente eleger o Lula. “É uma campanha Fora Bolsonaro, para ter uma vitória política, uma vitória eleitoral, e uma vitória ideológica. Nós perdemos apoio de uma parte importante da sociedade brasileira nas eleições de 2018, e nós temos que recuperar. Isso é uma tarefa árdua, que será feita por muita gente no país inteiro, mas que ainda precisa de um certo tempo”.

Segundo Rodrigues, há duas batalhas que devem ser realizadas este ano, a partir dos Comitês Populares de Luta, que estarão organizados em cada território Sem Terra espalhado por todo Brasil, como instrumento de organização popular para a consolidação de um projeto popular para o país. A primeira consiste na organização popular, em aproveitar a eleição para fazer um grande trabalho de base com a sociedade; e, uma segunda tarefa, é a disputa ideológica, que consiste no conceito de batalha das ideias.

“O MST está convencido que nós temos que derrotar o Bolsonaro. Nós estamos certos de que o Lula é o nosso melhor candidato e temos certeza que nós vamos ter que brigar muito para ganhar essas eleições. Nós não somos daqueles que estão acreditando que a eleição está dada”, pontua.

Lula em visita à assentamento do MST. Foto: Ricardo Stucker

Neste sentido, João Paulo Rodrigues aponta que para garantir que a vitória de candidatos progressistas nas urnas é necessário “fazer uma aliança ampla”, diante da expectativa de que o ex-presidente Lula tenha como vice, na chapa das eleições deste ano, o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin. “Eu não tenho nenhuma preocupação com isso. Porém, eu acho que nós temos que ser muito cautelosos no programa. E o programa é o que decide e que vai influenciar como vai ser o governo”.

O momento é de ocupar as ruas, as redes e as roças, segundo Rodrigues. Ter presença militante em todos os espaços políticos da sociedade. “O MST vai estar nas ruas durante a campanha eleitoral, organizando os comitês populares, disputando voto a voto, disputando as consciências das pessoas. Nós vamos estar na posse do Lula, e nós vamos estar depois no governo, pressionando ele para que atenda as pautas históricas da classe trabalhadora”, conclui.

*Editado por Solange Engelmann

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