Uso de linguagem desumanizante gerou genocídios ao longo da história, alerta especialista americano

Quando um presidente da República se refere a um grupo de pessoas como categoria sub-humana, por simples prazer ou visão ideológica, a sociedade precisa enxergar o perigo e pensar em como reagir

Jornal GGN – William A. Donohue, um professor de Comunicação da Universidade do Estado de Michigan (EUA), publicou no site The Conversation um artigo sobre a naturalização do uso de linguagem violenta por Donald Trump que se aplica bem ao que o Brasil está assistindo sob a presidência de Jair Bolsonaro.

O texto lembra como, ao longo da história mundial, a linguagem que tira a dignidade das pessoas, na boca de autoridades ou de agentes com potencial de comunicação em massa, fomentou genocídios de toda ordem.

Um “exemplo trágico” de como a linguagem desumana extrema contribuiu para um genocídio ocorreu em 1994, em Ruanda. À época, a maioria hutu da sociedade usava uma estação de rádio popular para se referir aos membros da tribo tutsi, uma minoria, como “baratas”. “Como o apoio a essa caracterização cresceu entre os hutus, ela essencialmente eliminou qualquer obrigação moral de ver os tutsis como seres humanos. Eles eram apenas vermes que precisavam ser erradicados.”

A história do século XX também revela o mesmo padrão de linguagem desumanizante na preparação do genocídio cometido pelos turcos contra os armênios, onde os armênios eram os “micróbios perigosos”.

Durante o Holocausto, a história não permite que ninguém esqueça, os alemães descreveram os judeus como “untermenschen”: sub-humanos, inferiores.

No final de julho, o presidente dos EUA Donald Trump tuitou que a região de Baltimore era uma “bagunça repugnante, infestada de ratos e roedores” e “nenhum ser humano gostaria de viver lá”. Um jornal local, O Baltimore Sun, respondeu com um editorial à altura: “É melhor ter alguns ratos do que ser um”, era o título.

Para o professor, “quando os desafios são mais severos, a defesa da identidade se torna mais feroz. As vozes aumentam, as emoções aumentam e as pessoas ficam presas em um conflito em espiral, que é caracterizado por um ciclo sustentado de ataque e defesa.”

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“Infelizmente, se não houver controles sobre o aumento da linguagem, e as partes começarem a fazer referências que possam ser interpretadas em termos extremos e desumanos, elas podem acreditar que a única maneira de restaurar suas identidades é pela dominação física”, avaliou o especialista em comunicação para resolução de conflitos.

Ele ainda apontou, no caso de Trump, que não é esperado um conflito específico entre o presidente e Baltimore, a ponto de transformar a violência em realidade.

Mas é esse tipo de relação agressiva que pode “tornar mais aceitável que os seguidores [de Trump] usem esse tipo de linguagem” e naturalizem o ódio às vítimas ou minorias que estão sempre na mira do republicano.

A lição de Donohue para os EUA serve para o Brasil sob Bolsonaro: é “simplesmente perigoso” e não é mais possível, conhecendo-se a história, que a sociedade aceite que um presidente encoraje multidões a atacar grupos que não são de sua simpatia.

Falar em expulsar adversários do País, ou trancá-los na cadeia sem processo justo; demonstrar desprezo por determinadas culturas ou regiões do País, tudo isso “estabelece um clima no qual usar linguagem letal e desumanizante parece normal.” Mas não deve ser.

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