Progresso social e justiça econômica

Da Carta Maior

O paradoxo do progresso social e a reação econômica

Fizemos um espantoso progresso em três décadas nos Estados Unidos a respeito de questões envolvendo tolerância e inclusão. A sociedade se tornou mais inclusiva com respeito aos direitos da mulher, dos afro-americanos, da comunidade LGBT, das pessoas portadoras de necessidades especiais. Por outro lado, tornou-se mais desigual economicamente. Por que estamos andando para trás, quando se trata de justiça econômica? Isso se deve ao poder. Os proprietários da riqueza financeira se tornaram cada vez mais poderosos politicamente, enquanto os movimentos que lhes são contrários se tornaram drasticamente enfraquecidos. O artigo é de Robert Kuttner.

O Estado de Nova York está prestes a se tornar o sexto estado da federação a legalizar o casamento homoafetivo, o presidente Obama pondera se apoia explicitamente a união de gays e lésbicas, e a questão está se tornando mais uma dor de cabeça divisória para os republicanos do que um tema para fortalecer sua base social. A revista Time não está do lado da direita, porque a orientação sexual é cada vez menos uma questão importante para eleitores mais jovens.

A edição de domingo do The New York Times deu três páginas inteiras para uma história do dia dos pais a respeito de uma família ampliada, composta de uma mãe, seu bebê, o jovem pai doador e seu parceiro gay. Em alguns poucos anos, essa história não ocupará mais do que um pequeno espaço a respeito de como casais heterossexuais divorciados e casados de novo e seus filhos administram relações complexas que vão muito além dos núcleos familiares tradicionais.

Vale a pena refletir a respeito de duas questões. Em primeiro lugar, como fizemos esse espantoso progresso em três décadas a respeito de questões envolvendo tolerância e inclusão? E como é que, durante o mesmo período, demos passos tão pesados para trás em questões econômicas? A sociedade se tornou mais inclusiva com respeito aos direitos da mulher, dos afro-americanos, da comunidade LGBT, das pessoas portadoras de necessidades especiais – e muitíssimo mais desigual e precária economicamente.

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Isso não é dizer, é claro, que as lutas por tolerância e inclusão se esgotaram. A intolerância ainda persiste; ela é especialmente nociva no que concerne aos imigrantes. E a questão dos direitos dos imigrantes está conectada com a econômica. Num tempo de declínio das oportunidades e da segurança, imigrantes, que facilmente podem ser explorados e compelidos a trabalhar ganhando menos do que é pago são vistos como uma ameaça aos trabalhadores locais.

Ainda assim, para invocar Dr. [Martin Luther] King, há poucas dúvidas a respeito a respeito de se a balança está pendendo para a justiça. O momento é em direção a mais aceitação e menos intolerância.

Então, o que aconteceu? Não é como se a homofobia e o racismo tivessem sido exatamente derrotados.

Toda a ordem social baseada no privilégio dos brancos é muito acessível se ocorre de você ser caucasiano. Os negros fazem todo o trabalho pesado e o fazem por baixos salários, reservando os bons empregos para os caras brancos. O mesmo se passa com o privilégio dos homens: é muito conveniente para o homem. E os gays e lésbicas foram o último grupo que pôde ser abertamente ridicularizado mesmo em ambientes liberais polidos.

O que aconteceu foi, simplesmente, luta política – e desde o início. Rever os vários documentários celebrando o aniversário de 50 anos de manifestações públicas e de marchas pela liberdade é apreciar a total disparidade daquelas lutas e a extraordinária bravura pessoal. Desafiar a ordem racista, especialmente no sul significou arriscar-se à ruína e à morte. As feministas e os gays foram objeto de escárnio. O direito dos portadores de necessidades especiais sequer aparecia na tela do radar. Atos individuais dos gays lentamente vieram a engendrar compaixão. A epidemia de HIV passou de um objeto de nojo para um de empatia.

Mas esses atos individuais de heroísmo só ganharam força porque foram combinados com movimento social. Eles mudaram normas e então leis, que reforçaram a mudança nas normas.

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Lentamente nos tornamos uma sociedade mais agradável e inclusiva.

Por que, então, estamos andando para trás, quando se trata de justiça econômica? Isso se deve ao poder. Os proprietários da riqueza financeira se tornaram cada vez mais poderosos politicamente, enquanto os movimentos que lhes são contrários se tornaram drasticamente enfraquecidos.

Eu escrevi recentemente a respeito da bravura da faxineira do Sofitel da Times Square que denunciou o ataque de Dominique Strauss-Kahn. Mas ela pôde dar esse passo sem medo porque não estava sozinha. O Sofitel da Times Square, como quase todos os grandes hotéis de Nova York tem seus trabalhadores vinculados a sindicatos. E o sindicato dela, que atende aos trabalhadores do hotel e do restaurante, apoiado por um poderoso acordo com um conselho de hotéis e motéis, é um dos mais fortes sindicatos da América – não é forte por conta dos dirigentes sindicais, mas porque o sindicato está imerso na vida cotidiana do local de trabalho.

Quando o gerente do Sofitel se recusou a autorizar que algumas faxineiras se juntassem numa vigília em apoio a sua colega na manhã em que Strauss-Kahn foi denunciado, os trabalhadores do hotel disseram-lhe que suspenderiam suas atividades e ficariam sentados no lobby do hotel. O gerente rapidamente cedeu.

Uma faxineira num hotel em que trabalhadores não fossem sindicalizados pensaria duas vezes antes de denunciar um ataque de um rico e poderoso hóspede. Ela teria sido demitida. Na indústria da “hospitalidade”, por definição, os hóspedes sempre vêm em primeiro lugar. Mas os membros do sindicato Local 6 são protegidos por um contrato que exige o devido processo legal e todo um sistema de delegados sindicais que asseguram o cumprimento do direito.

Uma faxineira de um hotel não sindicalizado na maioria da América faz oito ou nove dólares por hora. Em Manhattan, uma faxineira sindicalizada faz quase 25 dólares por hora, ou 50 mil dólares por ano, o bastante para viver uma vida de classe média, até em Nova York. A diferença entre um salário mínimo e um salário de fome afeta a conta do cliente do hotel em poucos trocados.

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Não há boa razão por que todas as pessoas que trabalham no setor de serviços, de funcionários da Wal-Mart a assistentes de enfermeiros e professores do pré-escolar não possam ser pagos com salários mínimos. Mas isso requereria luta política e movimentos sociais – assim como avanços nas lutas por inclusão o fizeram.

À medida que os banqueiros dão o tom em ambos os partidos e a economia se tornou mais precária para a classe média trabalhadora, a base política para uma sociedade justa necessita ser reconstruída de baixo para cima. Por todas as esperanças que depositamos na administração Obama, isso não será construído de cima para baixo.

(*) Robert Kuttner é co-editor do The American Prospect e Membro Senior Fellow do think-tank Demos. Seu último livro é “A Presidency in Peril” (Uma Presidência em Perigo).

Tradução: Katarina Peixoto

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