Um relato da truculência policial em uma favela de Salvador

Sugerido por Almeida

Do Passa Palavra

Nossa casa, uma detenção sem muros

Esse relato nada mais é do que a única possibilidade que nós, favelados, temos para nos manifestarmosPor Pequenos Pássaros

São oito e vinte e cinco da manhã, mas ontem eram por volta das oito horas da noite e foi quando tudo aconteceu. Meu nome? Não importa: eu sou mais uma preta da favela soteropolitana, mas poderia ser um trabalhador na fábrica paulista, uma prostituta venezuelana, um escravo da cana ou do carvão, poderia até ser você, mas jamais poderia ser a burguesa que explora meus e minhas irmãs, nem poderia ser aquele policial das oito, sem farda. Muita coisa não importa, esse relato nada mais é do que a única possibilidade que nós, favelados, temos para nos manifestarmos.

Era um domingo típico na favela: crianças na praia, adultos conversando e ouvindo o último sucesso nas alturas e nós em casa, conversando, rindo, chorando, fazendo amor, tomando banho, dormindo… As pétalas do girassol continuavam caindo e foi quando aconteceu: “tumtumtumtum” uma batida, violenta como se quisesse apressar a morte do girassol, se instala no local. Abro a porta e saltam duas armas na minha cabeça e as duas armas gritavam: “para de fumar essa disgraça aí, que hoje é aniversário de um policial. Se quiser dar o cú ou fumar maconha vai pra casa da disgraça”.

As armas não paravam de rosnar, elas estavam sem farda, abastecidas de álcool, o que conferia uma dinâmica mais agressiva ao seu três oitão. Elas gritaram: “se fosse homem, a gente entrava aí e quebrava tudo, ainda implantava droga e descia todo mundo pra tomar porrada na delegacia”. Uma cena se passava na minha cabeça, via todos os meus irmãos que estavam naquele momento apanhando, chorando, com dor, fome e febre. Via a BOPE invadindo a favela da maré, as UPPs se instalando, as Bases de Salvador se consolidando. As armas se foram, mas deixaram o spray que de pimenta banhou nossos poros: nossa garganta secou, nossos olhos arderam, mas a última pétala do girassol ainda está aqui. Firme e forte. Nossa casa, uma detenção sem muros. Nossa vida, tudo.

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Poderia parar por aqui, mas não foi para contar a minha história triste que vim até aqui. Sou interlocutora do inferno e preciso continuar. Mesmo baleada, protegida apenas por uma pétala do girassol, esse é o começo da minha ofensiva.

Preta que sou, quero dizer para todos vocês que estão discutindo a desmilitarização da PM: não adianta, entendem? Não adianta. O que nós queremos é o fim da Polícia Militar, esse gérmen da política burguesa podre, da ditadura que tanto matou os irmãos e irmãs. Quero os gambé desarmados e longe dos irmãos. Queremos o fim do Estado, o fim do trabalho assalariado. Queremos outro mundo com xs trabalhadorxs livremente associadxs, um mundo construído por nós e para nós. Queremos o socialismo!

Socialismo para colocar fim na barbárie. Não quero mais ser testemunha da nega morta por abortar, se antes abortávamos para não sermos escravas, hoje abortamos para a polícia não matar, entende? Não é porque o corpo é nosso, é porque não temos alternativa. Não quero ver mais o irmão vendendo droga e caindo por isso. Queremos a liberação das drogas e o fim dos venenos que vendemos. Queremos o fim de Israel, mas também o fim da disputa da comida entre o velho e o rato. Queremos a morte da burguesia e o fim desse relato. Enquanto a burguesia ditar a moda do inferno, serei eu a subversão. Enquanto o caixão não fechar, minha voz continuará no ar.

Eu, que carrego pássaros pequenos no ventre, sou a revolta de muitxs e a possibilidade de poucxs.

Pequenos Pássaros,
Favela, Salvador 2013.

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