A Vale, segundo os críticos

Do leitor André Araújo

Nassif:

A argumentação do Agnelli carece de base aritmética quanto ao fluxo de caixa da Inco pagando os 17 bilhões de dólares do empréstimo em dois anos.

Mas o ponto central não é esse: sendo a Vale uma empresa onde o Estado brasileiro, direta ou indiretamente, é o maior acionista, é razoável se investir no Canadá um valor superior a tudo que entra de investimento estrangeiro direto no País em um ano? É essa a prioridade estratégica do Estado brasileiro, já que seria um contra-senso admitir-se que essa grande empresa opera contra os interesses do Estado que é seu criador e maior acionista?

Indo aos finalmente, essa dívida de 17 bilhões de dólares a curto prazo é uma dívida tomada por uma empresa que está no arco de interesses do Estado brasileiro para investir em um dos países mais ricos do mundo, recurso esse que, não importa que conta se faça, deixará de ser investido no Brasil. É simples assim.

Ao contrário do que pensam os neoliberais, as grandes corporações americanas não agem e nem podem agir contra os interesses dos Estados Unidos, da mesma forma que as grandes corporações francesas não agem contra o interesse da França. Um mega investimento desse porte da Vale na Inco pressupõe que há recursos excedentes no País de origem da corporação que só podem ser investidos fora, pelo menos essa é a lógica do capital estrangeiro na teoria econômica.

Para registrar: o lucro líquido da BHP Billiton, mineradora australiana, no exercício encerrado em Junho último, foi de US$ 10,2 bilhões. No entanto ela não está se habilitando para comprar a Inco, apesar do excelente futuro do níquel e da Inco, segundo Agnelli. Australianos e canadenses são primos ingleses, é curioso a Billiton não entrar na disputa, sé o valor estratégico da Inco é tão formidável e se para ela ficaria tão mais fácil pagar a compra, afinal seu lucro liquido equivale ao faturamento da Vale.

Comprar um ativo de longo prazo, como é uma mineradora, com dívida de curto prazo, não cheira bem e a Vale é uma empresa importante demais para o Brasil para correr tal risco.

Em grande número de situações o interesse permanente da corporação, da sua sobrevivência e da sua inserção na economia nacional pode divergir da visão do executivo que eventualmente está no comando.

Essa divergência é quase padrão nas fusões, onde outros interesses do comprador e do vendedor prevalecem sobre o horizonte a longo prazo do negócio, falando sempre no campo da boa fé dos atores. São vaidades engrandecidas, gosto pelo gigantismo como um fim em si mesmo, no lado do comprador. No do vendedor, a norma é um pacote de beneficios aos executivos que saem, nos EUA os famosos golden parachutes (paraquedas dourados ou cestas de saída)foram motivos de escandalos em grande numero de fusões. Do lado dos banqueiros nem é preciso falar. Há uma euforia nos financiadores, negócios excelentes para advisors, intermediários, arranjadores de empréstimos, sempre há muitos em uma operação desse porte.

Enfim, bem ao estilo brasileiro, há uma ligeireza incompatível com a dimensão do negócio e no caso do pagamento do empréstimo em dois anos, a conta não fecha de jeito nenhum. O empréstimo evidentemente pode ser refinanciado, mas como estarão as condições da economia internacional daqui a dois anos?

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