Pesquisadores desenvolvem versão nacional mais barata e sofisticada do luminol

Belo Horizonte — Quem acompanha os seriados policiais, nos quais peritos forenses borrifam um produto capaz de revelar a presença de sangue oculto em cenas de crime aparentemente limpas, certamente já ouviu falar em luminol. Recentemente, o produto também foi personagem no noticiário policial em casos de grande repercussão, como o da alegada morte de Eliza Samudio, amante do ex-goleiro do Flamengo Bruno. Superfícies como tapetes, interiores de automóveis, tecidos ou piso cerâmicos, mesmo depois de lavadas, não impedem a ação do luminol, substância capaz de reagir a minúsculas partículas de sangue invisíveis a olho nu.

No Brasil, pesquisadores do Laboratório de Síntese e Análise de Produtos Estratégicos (Lasape) do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desenvolveram um produto 100% nacional, que apresenta vantagens sobre o concorrente importado. O reagente brasileiro tem luminescência três vezes maior, não é tóxico e é capaz de detectar partículas de sangue na proporção que pode chegar a uma parte por milhão. Sua eficiência foi comprovada em testes na unidade CSI (Crime Scene Investigation) da polícia de Miami, nos Estados Unidos. O produto, lançado no mercado há menos de um mês, com o nome comercial de Alfa-Luminox, é fabricado pela empresa Alfa Rio Química e já está em uso nas polícias de Minas Gerais, do Rio Grande do Norte, de São Paulo e do Paraná, e custa 50% menos que o luminol importado.

O produto, um composto em pó feito de nitrogênio, hidrogênio, oxigênio e carbono misturado a um líquido contendo um perióxido (água oxigenada, por exemplo) que, em contato com um catalisador, provoca uma reação química concluída com o surgimento de uma luz, normalmente azulada. No caso do sangue, o catalisador é o ferro contido na hemoglobina, proteína do sangue responsável pelo transporte do oxigênio no organismo. O fenômeno, chamado quimiluminescência, ocorre porque, durante a reação, as moléculas se quebram e os átomos se reagrupam formando novas moléculas. As moléculas originais dos reagentes têm mais energia que as moléculas resultantes da reação, e a energia excedente é liberada sob a forma de fótons. Os fótons emitidos pela quimiluminescência são o que produzem o brilho azulado do luminol.

Acidentes aéreos
Já consagrado no universo da ciência forense, o produto ainda mobiliza os pesquisadores, que buscam, além de outras aplicações para a substância, aumentar o tempo em que o reagente é capaz de emitir luz. O professor Claudio Cerqueira Lopes, coordenador do Lasape, conta que, usando corantes antracênicos, capazes de aprisionar os fótons resultantes da reação química, já é possível prolongar a durabilidade da quimiluminescência de 30 segundos para 10 minutos. A meta é atingir 24 horas de emissão de luz.

Cerqueira conta que um estranho fenômeno ocorrido na costa da Somália forneceu a inspiração para a pesquisa de um novo uso para o produto: a localização de aeronaves desaparecidas. Na costa africana, o fato curioso foi provocado por grande concentração da bactéria marinha Vibrio harveyi, que emitiu radiação bioluminescente forte o suficiente para que fosse captada pelas lentes de satélites em órbita sobre a Terra.

Levando em conta as propriedades quimiluminescentes do Alfa-Luminox, os pesquisadores começaram a desenvolver uma forma de reproduzir o fenômeno artificialmente e obter uma forma viável para seu uso como ferramenta de localização em caso de acidentes. A solução não poderia ser mais simples e barata. A ideia foi acondicionar o produto em vários sacos de propilopileno transparente e de alta densidade, contendo um frasco de vidro com um composto ferroso, que poderiam ser dispostos em aeronaves, principalmente na cauda e no bico. Em caso de acidente, o frasco de vidro se quebraria e, ao se misturar com o conteúdo do saco, produziria uma reação quimiluminescente azulada por tempo suficiente para que fosse detectada por satélites. Cada saco de 10cm x 10cm pesa apenas 100 miligramas, o que permitiria a instalação de grande quantidade deles sem comprometer a capacidade de carga da aeronave. Os dados capturados pelo satélite permitiriam calcular com sucesso a posição dos destroços. É um recurso valioso em acidentes aéreos que ocorrem em regiões remotas ou de difícil acesso, como a selva amazônica e os oceanos.

Casos como o do voo 447 da Air France que caiu no meio do Oceano Atlântico em junho do ano passado, mostram a grande dificuldade e a ineficiência dos métodos tradicionais de busca. A caixa-preta da aeronave emite um sinal de rádio que dura cerca de 30 dias. Além de tentar captar esse sinal, o que pode ser feito é cobrir áreas enormes em buscas visuais que frequentemente são prejudicadas por condições climáticas e ambientais desfavoráveis. As buscas pelos destroços do Airbus acidentado mobilizaram por muito tempo uma quantidade enorme de aeronaves, navios e até submarinos. O projeto do Lasape tornaria o processo de localização de destroços muito mais rápido e barato, reduzindo também a espera angustiada das famílias das vítimas por respostas.

O brilho químico de centenas de saquinhos de Alfa-Luminox seria detectado por satélites, permitindo calcular com sucesso as coordenadas do local do acidente. A luz poderia ser percebida mesmo em caso de queda na selva e, em acidentes no mar, eles flutuariam, reduzindo significativamente o perímetro das buscas.

Infecção hospitalar
O Alfa-Luminox ainda pode ser usado em outras áreas, como a de saúde, na prevenção de infecções hospitalares. O produto poderia detectar vestígios ocultos de sangue em materiais e equipamentos cirúrgicos, roupas e utensílios submetidos aos processos clássicos de esterilização. Uma arma eficiente contra cepas mutantes e resistentes de micro-organismos que usam o sangue como meio de cultura. Em exames de laboratório, o produto pode auxiliar a determinar com maior eficiência e menor risco a presença de sangue oculto nas fezes. Versatilidade, baixo custo e grande eficiência são atributos que dão ao Alfa-Luminox o potencial necessário para alcançar grande sucesso comercial no Brasil e no mundo, calculam os especialistas.

 

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Detetive químico

Quando o sangue cai sobre uma superfície, micropartículas invisíveis a olho nu permanecem no local mesmo após uma cuidadosa lavagem

O luminol reage ao ferro contido na hemoglobina das micropartículas de sangue gerando luz por quimiluminescência. Os peritos borrifam o produto sobre a cena suspeita e “apagam” a luz. O brilho azulado produzido pelo luminol revela se havia sangue antes da limpeza

Ajudando a salvar vidas

Centenas de sacos de polipropileno transparentes e de alta densidade de 10cm X 10cm, contendo luminol e um frasco com um composto ferroso, podem ser instalados em partes das aeronaves

O polipropileno é resistente a grandes impactos, mas o frasco com o composto ferroso se quebra, liberando uma substância que se mistura ao luminol e inicia a reação química responsável pela luz azulada. Os sacos são flutuantes e, em caso de acidentes, brilhariam, indicando a posição dos destroços

O material deve ser instalado em partes estratégicas do avião, como o bico e a cauda, que tendem a se fragmentar menos nos acidentes

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Bactérias brilhantes

A inspiração veio de um fenômeno ocorrido na costa da Somália

Uma explosão populacional de bactérias marinhas Vibrio harveyi emitiu luz bioluminescente forte o suficiente para que o brilho fosse registrado por satélites meteorológicos

 

http://www.informesaude.com.br/jornais-impressos/correio-brasiliense/58487-pesquisadores-desenvolvem-versao-nacional-mais-barata-e-sofisticada-do-luminol

 

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