Combatendo notícias falsas. II. Alguns planetas vizinhos e a tempestade vermelha que começou em 1879.
Por Felipe A. P. L. Costa [*].
O conjunto de objetos que estão a gravitar em torno do Sol – entre os quais, claro, estamos nós e o nosso planeta – constitui o que chamamos de Sistema Solar. A lista completa de objetos é extensa, mas posso dizer que abrange oito planetas, mais de 200 luas (i.e., corpos celestes que orbitam em torno de um planeta), alguns planetas-anões (e.g., Plutão e Ceres), milhões de asteroides e corpos cometários e um sem número de objetos menores (meteoroides).
Anteriormente (ver aqui), falamos um pouco a respeito de nossa vizinhança cósmica, sobretudo a respeito das distâncias que nos separam dos vizinhos mais próximos. Vamos agora nos debruçar um pouco sobre alguns planetas, realçando certas diferenças que há entre eles.
1. PLANETAS INTERNOS E EXTERNOS.
Os planetas do Sistema Solar, como nós já sabemos, costumam ser arranjados em dois grupos de quatro.
Os quatro primeiros (Mercúrio, Vênus, Terra e Marte), referidos como internos, são ditos planetas rochosos ou telúricos. Possuem atmosferas finas e rarefeitas; são pequenos e em torno deles orbita um, dois ou nenhum satélite.
Os quatro últimos (Júpiter, Saturno, Urano e Netuno), referidos como externos, são ditos planetas gigantes, os dois primeiros são ditos gigantes gasosos e dois últimos, gigantes gelados. Têm núcleos rochosos relativamente pequenos; ocorre, porém, que o núcleo é circundado por grossas e densas camadas de líquidos e gases. Fato é que os quatro são bem maiores que os anteriores (ver a figura que acompanhada este artigo). Em torno dos planetas gigantes já foram identificados mais de duas centenas de satélites.
2. OS PLANETAS ROCHOSOS.
Mercúrio é o primeiro da fila. Está a 0,3871 ua (ou 5,79 × 107 km) de distância do Sol [1]. É também o menor dos planetas, com um diâmetro de 4.879 km. A temperatura média local é 167 °C [2]. É desprovido de atmosfera – a insolação excessiva, decorrente da proximidade do Sol, vaporiza os gases. É desprovido também de satélites – dado o diâmetro reduzido, a atração gravitacional exercida pelo planeta não é forte o suficiente a ponto de reter um satélite.
Vênus – a estrela d’alva – é o segundo planeta. De tamanho comparável ao da Terra (12.104 km de diâmetro), está a 0,7233 ua (ou 1,08 × 108 km) de distância do Sol. Curiosamente, porém, embora não seja o mais próximo, é o mais quente dos planetas – a temperatura média local é de 464 °C. Tal se deve a um intenso efeito estufa local (ver cap. 8). Enquanto Mercúrio ganha e perde calor rapidamente, pois carece de atmosfera, a atmosfera venusiana é rica em CO2, um gás-estufa de elevada capacidade calorífica. Assim como Mercúrio, Vênus é um planeta desprovido de luas.
A Terra é o terceiro planeta, estando a 1 ua (ou 1,496 × 108 km) de distância do Sol. Tem um clima ameno: nem tórrido, como os dois anteriores, nem congelativo, como os cinco posteriores. Fato é que a temperatura média local está na casa dos 15 °C. Possui um único satélite natural (Lua; ver capítulo 5). Até onde nós sabemos, trata-se do único lugar em toda a vizinhança que abriga seres vivos. Uma exclusividade que mexe com a imaginação de muita gente (ver aqui). Eis o comentário de Sagan (1996, p. 136-7):
“Em nosso mundo, está em andamento uma experiência de longa duração – e sob alguns aspectos promissora – sobre a evolução da matéria. Os fósseis conhecidos mais antigos têm cerca de 3,6 bilhões de anos. Sem dúvida, a origem da vida deve ter acontecido bem antes disso. Mas, há 4,2 ou 4,3 bilhões de anos, a Terra estava sendo tão abalada pelos estágios finais de sua formação que a vida ainda não poderia ter aparecido: grandes colisões fundiam a superfície, transformando os oceanos em vapor e impelindo para o espaço toda atmosfera acumulada desde o último impacto.”
O quarto planeta é Marte, palco frequente de enredos de ficção científica e talvez o nosso vizinho mais intrigante. Com um diâmetro de 6.794 km, está a 1,5237 ua (ou 2,279 × 108 km) de distância do Sol. A temperatura local é de –65 °C, sendo assim o primeiro planeta com uma temperatura média negativa. Embora Marte seja menor que a Terra, em torno do planeta vermelho orbitam dois satélites, Fobos e Deimos, ambos de pequenas dimensões e irregulares. Nas palavras de Sagan (1996, p. 294):
“Fobos e Deimos são muito pequenas, cada uma tem um diâmetro de aproximadamente dez quilômetros; a gravidade que exercem é quase desprezível. Assim, é relativamente fácil marcar um encontro com elas, pousar sobre elas, examiná-las, usá-las como base de operações para estudar Marte e, depois, voltar para casa.”
3. OS PLANETAS GASOSOS.
Para além dos planetas rochosos, há o cinturão de asteroides, como vimos antes, e, em seguida, os planetas externos. São dois gigantes gasosos, Júpiter e Saturno, e dois gigantes gelados, Urano e Netuno [3].
Além de diferenças expressivas em termos de tamanho e composição, planetas internos e externos diferem em termos de origem e comportamento [4].
O primeiro dos quatro gigantes é Júpiter. Trata-se do maior de todos os planetas, com um diâmetro de 142.984 km [5]. Está a 5,2034 ua (ou 7,786 × 108 km) de distância do Sol e a temperatura média local é de –110 °C. Em torno dele orbitam quase 80 satélites, incluindo Ganimedes, a maior lua do nosso sistema planetário. Apesar de numerosos, vários desses satélites só foram descobertos em anos recentes [6].
Sobre o comportamento de Júpiter (bastante turbulento, diga-se), eis o comentário de Sobel (2006, p. 129):
“Embora muitas das luas de Júpiter sejam corpos rochosos, o gigante gasoso em si não possui superfície sólida nem terreno maciço de espécie alguma. A face que apresenta aos observadores terrestres é uma extensão puramente climática: cada característica identificável resolve-se num banco de nuvens, um ciclone, uma corrente de ar, uma descarga elétrica ou uma cortina de luzes auroreais. Em Júpiter, uma tempestade pode durar séculos e jamais atingirá terra firme. Não existem mudanças sazonais que rompam os padrões climáticos, pois o planeta permanece quase ereto sobre seu eixo: sua inclinação é de apenas 3 graus.”
3.1. A tempestade que começou em 1879.
Ainda Sobel (2006, p. 129 e 132):
“No Cinturão Equatorial Sul, por exemplo, uma tempestade estável, ovalada, conhecida como Grande Mancha Vermelha, vem sendo estudada ininterruptamente desde 1879.”
Grande o suficiente para conter duas ou três vezes o planeta Terra, a Grande Mancha Vermelha permanece ativa e continua a ser estudada ainda hoje. Pelos nossos padrões, equivaleria a dizer que chove sem parar por lá há mais de um século [7]!
*
NOTAS.
[*] O presente artigo foi extraído e adaptado do livro A força do conhecimento & outros ensaios: Um convite à ciência (em processo de finalização). Outros trechos da obra já foram anteriormente divulgados neste Jornal GGN – ver os artigos Livros, lentes & afins; Por que a Terra é esférica?; Revolução Agrícola, a mãe de todas as revoluções; O que é cultural, afinal?; Subindo uma rampa em espiral; Quem quer ser um cientista?; Finda a lenha, eis o carvão: Como foi mesmo que entramos nessa enrascada?; Do que é feito o Universo?; A terceira via: Algumas notas sobre o método científico; As origens da política; Um mapa do Brasil. I. Roraima a inchar, Piauí a murchar?; Combatendo notícias falsas. I. Por que não existem fotos da Via Láctea vista de fora?; Um mapa do Brasil. II. Onde estão os brasileiros?; As cores da Terra. I. Biomas de água doce e arquitetura animal; As cores da Terra. II. Biomas marinhos e a produção primária global; Nervos, cérebros e comportamento. I. Ecologia sensorial e a mente humana e Nervos, cérebros e comportamento. II. Podemos aprender com os nossos erros.
Sobre a campanha Pacotes Mistos Completos (por meio da qual é possível adquirir, sem despesas postais, os quatro livros anteriores do autor), ver o artigo Ciência e poesia em quatro volumes. Para adquirir algum volume específico ou para mais informações, faça contato com o autor pelo endereço [email protected]. Para conhecer outros artigos ou obter amostras dos livros anteriores, ver aqui.
[1] Três unidades de distância são citadas neste livro: unidade astronômica (ua), ano-luz (al) e parsec (pc). (i) ua – Fixada em 149,6 bilhões de metros (1,495978707 × 1011 m), equivaleria à distância Terra-Sol. (ii) al – Equivale à distância que a luz percorre (viajando a 2,99792458 × 108 m/s) ao final de um ano (365,25 dias): 9,46073 × 1015 m (1 al = 6,3241 × 104 ua). (iii) pc – O termo parsec vem da expressão em inglês parallax of one arcsecond (= paralaxe de um segundo de arco). É a unidade mais comumente utilizada em astronomia. 1 pc = 3,0857 × 1016 m (ou 3,2616 al). Para detalhes e referências, ver aqui.
[2] Temperatura medida na superfície do planeta ou, no caso dos planetas gasosos, na altura da atmosfera em que a pressão local é semelhante à pressão terrestre ao nível do mar. Para detalhes, ver aqui.
[3] Ao menos 202 luas estão a orbitar os planetas externos, a saber: Júpiter (79), Saturno (82), Urano (27) e Netuno (14). Outras 24 luas orbitam planetas anões e asteroides. Para atualizações e detalhes, ver Go Astronomy; em port., Comins & Kaufmann (2010) e Sagan (1996).
[4] Embora o crescimento por acreção (leia-se: as partículas constituintes vão se acumulando e se agregando de fora para dentro) tenha sido a regra, a formação dos planetas internos e externos envolveu fenômenos distintos – para detalhes, ver Comins & Kaufmann (2010).
[5] O diâmetro de Júpiter equivale a pouco mais de 29 vezes o de Mercúrio, o que implica dizer que o volume do primeiro é 25 mil vezes (~293) maior que o do segundo. A conta a ser feita, a rigor, é esta: (142.984 / 4.879)3 = 29,3063 = 25.169,2.
[6] Entre os satélites conhecidos de Júpiter, os maiores são (em ordem alfabética; entre parêntesis, o diâmetro): Calisto (4.821 km), Europa (3.138 km), Ganímedes (5.268 km) e Io (3.643 km). No caso de Saturno, os maiores são: Dione (1.120 km), Encélado (444 km), Japetus (1.436 km), Mimas (392 km), Reia (1.528 km), Tétis (1.050 km) e Titã (5.150 km). A maioria das luas, no entanto, tem menos de 500 km de diâmetro; o formato é alongado ou irregular, sugerindo que esses objetos eram asteroides e foram capturados pelos planetas. Para detalhes fotográficos, ver Sagan (1996); para detalhes numéricos, Comins & Kaufmann (2010).
[7] A rigor, dizer que a tempestade começou em 1879 é uma tremenda subestimativa. A Grande Mancha Vermelha pode estar ativa desde o século 17 (e.g., Denning 1899). Para estudos recentes, ver Bjoraker et al. (2018) e Galanti et al. 2023.
*
REFERÊNCIAS CITADAS.
++ Bjoraker, GL & mais 5. 2018. The gas composition and deep cloud structure of Jupiter’s Great Red Spot. Astronomical Journal 156: 101.
++ Comins, NF & Kaufmann, WJ, III. 2010 [2008]. Descobrindo o Universo, 8.ed. P Alegre, Bookman.
++ Denning, WF. 1899. Early history of the Great Red Spot on Jupiter. Monthly Notices of the Royal Astronomical Society 59: 574–84.
++ Galanti, E & mais 2. 2023. The shape of Jupiter and Saturn based on atmospheric dynamics, radio occultations, and gravity measurements. Geophysical Research Letters 50: e2022GL102321.
++ Sagan, C. 1996 [1994]. Pálido ponto azul. SP, Companhia das Letras.
++ Sobel, D. 2006 [2005]. Os planetas. SP, Companhia das Letras.
* * *
Deixe um comentário