7 de junho de 2026

Xadrez dos interesses do Master e do BRB por clubes esportivos, por Luís Nassif

Qual o elo que une essas instituições a clubes esportivos? Um pequeno mergulho no mundo da lavagem de dinheiro pode explicar.
Reprodução

1. Clubes esportivos, como Botafogo e Bahia, envolvidos em possíveis esquemas de lavagem de dinheiro com empresas como Telexfree e CFG.

2. SAFs, como a do Atlético-MG, representam novos modelos de gestão com investidores e acionistas, levantando questões sobre transparência e origem dos recursos.

3. Estratégias de lavagem de dinheiro em clubes de futebol, incluindo contratos inflados de patrocínio, compra de direitos de atletas e comissões a intermediários.

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Dado curioso no escândalo do Banco Master é o envolvimento de muitos dos atores com clubes esportivos.

O Banco Master já patrocinou o Flamengo, começando pelo basquete em 2019, e ampliou suas ações no esporte, inclusive patrocinando até a equipe Alpine na Fórmula 1. É um dos sócios da SAF do Atlético Mineiro.

O Banco de Brasília (BRB) patrocina vários clubes de futebol do Distrito Federal, principalmente times do Campeonato Candangão, como Taguatinga, Santa Maria, Formosa, Capital, Ceilândia e Real Brasília. Além disso, o BRB apoia o Minas Brasília, time da Série A1 do Brasileirão feminino, e patrocina o time profissional do Flamengo desde 2020, além das categorias de base do clube desde 2023.

Qual o elo que une essas instituições a clubes esportivos?

Um pequeno mergulho no mundo da lavagem de dinheiro pode explicar.

Peça 1 – Telexfree: O Ensaio Geral

Em fins de 2013, empreendi uma batalha pesada contra a Telexfree – uma pirâmide financeira digital. O país sempre teve grupos de vendedores aliciados por pirâmides, como o caso do boi gordo, da avestruz, do ouro. A Telexfree foi a primeira tentativa eletrônica e se alastrou por todo o país.

Com exceção de uma juíza do norte do país, todo o Judiciário e órgãos de controle ficaram paralisados, sem compreender o novo fenômeno da digitalização e os golpes que proporcionava.

A pirâmide prometia crédito em ligações internacionais, que supostamente poderiam ser repassados a terceiros – em um momento em que Skype e outros aplicativos já ofereciam de graça.

O portal foi tirado várias vezes do ar e cheguei a receber ameaças de morte. O então Ministro da Justiça José Eduardo Cardoso acionou, então, a Polícia Federal para investigar as ameaças.

Com o tempo, a Telexfree foi proibida de atuar no país.

Peça 2 – Botafogo e a Pirâmide na Camisa

Para minha surpresa, eis que, de repente, a Telexfree Internacional, braço dela que operava nos Estados Unidos, explorando brasileiros em Boston, apareceu como patrocinadora do Botafogo de Futebol e Regatas.

Publiquei reportagem denunciando o inusitado: “A possível operação de lavagem de dinheiro entre o Botafogo e a Telexfree

No artigo, lembrei as principais operações de lavagem de dinheiro praticadas nos anos 90:

“Em suas aventuras, Dantas se encantou com gado na Amazônia, com mineração e clubes de futebol – como sua investida no Esporte Clube Bahia

Por coincidência, são áreas adequadas para esquentamento de dinheiro, devido à dificuldade para a sua precificação. No caso do gado na Amazonia, a dificuldade em quantificar o número de cabeças e valor de terras; no caso do direito de lavra, pela dificuldade em estimar reservas e rentabilidade; no caso de clubes de futebol, pela falta de parâmetros na definição do preço de jogadores, e pelo acúmulo de isenções fiscais e de governança”.

Por coincidência, o diretor executivo do Botafogo era Sérgio Landau, irmão de Elena Landau, principal braço de Daniel Dantas para a área de futebol.

Elena Landau foi ex-diretora no BNDES e virou consultora de empresas ligadas ao Opportunity. Em 1997, ao lado de Luiz Roberto Demarco (que depois romperia com Dantas) passou a trabalhar na estruturação de grandes investimentos em clubes de futebol. O mercado descobria os porões do futebol.

O caso Telexfree internacional era típico de lavagem de dinheiro.

O contrato de patrocínio entre Botafogo e Telexfree vigorou de janeiro a maio de 2014, quando foi rescindido após os fundadores da Telexfree serem indiciados criminalmente por pirâmide financeira e fraude federal nos Estados Unidos. James Matthew Merrill foi preso, enquanto Carlos Nataniel Wanzeler tornou-se foragido da polícia americana. 

Em outubro de 2017, a nova direção do Botafogo apresentou notícia de crime contra Maurício Assumpção (ex-presidente) e Sérgio Landau (ex-diretor executivo), além de diretores da Odebrecht. O pedido de instauração de inquérito policial decorreu de dois contratos de mútuo suspeitos, assinados entre 2013 e 2014, que teriam favorecido a Odebrecht na interdição do Estádio Nilton Santos.

Assumpção e Landau moveram uma ação judicial contra o Jornal GGN, sem consequências.

 Peça 3 – Manual da Lavagem em Campos

Os clubes esportivos, em especial os de futebol, historicamente se tornaram ambientes propícios para práticas de lavagem de dinheiro. A dificuldade de precificação de ativos (jogadores, patrocínios, direitos de imagem), a informalidade de transações e a globalização do mercado criam brechas que podem ser exploradas por organizações criminosas. A seguir, apresentam-se hipóteses típicas de mecanismos utilizados para disfarçar a origem ilícita de recursos.

1. Contratos inflados de patrocínio

  • Empresas pagam valores muito acima do mercado por patrocínios.
  • O clube registra a entrada como receita legítima.
  • Parte do montante é devolvida “por fora”, em espécie ou via empresas parceiras.
  • Efeito jurídico: o patrocínio funciona como nota fiscal limpa para capital ilícito.

2. Compra “misteriosa” de direitos de atletas

  • Fundos obscuros, muitas vezes sediados em paraísos fiscais, adquirem percentuais de jogadores.
  • Posteriormente, o atleta é vendido por valores inflados.
  • O fundo recebe lucro “limpo”, legitimando o dinheiro sujo.
  • Esquema clássico: offshore compra barato → venda cara → lucro limpo → atleta vira commodity para lavagem.

3. Comissões a empresários e intermediários

  • Empresários recebem comissões superfaturadas em negociações.
  • A diferença é repassada a dirigentes, políticos ou organizações criminosas.
  • Empresas fantasmas em países como Portugal, Uruguai, Malta ou Dubai recebem os valores.
  • O dinheiro retorna via contratos de consultoria ou royalties de marca.
  • Resultado: comissão superfaturada se transforma em Caixa 2.

4. Licenciamento de produtos e marketing

  • Contratos milionários para camisas, chuteiras, academias ou escolas de futebol.
  • Empresas terceirizadas atuam como laranjas.
  • Sinal típico: clube famoso, marca fraca, contrato milionário.
  • Conclusão: não é o torcedor que paga, mas sim a operação de lavagem.

5. Construção e obras de estádio

  • Obras naturalmente sujeitas a superfaturamento e estimativas variáveis.
  • Materiais e serviços são de difícil auditoria posterior.
  • Empresas de construção funcionam como canais ideais para circulação de dinheiro ilícito.

6. Uso de casas de apostas

  • Patrocínios e manipulação de resultados permitem lavar recursos rapidamente.
  • Apostas globais passam por plataformas digitais sem fiscalização clara.
  • Efeito: o jogo de futebol se converte em transação financeira transnacional.

7. SAFs e clubes-empresa

  • A modernização trouxe transparência, mas também novos riscos.
  • Entrada de capital de fundos genéricos sem origem clara.
  • Compra de dívidas por empresas desconhecidas.
  • Uso de fintechs e bancos pequenos para operações.
  • Transformação: antes era caixa 2 de dirigente; agora pode ser esquema offshore profissional.

Como o dinheiro sujo é “limpo”

Etapas idênticas à lavagem comum:

  
EtapaNo clube
ColocaçãoPatrocínio, compra de atleta, obra, aposta
OcultaçãoComissão, empresa terceirizada, offshore
IntegraçãoVenda de jogador, lucro de fundo, bilheteria

O clube devolve a aparência de “atividade econômica normal”.

Peça 4 – SAFs: Novos Donos, Velhos Esquemas?

Uma SAF – Sociedade Anônima do Futebol é um modelo empresarial criado pela Lei nº 14.193/2021 para transformar clubes de futebol, que antes eram associações sem fins lucrativos, em empresas com fins lucrativos. Em outras palavras: a SAF permite que clubes virem companhias, com dono, ações, investidores e regras de mercado — sem perder a identidade esportiva.

Vamos a alguns exemplos de SAFs e seus patrocinadores.

Atlético-MG (Atlético Mineiro SAF)

– Modelo: SAF com 75% nas mãos de investidores (Galo Holding) e 25% da associação.

– Acionista controlador:

– Galo Holding (75% da SAF), formada por:

– 2R Holding SAF (Rubens & Rafael Menin) – 55,74% da Galo Holding – controladores do Banco Inter.

– FIP Galo Forte (Daniel Vorcaro) – 26,88% – do Master

– Ricardo Guimarães – 8,43% – presidente do Conselho de Administração do Banco BMDG, banco estadual.

– FIGA (Renato Salvador e outros) – 8,96% – de grupos hospitalares e de transmissão de energia,

– Associação Atlético: mantém 25% da SAF, com direito a influência na governança.

Botafogo (Botafogo SAF)

– Modelo: SAF com capital majoritariamente estrangeiro.

– Acionista controlador:

– Eagle Football Holdings – detém 90% das ações da SAF.

– A Eagle é o veículo de investimento liderado por John Textor, envolvido hoje em disputa societária dentro da própria holding, mas formalmente ainda o grupo segue como dono de 90%.

– Associação Botafogo: fica com cerca de 10%.

Reportagens indicam que a participação no Botafogo (entre outros ativos) foi oferecida como colateral nos financiamentos estruturados com a Ares para a compra do Lyon.

Isso explica por que, quando a Eagle entrou em default, houve temor de que credores pudessem tentar executar garantias ligadas ao clube.

Bahia (EC Bahia SAF)

– Modelo: clube vendido para um grupo multinacional de futebol.

– Acionista controlador:

– City Football Group (CFG) – dono de 90% da SAF do Bahia, com compromisso de investir cerca de R$ 1 bilhão em 15 anos (jogadores, dívidas, infraestrutura).

– Associação Bahia: ficou com 10%.

– O acionista majoritário é o Abu Dhabi United Group (ADUG), ligado ao sheik Mansour bin Zayed Al Nahyan — que detém cerca de 81% da CFG.

– A empresa de investimento americana Silver Lake detém cerca de 18%.

– Também participam grupos chineses como CITIC Capital e China Media Capital com participações menores.

– Bens como Cidade Tricolor, antigo CT e demais imóveis do futebol são integralizados no capital da SAF. Troféus ficam com a associação, via comodato.

– Há contrato específico de licença de propriedade intelectual, com valor total de R$ 1 bilhão como remuneração pela exploração dos direitos de marca e IP do clube – figura central do ACORDO DE INVESTIMENTO.

– Todos os contratos de futebol (atletas, comissões, fornecedores) são transferidos integralmente para a SAF, que passa a ser o único centro econômico do futebol do Bahia.

Na prática, o que o CFG compra é:

Marca + ativos físicos + elenco + fluxo futuro de receitas (TV, bilheteria, patrocínio, venda de jogadores) por 90 anos, com forte liberdade de gestão.

Peça 5 – Bets: O Cassino Legalizado

E aqui se entrar no centro da lavagem de dinheiro no país: as bets, sites de apostas.

– Flamengo: assinou contrato máster com a Betano no valor de ≈ R$ 268,5 milhões por ano.

– Vasco da Gama: patrocinador máster recente da Pixbet, empresa de apostas.

– Botafogo e Fluminense: também têm contratos relevantes com casas de apostas. Por exemplo, o campeonato carioca revelou que mais de 83% dos clubes tinham aposta como patrocinador máster.

– São Paulo Futebol Clube: principal patrocinador máster é a Superbet.

– Clube Atlético Mineiro (“Galo”): recentemente fechou com a casa de apostas H2Bet como patrocinador máster a partir de 2025, com valor estimado de R$ 180 milhões ou mais.

– Nota: Um relatório em 2024 dizia que o patrocínio máster do Atlético-MG estava “abaixo” de muitos outros, recebendo cerca de R$ 18 milhões por ano naquele momento, o que ressalta a aceleração desse mercado.

Peça 6 – Como Limpar o Jogo

1. Beneficiário Final Obrigatório (UBO)

Toda empresa que investir, patrocinar ou deter parte de SAF deve revelar o dono real, inclusive em offshores.

2. Due Diligence de Patrocinadores

Patrocínios acima de R$ 3 milhões precisam de:

– comprovação de faturamento compatível;

– análise simplificada de risco (modelo do BC + CVM).

3. Direito de Imagem com Limite Percentual

Direito de imagem não pode ultrapassar 40% da remuneração total sem justificativa auditada e publicada.

4. Fluxo internacional de jogadores

Transferências internas entre clubes do mesmo grupo (ex.: CFG, Eagle) precisam de:

– avaliação independente de mercado;

– publicação do laudo.

Isso impede manipulação contábil e lavagem por “supervalorização de ativos”.

5. Auditoria de Obras (Estádios/CTs)

– Empresas contratadas devem ser certificadas e rastreadas (diretores e políticos envolvidos).

– Uso de referenciais de custo unitário público (similar ao SINAPI/obras federais).

– Obrigar seguro de performance (garantia do contratado) — impede falências forjadas.

6. Sanções Inteligentes (proporcionalidade)

   
InfraçãoPenalidadeObjetivo
Não divulgar contratosMulta e bloqueio de registro de atletasTransparência
Não informar UBOSuspensão de patrocínio + multaAntilavagem
Manipulação esportivaBanimento + ação penalIntegridade
Capital ilícito em SAFPerda de controle + intervençãoBlindagem do clube
Falha contábil graveAuditoria supervisionadaCorrigir, não punir torcedor

Nunca punir pontuação esportiva por crime financeiro, exceto manipulação de resultados.

O torcedor não pode pagar pelo dirigente criminoso.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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2 Comentários
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  1. José

    23 de novembro de 2025 11:09 am

    Vc deve ser Palmeirense, pois não citou o Palmeiras que é financiado pela Sportingbet,. E a Receita Federal, a PGR e PF, no governo Lula são entidades livres para investigar, se tiver coisa errada com certeza será apontada. Lembrando que futebol e jogo ilicito já existia há muito tempo, só que era o jogo do bicho.

  2. solle

    23 de novembro de 2025 5:02 pm

    Falou dr todo mundo mas deixou varmengo e varmeiras de fora, aí fica difícil

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