20 de julho de 2026

Por que o crédito é tão caro no Brasil (8)?, por Maurício Luperi

Uma economia do tamanho do Brasil não pode depender quase exclusivamente do crédito bancário para financiar sua expansão.
Reprodução

Os spreads bancários no Brasil são resultado da Arquitetura Institucional Monetário-Financeira, não apenas de fatores isolados.
Redesenhar essa arquitetura inclui aperfeiçoar política monetária, fortalecer financiamento e ampliar concorrência financeira.
O sistema financeiro deve financiar investimento e desenvolvimento, exigindo escolhas institucionais para maior eficiência e crescimento.

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Por que o crédito é tão caro no Brasil?

Artigo 8 – Como redesenhar a Arquitetura Institucional Monetário-Financeira Brasileira?

por Mauricio Martinelli Luperi

Nos sete artigos anteriores percorremos um caminho muito maior do que imaginávamos quando iniciamos esta investigação.

A pergunta parecia simples.

Por que o crédito é tão caro no Brasil?

Começamos examinando os spreads bancários.

Depois analisamos sua composição, o funcionamento da política monetária, o papel da Selic, a estrutura da dívida pública, a profundidade financeira, o comportamento dos bancos e a literatura econômica nacional e internacional.

Ao final desse percurso, chegamos a uma conclusão inesperada.

Os spreads continuam sendo um problema importante.

Mas eles deixaram de ocupar o centro da explicação.

Passaram a ser compreendidos como um dos resultados produzidos por uma organização institucional mais ampla, que ao longo desta série denominamos Arquitetura Institucional Monetário-Financeira Brasileira.

Se essa interpretação estiver correta, também muda a natureza das soluções.

Não basta reduzir compulsórios, alterar tributos ou criar novas linhas de crédito.

Essas medidas podem ser úteis, mas serão sempre limitadas se a arquitetura permanecer produzindo os mesmos incentivos.

A verdadeira questão passa a ser outra.

Que arquitetura institucional queremos construir para o Brasil?

Uma arquitetura voltada para o desenvolvimento

Nenhum sistema financeiro existe por si mesmo.

Sua função econômica é intermediar poupança, financiar investimento, administrar riscos, facilitar pagamentos e contribuir para o desenvolvimento da economia.

Quando essas funções deixam de ocupar o centro do sistema, surgem distorções.

Ao longo desta série argumentamos que a arquitetura brasileira tornou-se particularmente eficiente para remunerar ativos financeiros e relativamente menos eficiente para financiar o investimento produtivo.

Redesenhar essa arquitetura não significa abandonar a estabilidade monetária.

Significa recolocá-la a serviço de um objetivo mais amplo: o desenvolvimento econômico sustentado.

Uma arquitetura moderna deve perseguir simultaneamente estabilidade de preços, crescimento, produtividade, inovação, emprego e ampliação da capacidade produtiva.

Esses objetivos não são incompatíveis.

Ao contrário.

São complementares quando as instituições são desenhadas para conciliá-los.

O primeiro eixo: aperfeiçoar a política monetária

A estabilidade monetária continuará sendo um patrimônio da economia brasileira.

Mas estabilidade não significa rigidez.

A experiência internacional mostra que bancos centrais modernos consideram não apenas a inflação, mas também o comportamento da atividade econômica, do emprego, do sistema financeiro e a natureza dos choques que afetam a economia.

Choques temporários de oferta, por exemplo, nem sempre exigem respostas monetárias tão intensas quanto pressões persistentes de demanda.

Aperfeiçoar o regime de metas para a inflação significa incorporar maior capacidade de distinguir essas situações, preservando a credibilidade da política monetária sem impor custos desnecessários ao investimento e ao crescimento.

O segundo eixo: fortalecer o financiamento do investimento

Uma economia do tamanho do Brasil não pode depender quase exclusivamente do crédito bancário para financiar sua expansão.

O fortalecimento do mercado de capitais, das debêntures, dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), da securitização responsável e de novos instrumentos de financiamento amplia as alternativas disponíveis para empresas de diferentes portes.

Quanto maior a diversidade das fontes de financiamento, menor a pressão concentrada sobre o sistema bancário.

Esse processo reduz a vulnerabilidade da economia às oscilações da política monetária e aumenta sua capacidade de sustentar ciclos mais longos de investimento.

O terceiro eixo: ampliar a concorrência financeira

Durante décadas, boa parte do debate concentrou-se na concentração bancária.

Ela continua relevante.

Mas ampliar a concorrência significa muito mais do que aumentar o número de bancos.

Cooperativas de crédito, fintechs, plataformas digitais, Open Finance e novos mecanismos de compartilhamento de informações podem reduzir custos de intermediação e facilitar a mobilidade dos clientes entre instituições.

Ao mesmo tempo, um mercado de capitais mais profundo reduz a dependência das grandes empresas em relação ao crédito bancário.

Isso libera capacidade de financiamento dentro dos próprios bancos, aumentando a competição pelo atendimento às pequenas empresas e às famílias.

O aprofundamento financeiro, portanto, beneficia não apenas quem acessa diretamente o mercado de capitais.

Ele modifica a própria estrutura competitiva do sistema financeiro.

Em um ambiente de maior concorrência, combinado com menor custo estrutural de captação, aperfeiçoamento das garantias, Open Finance e expansão das cooperativas e fintechs, cria-se espaço para uma redução gradual e sustentável dos spreads cobrados das famílias.

O crédito ao consumidor deixa de depender apenas do nível da Selic e passa a refletir um ambiente institucional mais competitivo e eficiente.

O quarto eixo: fortalecer a governança institucional

Ao longo desta série introduzimos dois conceitos.

Autonomia capturada.

E dominância epistêmica.

Ambos procuram mostrar que instituições não funcionam apenas por meio de regras formais.

Elas também operam através dos incentivos que produzem e das interpretações que se tornam predominantes no processo decisório.

Por isso, uma arquitetura mais equilibrada exige ampliar a pluralidade de diagnósticos, fortalecer a transparência das decisões públicas, estimular avaliações independentes das políticas econômicas e promover maior diversidade de abordagens na formulação das estratégias macroeconômicas.

Instituições tornam-se mais robustas quando convivem com o debate crítico, e não quando pressupõem unanimidade.

Escolhas institucionais

Nenhuma economia desenvolvida construiu seu sistema financeiro deixando que ele evoluísse espontaneamente.

Todos os sistemas financeiros são resultado de escolhas institucionais acumuladas ao longo do tempo.

O sistema financeiro brasileiro também é.

Suas características atuais não representam uma inevitabilidade econômica.

São consequência de regras, incentivos e instituições que foram sendo construídos historicamente.

Da mesma forma, podem ser aperfeiçoados.

A questão não é escolher entre mercado e Estado.

É construir instituições capazes de fazer com que ambos funcionem melhor.

O objetivo não é enfraquecer o sistema financeiro.

É torná-lo mais eficiente em sua missão essencial: transformar poupança em investimento, inovação, produtividade e desenvolvimento.

O fim da investigação

Começamos esta série perguntando por que os spreads bancários brasileiros eram tão elevados.

Hoje sabemos que essa pergunta escondia outra muito mais importante.

Que sistema financeiro queremos construir?

Um sistema cuja principal função seja remunerar riqueza financeira já existente.

Ou um sistema capaz de financiar a riqueza que ainda será criada.

Responder a essa pergunta exige abandonar soluções isoladas.

Exige compreender que crédito, investimento, política monetária, dívida pública, mercado de capitais e concorrência fazem parte de uma mesma arquitetura institucional.

Arquiteturas não são fenômenos naturais.

São construções humanas.

E justamente por isso podem ser aperfeiçoadas.

Talvez esta seja a principal conclusão desta série.

O crédito continuará caro enquanto tratarmos seus sintomas.

Ele começará a se tornar mais acessível quando redesenharmos as instituições que lhe dão origem.

Mais do que reduzir spreads, o desafio brasileiro é construir uma Arquitetura Institucional Monetário-Financeira capaz de combinar estabilidade macroeconômica, crédito abundante, investimento produtivo e desenvolvimento sustentável.

Esse não é um desafio apenas para economistas, bancos centrais ou governos.

É uma escolha de sociedade.

Porque, em última análise, a forma como organizamos nosso sistema financeiro ajuda a definir o tipo de país que queremos construir.

Leituras recomendadas

A interpretação desenvolvida ao longo desta série dialoga com diferentes tradições da economia política, da macroeconomia pós-keynesiana e da literatura sobre sistema financeiro. Entre as principais referências destacam-se:

  • Bresser-Pereira, Luiz Carlos; Bruno, Miguel; De Paula, Luiz Fernando. Financialization, Coalition of Interests and Interest Rate in Brazil (2020).
  • De Paula, Luiz Fernando. Sistema Financeiro, Bancos e Financiamento da Economia: uma abordagem keynesiana (2014).
  • Oreiro, José Luis. O comportamento anômalo dos juros futuros no Brasil: uma interpretação keynesiana (2025).
  • Nakano, Yoshiaki. Trabalhos sobre política monetária, dívida pública e estrutura dos juros no Brasil.
  • Lapavitsas, Costas. Profiting Without Producing (2013).
  • Chesnais, François. A Mundialização do Capital (1996, edição brasileira).
  • Minsky, Hyman P. Stabilizing an Unstable Economy (1986).
  • Keynes, John Maynard. The General Theory of Employment, Interest and Money (1936).

Observação metodológica

A noção de dominância financeira utilizada nesta série deriva da literatura especializada sobre financeirização e economia política.

Já os conceitos de Arquitetura Institucional Monetário-Financeira Brasileira, autonomia capturada e dominância epistêmica constituem uma proposta interpretativa desenvolvida nesta investigação para integrar essas contribuições e compreender sua manifestação específica na economia brasileira.

Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.

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Mauricio Luperi

Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.

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