16 de setembro de 2026

Manipulação da fé não é coisa de Deus, por Eliara Santana

Em carta a André Mendonça, Frente Evangélica diz que "verdade não pode aparecer aos pedaços, conforme a conveniência do momento".
Reprodução

Frente Evangélica pelo Estado de Direito pede ao STF que a verdade sobre o caso Master seja completamente revelada.
Manipulação da fé é usada para ocultar fatos, favorecer grupos e manter poder, alerta a Carta Aberta ao ministro André Mendonça.
Pessoas em cargos públicos são escolhidas por instituições e sociedade, não ungidas por Deus, destaca a análise de Eliara Santana.

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Coluna Hora da Verdade

‘Pessoas em cargos públicos são escolhas de instituições e da sociedade. Não ungidos’

Por Eliara Santana

“Mas nada há encoberto que não haja de ser descoberto; nem oculto, que não haja de ser sabido” (Lucas 12:2)

Na Bíblia, esse versículo do apóstolo Lucas fala de verdade e da luz que vem à tona pela justiça divina no momento certo. É muito apropriado para um momento tão turbulento como este que vivemos no Brasil às vésperas de mais uma disputadíssima eleição. Deparei-me com a citação ao receber a Carta Aberta que a Frente Evangélica pelo Estado de Direito encaminhou ao ministro do STF, André Mendonça, no dia 10/09. A Frente é um movimento supradenominacional, ou seja, que reúne várias congregações e tradições evangélicas, e a Carta foi publicada nas redes sociais do grupo. 

O documento exorta ao conhecimento da verdade, e clama para que nada fique encoberto. Na Carta, os membros da Frente afirmam: “Diante da gravidade do caso Master, apontado como o maior crime financeiro da história do Brasil, o país precisa conhecer a verdade (…). A verdade não pode aparecer aos pedaços, escolhida conforme a conveniência do momento. Vazamentos seletivos, principalmente durante uma eleição, alimentam versões, atingem adversários e transformam uma investigação em instrumento político”

Não vou discutir aqui o teor dos últimos acontecimentos envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal, mas reitero um aspecto que esse documento traz à tona e que é cada vez mais delicado e carente de cuidado nas democracias, especialmente num país como o Brasil, cuja religiosidade da população é muito expressiva: a manipulação da fé para ocultar o que é incômodo e corromper a verdade dos fatos. 

A manipulação que usa a fé legítima das pessoas é um instrumento de desinformação extremamente poderoso e danoso porque mexe com a emoção das pessoas e as fragiliza em sua existência como cidadãos de direitos. Já discutimos neste espaço como falsos profetas modernos usam e abusam da fé das pessoas para enganar e construir realidades falsas a seu favor, a favor de seus projetos egoístas e particulares, em detrimento do conjunto da sociedade.

Como enfatiza a Carta Aberta da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito ao ministro André Mendonça, “sua fé não deve ser usada para levantar suspeitas contra outros irmãos. Também não pode servir de escudo, palanque ou instrumento eleitoral”. A manipulação que utiliza a fé e a religiosidade dos brasileiros, para além da exploração da crença, tem propósitos bem claros, como a ocultação de delitos graves, o favorecimento de alguns grupos e a manutenção de poder. Nada disso, vale lembrar, é coisa de Deus.

Nessa arquitetura que envolve a manipulação pela fé, há três construções discursivas muito relevantes:

  • a escolha de um inimigo a ser combatido;
  • o medo incutido nas pessoas para que elas não questionem o que ocorre;
  • e os falsos “escolhidos” de Deus. 

A construção de um inimigo comum geralmente encarna a figura mítica do demônio que precisa ser combatido a qualquer custo. Já vimos a efetividade dessa encenação durante as eleições de 2022 – em um culto na Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, em agosto de 2022, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro disse que o Palácio do Planalto era “consagrado a demônios” antes do governo do marido.

O medo é apresentado a partir de ameaças mentirosas como a “destruição de igrejas”, a proibição da manifestação religiosa ou o fechamento de templos como consequência da eleição de alguns grupos políticos. Há também fartos exemplos das eleições de 2022, quando a extrema direita bolsonarista propalava que Lula, se eleito, iria fechar as igrejas evangélicas. Lula foi eleito, e todas as igrejas estão de pé, e outras surgem livremente, como é praxe numa democracia.

Mas esse discurso serve bem para ocultar, por exemplo, o fato de que muitas igrejas são usadas pelos falsos profetas para eles obterem vantagens financeiras ilícitas. No caso da Igreja Batista da Lagoinha Belvedere, em Belo Horizonte, por exemplo, o pastor está sendo acusado de envolvimento com as tramoias do ex-banqueiro Daniel Vorcaro – segundo o Controle de Atividades Financeiras, Coaf, o ex-pastor Fabiano Zettel transferiu R$ 19,2 milhões em 26 operações para a Igreja

Por fim, temos a figura discursiva de um “escolhido” por Deus, um ungido, que, segundo a Bíblia, é aquela pessoa consagrada e imbuída de uma missão especial. As pessoas em cargos públicos são escolhidas pelas instituições e aprovadas ou não pela sociedade para realizarem um trabalho específico. Não são assim tão especiais para serem escolhidos por Deus, são cidadãos e cidadãs comuns que ascenderam a determinados cargos e funções.

Essa confusão proposital entre “missão”  e “função” é bem adequada para tirar do agente público responsabilidades e qualquer possibilidade de ser questionado porque, afinal, se alguém é escolhido por Deus, quem somos nós, pobres cidadãos, para questioná-lo, não é mesmo? Essa construção discursiva é muito útil para blindar falsos profetas em seus desvios, porque tudo pode ser permitido.

No Antigo Testamento, a pessoa ungida recebia a autoridade divina, ou seja, diretamente de Deus, para ser o líder e levar à frente aquela missão – eram reis, profetas, sacerdotes. No Novo Testamento, o ungido é o Messias, Jesus Cristo, o escolhido como filho de Deus, que nasceu pobre e se misturou ao povo em sua missão de defender os mais humildes e necessitados.  

Na democracia, temos funcionários públicos que são aprovados ou não pelas instituições (em concursos), nomeados para cargos específicos ou escolhidos para determinadas funções – e todos devem responder à Constituição, obedecer às leis, zelar pela coisa pública e ter responsabilidade social em suas decisões e no trabalho que desempenham. E todos são passíveis de punição, caso incorram em erros. 

Confundir deliberadamente e de modo manipulador essas instâncias, brincando com a fé legítima das pessoas, beneficia apenas os enganadores, os mentirosos, os falsos profetas; aqueles que se enriquecem ilicitamente ou que querem apenas manter o poder. Eles não se importam efetivamente com a riqueza da Palavra, com o Evangelho que prega amor e união, apesar de usá-los em suas falas.

O item que tem valor é o benefício ou lucro que vão obter, em detrimento da construção de uma sociedade menos desigual e mais justa. Há um cálculo estratégico manipulador muito bem feito para abusar da fé das pessoas e incutir falsas ideias, pavor do demônio, falsas perspectivas, para difundir mentiras e apostar em soluções mágicas – enquanto os problemas reais das pessoas ficam sem solução. É uma exploração deliberada não apenas para enganar, mas também para escamotear os desvios cometidos.

A religião ocupa, no Brasil, um espaço importante, e as igrejas são, sim, locais de acolhimento, apoio social, vida comunitária – e isso não pode ser enlameado pela conduta ardilosa e falsa de alguns espertalhões e vendilhões do Templo.  

Por fim, é importante frisar que essas construções de discurso que apelam à fé e elegem falsos escolhidos servem muito bem para distrair as pessoas em relação ao que interessa para o conjunto da sociedade, como investimentos em saúde, em educação, aumento de renda, mais emprego, vacinas para a população, acesso à informação, combate à desinformação. Tudo isso contribui para que todas as pessoas, todos os cidadãos, tenham seus direitos garantidos.

Para a ceia na mesa do Pai – com partilha e comunhão – todos somos convidados, e isso não é privilégio somente de alguns.  

Eliara Santana – Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica,  Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Eliara Santana

Eliara Santana é jornalista, doutora em Linguística e Língua Portuguesa, com foco em Análise do Discurso. Coordena o programa Desinformação & Política. Também Desenvolve pesquisa sobre desinformação, desinfodemia e letramento midiático no Brasil. Diretora do IEPI e pesquisadora do Observatório das Eleições.

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