4 de novembro de 2026

Os primeiros ensaios de terrorismo do mercado, por Luís Nassif

Essa pressão demonstra que o maior desafio, em qualquer tentativa de reduzir os juros, é enfrentar o poder de desestabilização do mercado.

Manchete da Folha indica temor do mercado sobre Lula, mas não traz informação objetiva nem considera debate sobre juros.
Mercado pressiona economia com manchetes alarmistas e operações financeiras, dificultando redução gradual dos juros.
Carry trade e títulos pós-fixados são armas do mercado para desestabilizar o câmbio e manter juros altos no Brasil.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

A manchete principal da Folha de hoje é bastante informativa.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Quais as informações que se extrai dela:

  1. A primeira informação é que não há nenhuma informação objetiva na manchete. “Lula pode” é tão objetivo quando “Lula não pode”. “Teme o mercado” vale para qualquer tema. “Mercado teme El Niño”, “Mercado teme a vitória de Lula”. No caso, o Mercado teme algo que ainda nem está no radar do governo.
  2. A segunda informação é que a manchete ignorou o fato econômico do dia anterior: o artigo de André Lara Resende, que deflagrou uma discussão enorme sobre as formas de reduzir os juros.
  3. A terceira informação é que, ao colocar uma manchete sem nexo, o jornal deixou claro que foi acionado pelo mercado como manobra defensiva, meio desengonçada, mas claramente uma demonstração de força contra qualquer tentativa de enquadrar o mercado.

Esse ensaio de pressão demonstra que o maior desafio, em qualquer tentativa de reduzir os juros, é enfrentar o poder de desestabilização do mercado.

Ele se manifesta das seguintes maneiras:

  • Manchetes terroristas nos jornais.
  • Mudanças de carteiras, especialmente em relação ao câmbio.

A proposta de André Lara Resende recorreu à expressão mais utilizada pelos macroeconomistas: o “suponhamos que”. “Suponhamos que” o mercado perca o poder de desestabilizar a economia, “suponhamos que” deixe de fazer terrorismos com o câmbio, então haverá espaço para propostas de racionalização.

Vamos entender as duas principais armas do mercado: os títulos pós-fixados e o carry trade.

No pé do artigo vou me estender em explicações mais detalhadas sobre essas duas armas.

Agora, é importante saber o que podem fazer.

Peça 1 – como o mercado desestabiliza a economia

A maneira de desestabilizar a economia é em cima da variação dos índices de mercado e do papel da imprensa, espalhando o terrorismo.

No período da campanha do impeachment, por exemplo, o Jornal Nacional deu uma série de reportagens sobre a inflação do tomate – um aumento pontual, decorrente da quebra da safra. Chegou a falar em hiperinflação e a comparar com o período pré-Real, com as maquininhas de remarcação de preços dos supermercados a pleno vapor.

Peça 2 – a dívida pública

O Tesouro tem dois tipos de papel para girar a dívida pública: as LTNs (Letras do Tesouro Nacional) e as LFTs (Letras Financeiras do Tesouro).

As LTNs são papéis pré-fixados. O papel já tem o valor de resgate fixados, em R$ 1.000,00. A venda do papel é feita com deságio. Ou seja, se a LTF rende 14% ao ano, como seu valor de resgate é R$ 1.000,00, ele precisa ser vendido a R$ 877,19 (1.000 / 1,14).

Se a taxa de juros aumenta para 16%, o valor de venda do papel cai para R$ 862,078 (1.000 / 1,16). Ou seja, cada vez que há um aumento na taxa de juros, há uma perda de valor do papel.

Portanto, quem investe nas LTNs, aposta na queda da inflação e dos juros. Ocorre, que são pouco mais de 20% dos títulos públicos.

Os 80% restantes são de LFTs, com correção monetária. Uma aplicação de R$ 1.000,00, a 14% ao ano, chegara no vencimento valendo R$ 1.140,00. Mas suponha que a partir do 100º dia útil a Selic sobe para 16%. Nesse caso, o valor de resgate do papel será de R$ 1.152,02, 1,05% mais alto. Por isso, os investidores em LFTs ganham quando a Selic aumenta.

Como os papéis pós-fixados correspondem a 80% dos títulos públicos, o mercado tende a pressionar sempre por juros maiores.

Daí a proposta de André Lara Resende, de se promover uma mudança gradativa dos títulos pós para os pré-fixados. Mas não se trata de tarefa trivial. André precisa explicar melhor como fazer.

Peça 3 – o carry trade

Essa é a principal arma do mercado.

Carry trade é uma operação pela qual o investidor toma dinheiro emprestado no Japão (que tem historicamente taxas baixas de juros) e aplica em países com taxas elevadas.

Trata-se de um capital especulativo, que pode pular de uma economia para outra em um piscar de olhos. Assim, eles ficam acompanhando a rentabilidade da operação no Brasil. Se julgam que a do México é melhor, o dinheiro salta daqui para o México. Quando isto ocorre, há uma desvalorização da moeda brasileira, pressionando os preços e obrigando o BC a aumentar a Selic.

Em 2024, bastaram alguns rumores sobre as taxas de juros do Japão, e um movimento especulativo com o carry trade brasileiro – promovido por uma instituição internacional e duas nacionais – para o dólar explodir, deixando o BC de joelhos.

Além do que movimenta, em dólares, o carry trade ainda serve de parâmetro para a bet do mercado financeiro: o mercado de derivativos. Trata-se de um mercado em que um investidor vende um contrato em dólares (sem ter os dólares) para outro investidor, que adquire os contratos. No vencimento, se o dólar estiver valendo mais do que o fixado no contrato, o vendedor paga a diferença para o comprador. E vice-versa.

São números colossais. Em setembro passado, havia cerca de R$ 866 bilhões em títulos públicos brasileiros em poder de estrangeiros. E o estoque nacional de derivativos no mercado regulado brasileiro era de aproximadamente R$ 37,53 trilhões – incluindo derivativos de juros, câmbio e outros ativos. A negociação mundial de derivativos de juros em reais, no balcão, é de aproximadamente US$ 92 bilhões por dia.

Por isso mesmo, antes de desarmar essa bomba, qualquer tentativa civilizada de mudar a política monetária será atropelada por esse exército de hunos.

Anexo 1 – para entender a matemática das LFTs e LTNs.

No caso das LTNs (pré fixados), a valor de resgate sempre é R$ 1.000,00.

Os cálculos de juros são feitos em cima de 252 dias úteis (o numero de dias úteis do ano).

Todos esses papéis têm uma curva de preços – isto é, quando é o seu Preço Unitário (PU) a cada dia, de acordo com a taxa de juros praticada.

No caso da LTN, na tabela abaixo a primeira coluna é o cálculo em cima de uma Selic de 14%. No 100º dia útil transcorrido, faltando 152 para vencer, o valor do dia será de R$ 924,01 (1.000,00 / 1,14^(152/252)). Se a Selic fosse de 16%, o valor seria 1,04% menos, ou R$ 914,37.

No caso, das LFTs, a conta é diferente. Como é pós-fixada, sua remuneração correspondente à Selic. A aplicação foi de R$ 1.000,00. No 100º dia útil, seu PU será de R$ 1.053,37 (1.000,00 x 1,14^(100/252)). Se a Selic aumentar para 16%, o valor do papel, no dia seguinte, será de R$ 1.060,67 ou 0,69% a mais. No resgate, até o 100º dia o papel renderá de acordo com a Selic de 14%. Dali em diante, pela Selic de 16%. No resgate, o valor será de R$ 1.152,02, ou 1,05% a mais.

Anexo 2 – para entender o carry trade

Carry trade é uma operação que consiste em tomar dinheiro emprestado em países de crédito barato, como o Japão, e aplicar em países de taxas elevadas, como Brasil, México, Colômbia, África do Sul, Turquia etc.

Se o país não impõe restrição ao livre fluxo de capitais, se deixa esses dólares entrarem e saírem sem controle, o câmbio passa a ser totalmente controlado por esses capitais.

EtapaOperação
Empréstimo no exterior, a 5% ao anoUS$ 100.000
Conversão ao câmbio de R$ 5,00 por dólarR$ 500.000
Aplicação no Brasil, a 15% ao anoR$ 575.000 ao final
Câmbio esperado no encerramentoR$ 5,25 por dólar
Conversão do resgate em dólares: 575.000 ÷ 5,25US$ 109.523,81
Pagamento do empréstimo com jurosUS$ 105.000,00
Lucro esperadoUS$ 4.523,81

O diferencial de juros é de 10 pontos percentuais, mas a desvalorização esperada do real, de 5%, consome parte do ganho.

Esses cálculos são feitos diariamente pelo mercado. E todos os emergentes competem entre si. Se a situação fica melhor em um país, os dólares saem dos demais países em direção ao país contemplado. Quando há esse movimento, há uma desvalorização das moedas dos primeiros países e uma apreciação da moeda do país que recebeu os dólares.

Ontem, o quadro mundial do carry trade era o seguinte:

LEIA TAMBÉM:

Receba os artigos de Luís Nassif pelo WhatsApp

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Recomendados para você

Recomendados