COVID-19: Manifesto do Colegiado dos Professores Titulares da FMUSP

Governantes omitem suas obrigações constitucionais para enveredar por caminhos fáceis que invariavelmente chegam a um ponto sem saída. Cabe a nós, médicos, mostrar que não há solução fora da ciência.

COVID-19: Manifesto do Colegiado dos Professores Titulares da FMUSP

“Curar quando possível; aliviar quando necessário; consolar sempre”

Essas são frases de Hipócrates, a quem, médicos, prestamos juramento. A Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo materializa os princípios hipocráticos com um plátano originário da ilha de Cós, onde se iniciou a medicina como a conhecemos hoje, que está plantado na nossa sede, a Casa de Arnaldo.

Seguindo esses preceitos milenares, informamos que frente à pandemia de COVID-19, causada pelo vírus SARS-COV-2, ainda não existe tratamento cientificamente eficaz disponível em nenhuma parte do mundo. Como sempre ocorre em situações dramáticas como essa, esperanças falsas ou sem comprovação científica surgem como remédio para todos os males. Governantes omitem suas obrigações constitucionais para enveredar por caminhos fáceis que invariavelmente chegam a um ponto sem saída. Cabe a nós, médicos, mostrar que não há solução fora da ciência.

Médicos e cientistas em todo o mundo estão à procura de uma solução para o tratamento do coronavírus. Esperamos que surjam medicamentos para o tratamento da COVID-19, que possam tal como os antibióticos que reduziram as principais causas de sofrimento da humanidade, até a metade do século passado, como a sífilis e tuberculose. Para que esse medicamento seja descoberto, aprendemos há décadas que a escolha de um tratamento eficaz depende de etapas muito bem estabelecidas e controladas para permitir que o medicamento inovador, seja tanto efetivo, como ao mesmo tempo não traga danos a quem se utilize dele. O fato de não termos um remédio para o coronavírus, não significa que não sabemos reduzir o impacto da infecção causada pelo vírus. Ao contrário, o conhecimento em tratar a insuficiência respiratória permitiu reduzir em muito a letalidade prevista para a COVID-19.

As infecções atingem os seres humanos comprometendo diferentes órgãos, de forma diferenciada. O coronavírus causa uma pneumonia grave que motiva a insuficiência respiratória que pode levar à morte. Consequentemente, o tratamento da insuficiência respiratória é a etapa mais importante para reduzir os óbitos pela COVID-19. Para que o atendimento à insuficiência respiratória esteja disponível a todos na população atingidos pela forma grave da COVID-19, é necessário um sistema de saúde que diferencie os casos mais simples dos mais graves.

Para alcançar esse objetivo, o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP realizou a operação mais audaciosa nos 76 anos de sua existência. Transferiu todos os leitos do Instituto Central para os demais institutos e com isso disponibilizou vagas para a população com suspeita ou confirmação da infecção por COVID-19 com a maior unidade de terapia intensiva no país com, 200 leitos. Desta maneira, priorizamos o atendimento destes pacientes com COVID-19, reduzindo, mas sem deixar de atender outros pacientes com doenças graves pertencentes ao nosso Complexo HC.

Para o sucesso dessa empreitada são fundamentais, além de estrutura e equipamentos, a presença diuturna de médicos, ao lado de enfermeiros, cuidando de cada um dos doentes, fisioterapeutas ajustando os ventiladores respiratórios, nutricionistas, farmacêuticos, técnicos de laboratório e de radiologia. Enfim, todo um exército de profissionais que se arriscam nesse momento para cumprir suas funções. Nós, médicos, sabemos que sem eles, na arte e na missão que temos em diagnosticar e prescrever, o tratamento não se realizaria.

Assim, temos uma equipe que alivia o sofrimento daqueles internados em uma unidade de terapia intensiva, assim como seus parentes acudidos pelas nossas equipes de atendimento hospitalar, serviço social e psicologia. Além disso, foi criado um atendimento on-line para nossos médicos e colaboradores para atendimento de saúde emocional.

Outro ponto do nosso juramento é o de consolar sempre. Sabemos que muitas vezes, medicamentos ou outras ações não medicamentosas, apesar de não trazerem benefício comprovado, podem significar aos nossos pacientes, uma sensação de alívio do sofrimento. Esse é o momento que a ciência nos deixa, para que a arte se imponha. Trata-se de momento sublime da relação médico-paciente. Momento íntimo, onde a privacidade é fundamental e, ninguém poderá exigir que o ocorrido nesse relacionamento seja escancarado à opinião pública, questionando se houve prescrição de tal ou qual medicamento.

Ao contrário do que se apregoa, as nossas convicções sólidas em princípios científicos não implicam contraposição às ações espirituais. Nesse momento, gostaríamos de manifestar nossa compaixão, com nossos mais profundos sentimentos, aos familiares dos mais de mil brasileiros mortos. Ao mesmo tempo, queremos compartilhar esperança com aqueles que estão em sofrimento nas enfermarias e terapias intensivas, para que consigam superar esta fase e que se recuperem. Que todas as crenças unam suas preces. Dentro dos princípios de apoio mútuo a todos que sofrem, seja nos hospitais ou nos isolamentos em domicílio.

A COVID-19 representa o maior desafio de nossa geração. Nós a venceremos com ações coletivas de prevenção e com uma medicina que se alicerce nos conhecimentos científicos, no compromisso com a ética e na empatia aos doentes. Esses são os princípios que herdamos de nossos mestres. Como professores titulares dessa Casa de Arnaldo, assim, nós nos manifestamos aos nossos alunos, de graduação e de residência, aos profissionais de saúde, aos nossos pacientes e familiares e à população em geral.

Que a união de todos, nesse momento crítico, permita mantermos de pé, os princípios sagrados jurados, quando de nossa investidura como médicos.

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