No pós-pandemia “os equilíbrios políticos podem sair profundamente modificados” avalia analista italiano

Arnaldo Cardoso entrevista Goffredo Adinolfi sobre o momento político da Itália, que emerge, pouco a pouco, de uma crise sanitária.

No pós-pandemia “os equilíbrios políticos podem sair profundamente modificados” avalia analista italiano

por Arnaldo Cardoso

Com a fase 2 de relaxamento da quarentena em curso, a Itália adentrou naquilo que vem sendo chamado de pós-pandemia e sobre o qual já se produziu variadas projeções de cenários, a maioria deles negativos, embora as reais extensões dos impactos econômicos, políticos, sociais e psicológicos dessa pandemia, em cada país, só serão conhecidas com as efetivas interações dos fatores, mediadas pelos diferentes atores sócio-políticos nas esferas nacional, regional e  global.

No caso da Itália, o momento anterior a pandemia já apresentava um quadro econômico e político de instabilidade e uma escalada de tensão que provocava apreensão nacional e internacional.

Particularmente na arena política, uma crise de representação pondo em foco os tradicionais partidos políticos, alvos de crescente insatisfação popular, impulsionou nos anos recentes a radicalização do discurso da extrema direita com bandeiras antissistema, antieuropeísta, anti-imigração e, de forma subliminar, anti-democracia, robustecendo também o resultado em pleitos eleitorais desses políticos com ímpetos nacionalistas e soberanistas.

Da derrota no referendo popular de 2017 proposto pelo então primeiro ministro Matteo Renzi (Partido Democrático) para uma reforma constitucional e eleitoral – derrota que provocou sua renúncia –, passando pela eleição de março de 2018 cujo resultado habilitou pela primeira vez o partido de extrema direita Liga a compor com o M5S (Movimento Cinco Estrelas) – primeiro colocado em votos – um governo de centro-direita que governou o país por pouco mais de um ano e, com a dissolução da aliança, abriu nova crise política no país devolvendo Matteo Salvini, principal liderança da extrema direita italiana, à oposição e disputa pelo governo federal.

Pelo peso e impacto que passou a ter, é oportuno aqui resgatar, resumidamente, a trajetória do Movimento Cinco Estrelas, fundado em 2009, em meio à evolução da crise financeira internacional iniciada em 2008. Tendo nascido de um blog satírico criado pelo comediante Beppe Grillo, se apresentou como “um não partido político”, defensor da democracia direta, antieuropeísta e anti-establishment capturando a insatisfação popular e firmando-se na percepção dos eleitores como o verdadeiro partido de oposição, que romperia com a dinâmica de disputa e alternância no poder entre partidos de esquerda, centro-esquerda e centro-direita e suas alianças na formação de governos de coalizão.

Nas eleições legislativas de 2013, o M5S alcançou um surpreendente resultado, conseguindo fazer 109 deputados de um total de 630 na Câmara dos Representantes e 54 em 215, no Senado. Ficou apenas atrás do Partido Democrático e do Centro-Direita (Força Itália) liderado então pelo ex-Primeiro Ministro Silvio Berlusconi.

Em 2016 o M5S conquistou a prefeitura de Roma, colocando no comando a advogada Virginia Raggi, primeira mulher a governar a capital do país. Outras conquistas do partido se seguiram ampliando sua presença nos poderes Executivo e Legislativo.

Na votação sobre o referendo de Renzi a Itália viveu o paradoxo de a vitória do “não” significar a continuidade de um sistema que vinha dando inequívocos sinais de disfuncionalidade e a vitória do “sim” representar uma ameaça ao equilíbrio entre os poderes e ao sistema de representação política na democracia liberal com seus necessários corpos intermediários para a garantia da representação política e participação dos cidadãos. Embora o referendo de Renzi tivesse em sua essência elementos para o fortalecimento da soberania popular – bandeira tradicional do M5S – o partido se posicionou contra o referendo.

De lá para cá só se agudizaram as contradições enfrentadas por esse que é considerado o primeiro partido digital. Hoje, mesmo dando sinais de fragilidade, o M5S busca transmitir confiança, como explicitou em recente entrevista o jovem político Luigi Di Maio, um dos líderes do partido que ocupa atualmente o cargo de Ministro das Relações Exteriores do país. Na entrevista Di Maio afirmou que “a ambição do Movimento é governar sozinho” e, sobre a controvertida figura de Beppe Grillo declarou “sentimos falta dele, ele é uma pessoa com grande força de espírito e visão”.

Sobre o funcionamento e as crises da democracia liberal representativa e, mais especificamente, sobre a política italiana contemporânea tive a oportunidade de entrevistar o cientista político Goffredo Adinolfi que é italiano, doutor em História Contemporânea pela Universidade de Milão, estudioso sobre o fascismo, pesquisador na área de Ciência Política do ISCTE em Lisboa e autor de diversos artigos acadêmicos.

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Na entrevista abaixo, Adinolfi respondeu a perguntas que tiveram por eixo principal o Movimento Cinco Estrelas, mas dado ao apurado conhecimento do entrevistado pode-se extrair de suas respostas informações importantes da atual conjuntura política e social desse país europeu cuja história tem tão amplas e profundas ramificações na história mundial e, com o qual nós brasileiros temos fortes laços e, recorrentemente, nos vemos aproximados quer pela intensificação de cooperação em áreas como a do comércio, da ciência e da cultura, mas também por crises como as presentes, donde mutuamente podemos extrair lições.

AC – Em seu artigo de 2016 (O MoVimento 5 Estrelas e a lei férrea da oligarquia) você aponta três características principais do Movimento Cinco Estrelas sendo elas “a retórica populista cidadão/elite” o “desejo de níveis acrescidos de democracia participativa” e uma “explícita preferência por ‘formas de democracia direta’”. Dois anos depois da chegada do Movimento ao governo da Itália com as eleições de março de 2018, essas três características continuam definidoras do M5S?

GA – O Movimento 5 Estrelas ainda tem uma forte preferência por formas de democracia direta. A plataforma Rousseau é o site por onde passa uma parte da decisão política que é produzida pelo Movimento, sendo as escolhas das suas lideranças convergentes ou não com as dos seus deputados. Todavia a experiencia de ser governo obrigou o M5S a uma maior mediação e, portanto, a um afastamento parcial deste modelo. Em seus manifestos os projetos para uma reforma do instituto do referendo ainda permanecem.

AC – A heterogeneidade política presente na formação do M5S tendo sido fator de força em suas fases iniciais é vista hoje como fator de fraqueza dada a maior divisão e radicalização das posições políticas na Itália?

 GA – De fato, o Movimento está passando por uma séria crise. A primeira viragem foi o afastamento de modelos de democracia participativa e dos Meet Up organizados no território. Uma conotação mais à direita que os levou ao governo com a Liga de Salvini. A segunda é a aliança com o Partido Democrático e uma conotação desta vez mais à esquerda. Claramente tudo isso levou a perda de pedaços no caminho e a uma redução muito significativa de votos.

AC – Pesquisas do final de 2019 apontavam que cerca de 60% dos filiados ao M5S é de direita e 40% de esquerda. A baixa votação obtida pelo M5S em eleições regionais do começo do ano como a da Umbria e a da Emilia Romagna pode ser entendida como reflexo da atual aliança do M5S com o PD, tendo os apoiadores de direita do M5S migrando seu voto para a Liga de Salvini e aos Irmãos da Itália de Giorgia Meloni?

GA – O Movimento 5 Estrelas paradoxalmente sempre teve dificuldades em eleições locais. Paradoxalmente porque os seus primeiros êxitos foram obtidos nas regiões da Sicília e na cidade de Parma. Sendo o Movimento um partido sem partido, praticamente só uma plataforma de internet as eleições locais sempre foram complicadas. Até  a sua liderança pensava em não participar mas depois os ativistas votaram na plataforma Rousseau pela participação nas eleições regionais.

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AC – Nas eleições legislativas de 2013 o M5S obteve 25% dos votos e afirmou-se como a 3ª força política do país, junto com o PD e o Forza Itália, quebrando um período (1994-2013) de vinte anos de bipolarismo. Hoje voltamos a ter um “bipolarismo” com o PD e a Liga disputando a narrativa política e os votos na Itália?

GA – Esta é uma boa pergunta, mas é difícil responde-la. Sabemos que a Liga e os neofascistas Fratelli d’Italia (Irmãos da Itália) têm juntos cerca de 40% dos votos, mais o Forza Italia que participa geralmente na coligação, uns 8%. Juntos podem, portanto, chegar aos 50% e vencer eleições. À esquerda é difícil perceber qual poderia ser uma aliança. Há um grande debate dentro do M5S e nem todos concordam numa aliança à esquerda.

AC – A plataforma Rousseau do M5S deve ser vista como um recurso tecnológico para melhor atendimento da demanda popular por maior participação ou a técnica tem se tornado um novo corpo intermediário que mina a promessa de “cidadania ativa”?

 GA – A plataforma Rousseau dados os moldes como é exercido o voto favorece uma participação acrítica e plebiscitaria. É um elemento de forte verticalização da política. De fato é quem tem as mãos na plataforma que decide quando recorrer ao voto que só pode ser exprimido de forma dicotômica sim ou não. Além disso não há um controle na contagem de votos. Por fim a plataforma não permite uma discussão horizontal entre os militantes.

AC – Em seu artigo de 2016 encontra-se apresentado o perfil dos eleitores do M5S dentre os quais 40% é constituído por jovens da geração pós-1986 (principais impactados pelas reformas trabalhistas que precarizaram os contratos de trabalho). Esse dado reforça a avaliação de que o voto no M5S teve uma forte característica de “voto de protesto”?

GA – Desde o fim do governo conduzido pelo tecnocrata Mario Monti (ex-Primeiro Ministro), durante a forte crise econômica entre 2011 e 2013, houve grandes mudanças na forma de votar por parte dos italianos que tradicionalmente eram muito fiéis aos seus partidos. A tendência a fluidificação vem claramente de muito longe, mas exacerbou-se nos últimos anos. O fato de os partidos não terem capacidade de responder às necessidades das pessoas faz com que elas virem o próprio voto para partidos diferentes. Mais do que um voto de protesto eu diria que é uma tentativa desesperada de encontrar soluções para uma crise social que nunca parou desde a crise do período da Operação Mãos Limpas em 1992.

AC – No contexto da campanha no Reino Unido para o referendo do Brexit em 2016, uma pesquisa revelou que só na Inglaterra havia cerca de 450 mil italianos, principalmente jovens, trabalhando e estudando. Da experiência do M5S no poder (Legislativo e Executivo) é possível identificar iniciativas do partido por políticas públicas voltadas à juventude? É possível afirmar que a juventude se encontra melhor representada pelo M5S do que pelos tradicionais partidos políticos?

GA – Talvez sim, é possível dizer que o Movimento 5 Estrelas dá respostas mais ou menos erradas a problemas certos. Sim o M5S tem uma maior capacidade de interceptar e falar a linguagem dos jovens. Por exemplo introduzindo salário de cidadania ou tentando encontrar formas contratuais para os trabalhadores das várias plataformas de internet como Deliveroo ou Uber.  Claro depois a Itália é um país com uma pirâmide etária muito virada para a população idosa e os idosos votam mais do que os jovens…

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AC – Você considera que as recentes crises econômicas e políticas na Itália têm expulsado do país seu melhor capital humano?

GA – Ninguém se importa muito com os jovens. Não foram as crises econômicas, mas sim uma liderança medíocre e um tecido social impermeável que tem levado ao desperdício do melhor capital humano do pais. Encontrar um bom trabalho na Itália se não se tem indicações tem sido impossível. Só resta a emigração quando se tem muitas qualificações e mérito.

AC – A aposta do M5S na participação política de cidadãos pelas redes sociais, promovendo uma “nova cidadania” tem alguma diferença significativa da prática de líderes como Matteo Salvini e outros da direita e extrema direita ao manter com seus seguidores comunicação constante via redes sociais?

GA – A Liga e o M5S, mas no fundo também o Partido Democrático de Matteo Renzi, apostaram muito numa ideia de política renovada a partir de um povo passivo e plebiscitarizado, fora dos corpos intermedios: sindicatos, parlamentares e em geral a sociedade civil. Cada um o fez de uma forma diferente. Os 5 Estrelas totalmente através das redes sociais, a Liga num conjunto de rede sociais e praças e mercados e Renzi numa forma menos explícita, mas que sempre visava destruir os corpos intermediários, sobretudo os sindicatos e os dirigentes do seu partido.

 AC – Na conclusão de seu artigo de 2016 você cita Pierre Rosanvallon, trazendo a ideia da mudança do cidadão eleitor para o cidadão controlador. Você avalia que essa mudança impulsionada por partidos como o M5S pode ser favorável para uma reforma do atual sistema de representação política em crise?

GA – Sim de fato muitas coisas já mudaram. Eleições primarias dentro dos partidos para a escolha dos seus candidatos, eleição direta dos presidentes de regiões e cidades. Mas tudo isso levou a que a política se desresponsabilizasse. Os políticos estão com medo e deixam a tomada das decisões mais importantes aos técnicos e assim ficam ainda mais deslegitimados.

AC – O M5S que se afirmou como um importante fato político conquistou o status de terceira força política na Itália em momento de baixíssimos níveis de confiança dos cidadãos italianos no sistema político do país, particularmente em sua capacidade de dar respostas satisfatórias às demandas sociais.

Num exercício de construção de cenários, já é possível arriscar uma avaliação de como estará a situação política italiana depois de superada a atual crise sanitária do coronavírus? Na sua opinião a pandemia vem agudizando as crises políticas e econômicas que já estavam instaladas antes da pandemia ou levará a uma maior união dos italianos em prol da recuperação?

 GA – Difícil responder, por enquanto há um grande cansaço, mas o atual Primeiro Ministro Giuseppe Conte ainda tem muito apoio. Todavia num futuro próximo será necessário tomar medidas muito restritivas do orçamento nacional e isto poderá dar um novo folego ao Salvini e a Giorgia Meloni (lideranças da extrema direita) que agora, em meio a crise, andam relativamente apagados.

Arnaldo Cardoso, cientista político

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1 comentário

  1. “Embora o referendo de Renzi tivesse em sua essência
    elementos para o fortalecimento da soberania popular”

    Essa frase vale mais que a costeleta “desse analista”

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