Chile: viver com o terremoto

Por Frederico Füllgraf, especial para o Jornal GGN
 
Concepción, Chile – No extremo norte do Chile, a presidente Michelle Bachelet sobrevoa e faz contato com a população afetada pelo terremoto de terça feira à noite. Dois dias depois, continuam as temidas réplicas ou “rebotes”: tremores secundários como consequência da reacomodação da crosta terrestre ao redor da falha que deu origem ao sismo principal.
 
Duas semanas atrás, minha escrivaninha começou a trepidar, a luminária do teto a dançar…
 
“Não de novo!”, bradei em solilóquio. 
 
Vivenciei meu primeiro tremor em 1998, insinuado no conto “Carne trêmula” –  http://fuellgrafianas.blogspot.com/2014/03/frederico-fullgraf-carne-tremula.html
 
Foi experiência insólita vivida em pleno gozo a dois, sob os lençóis, no 15º andar de um edifício no bairro Providencia, de Santiago.
 
Experiência insólita, por isso inenarrável para os mortais em terra sempre firme, pois, com o rosto casualmente direcionado à janela, vi em seu vão um tenebroso vai e vem da Cordilheira dos Andes, como fosse o pêndulo do fim dos tempos! Minha namorada chilena debochou do mísero temblor, eufemismo nada confiável dos nativos, empregado para desdenhar o prelúdio da catástrofe – de tão habituados, os andinos, com as tremedeiras do chão debaixo de seus pés.
 
No último dia 14, foi apenas balanço de alguns segundos, seguidos do primeiro SMS em meu celular, para saber se eu estava bem. 
 
Intuí que seria somente o começo da tal crônica do terremoto anunciado, pois no extremo norte do Chile e sul do Peru, naquela noite o range-range das placas tectônicas desencadeou 6,1 pontos na escala Richter.

 
Às 20:46 de anteontem, 1º. de abril, novamente em Iquique, a régua de Richter acusou magnitude de 8,3 – um terremoto poderoso, com duração de minutos e mais de 13 “rebotes”! Por vezes, as réplicas são mais vigorosas que o primeiro trremor, e por isso muito temidas. O saldo preliminar é de 6 mortos, metade deles por enfarto, e poucos danos materiais. Mas a ONEMI, a Defesa Ciivil do Chile, ativou o alarma vermelho para tsunamis, ordenando a evacuação preventiva de toda a orla ao longo dos 4.329 kilómetros da costa chilena.
 
Na era do celular, alguns moradores de Iquique não hesitaram em registrar os instantes de terror com seus aparelhos, como neste apartamento: https://www.youtube.com/watch?v=SPSQzjXbmEE#t=38
 
300 mulheres fogem de cadeia e Forças Armadas controlam Iquique
 
Na região afetada pelo terremoto, situada 1.800 km ao norte de Santiago, e cujo epicentro se situou 90 quiômetros mar adentro, parte da população começou a refugiar-se em morros e terrenos de relevo, enquanto as primeiras ondas de um inibido maremoto, com 2,0 m de altura, açoitavam o litoral, provocando inundações das ruas adjcentes à arrebentação. 
 
Às 2:45 da manhã, o Centro de Alertas de Tsunamis do Pacífico, com sede no Havaí, suspendeu o alarma para o Chile, Perú, Ecuador, Colombia, Panamá, Costa Rica, Nicaragua, El Salvador, Guatemala, México e Honduras, mas Rodrigo Peñailillo, ministro do Interior chileno, advertiu que seria mais prudente a população das regiões costeiras manter-se fora da área de risco até o Serviço Hidrográfico e Oceanográfico da Marinha emitir luz verde, o que poderia ocorrer ao amanhecer desta quarta-feira.
 
Em Iquique, perto da fronteira com o Peru, após um motim, 300 mulheres escaparam de um centro de reclusão feminina, certamente apavoradas como seus carcereiros, que devem ter facilitado a fuga, em momentos quando 90% da cidade estavam submergidos em blackout. 
 
Ato contínuo, o governo federal em Santiago ordenou a ocupação da cidade por tropas das FFAA e da polícia militarizada Carabineiros, além do envio de 100 efetivos das “forças especiais”, para garantir a segurança.
 
O range-range das placas tectônicas
 
Escrevo desde Concepción, a segunda maior cidade do Chile, localizada 450 km a sudoeste de Santiago, cujo porto Talcahuano celebrizou-se como  último entreposto de abastecimento para a navegação marítima em direção ao Estreito de Magalhäes, antes da inauguração do Canal do Panamá.
 
Da antiga fundação espanhola, erguida em 1550 com rica arquitetura colonial, hoje nem mais um vestígio!
 
Em 20 de fevereiro de 1835, Concepción foi completamente arrasada por um terremoto de 8,5 na escala Richter, seguido de um maremoto testemunhado por Charles Darwin, que desembarcara do “Beagle” e casualmente se encontrava em solo chileno. Escreveu Darwin: “Eu estava em terra firme descansando à sombra de uma relva. [O terremoto] veio de repente e durou dois minutos (ainda que parecesse muito mais). O sismo era muito notável, a mim e meu empregado nos pareceu que a ondulação vinha do leste (…). Um terremoto como este destrói as associações mais antigas, o mundo, o emblema de tudo aquilo que é sólido”. 
 
Outro caso de cidades coloniais varridas do mapa é o da região do Maule, 250 quilômetros ao sul de Santiago. Em 1985, um terremoto assolou a capital Talca e a cidade de Curicó, de cuja arquitetura de adobe em estilo colonial só restaram ruínas, na sequência reerguidas pela população, mas defintivamente devastadas pelo inesquecívle terremoto de febereiro de 2010.
 
A maldição do Chile é seu arranjo geológico como território com a maior incidência de vulcões em escala planetária e reles e estreito “terraço” da Cordilheira dos Andes face aos despenhadeiros do Pacífico.
 
Grande parcela do apertado e serpejante mapa chileno está assentado sobre uma zona de “briga de cachorro grande”: o encontro das placas tectônicas de Názca, Sulamericana e Antártica. Nesta zona, a primeira se movimenta em sentido oeste-leste, empurrando a placa sulamericana em um processo que se conhece por subducção, isto é: a placa de Názca mete-se como cunha debaixo da placa sulamericana, obrigando-a a retroceder – eis por que a terra treme!
 
Muitos terremotos têm seu epicentro no Pacífico, o que se deve à dinâmica da crosta marinha, cujos dorsos e relevos estão em constante expansão. Quando a crosta marinha se desloca e se conecta automonaticamente com o movimento das placas, o magma ascende, esfría em contato com as águas oceânicas, ocorrendo um maremoto, que por sua vez é o gerador do que os japoneses chamam de tsunami: uma “onda de porto”, comprida e empilhada, de efeitos devastadores.
 
Terremoto, a maldição de Michelle Bachelet
 
Dizem que a recém-empossada presidente chilena deveria tomar um banho de sal grosso: ela deixou seu primeiro governo (2006-2010) sob escombros e velórios dos mais de 524 mortos do terremoto de 27 de fevereiro de 2010, e reassume seu mandato em março de 2014 sob ameaça de nova série de sismos arrasadores. 
 
Anos após ter se despedido de seu primeiro governo, com índice de aprovação acima dos 80%, durante a campanha presidencial de 2013, os conservadores no Chile voltaram a insistir na tese da suposta “incompetência” de Bachelet demonstrada durante o terremoto de 2010, que de fato desnudou uma administração pouco preparada para enfrentar de forma criativa o sismo.
 
Contudo, como revelou o semanário Cambio21 de 02/03/2012 (“El día del terremoto en que las FF.AA le dieron la espalda a Bachelet”), a presidente foi literalmente abandonada  por todos os órgaõs de seu governo, que na madrugada do fatídico sismo deveriam ter agido: a Defesa Civil ONEMI e as Forças Armadas, que têm mandato para reforçar as medidas da primeira. 
 
O comportamento das FFAA foi inexplicável: os comandantes do Exército e da Marinha permaneceram incólumes em suas casas, e o da Aeronáutica, que se declarou “pronto para agir” às 5h da manhã, só apareceu após as 09 da manhã, quando o Chile amanhecia sob escombros. E o que dizer do Serviço Hidrográfico da Marinha, que suspendera o alarma vermelho, literalmente enviando à morte pescadores da região do Biobío, que se precipitaram ao mar, ignorando que seriam engolfados por tsunamis sucessivos?
 
Desta vez, Bachelet não vacilou, confiando nos tradicionais “órgãos competentes”, ordenando poucos minutos após o sismo a imediata evacuação da costa chilena,  constituindo um comitê de emergência encabeçado pelo Ministro e seu Subscretário do Interior, e partindo em caravana para a zona afetada, cuja população mereceu seu emocionado elogio, pois seguiu à risca as recomendações do governo, abandonando suas residências e buscando refúgio nas zonas de relevo, longe do mar. 

1 comentário

  1. Terremoto no Chile

    Excelente a vivëncia do jornalista mas um ligeiro erro que pode confundir

    A Defesa Civil náo é a ONEMI. Esta última é a Oficina Nacional de Emergencia del Ministerio del Interior (algo assim como a vice-presidencia do Chile)

    O primeiro (Defensa Civil) trabalha com volujtários náo remunerados, enquanto a ONEMI está composta por profissionais altamente capacitados e pagos pelo Estado

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome