Violência e intolerância são sinais de repressão, diz cineasta argentino

Em filme que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta, Benjamin Naishtat conta os momentos vividos pela sociedade pouco antes da ditadura de 1976 da Argentina. Ao GGN, relata que cenário pode se repetir

Jornal GGN – Como estava a sociedade momentos antes de um golpe instaurar a ditadura no país? A repressão e o terrorismo de Estado, assumidos na forma de uma violência que aos poucos era naturalizada, seja na forma física, como também em sinais que atentam contra a liberdade de expressão e o aumento da intolerância, foram elencados por Benjamin Naishtat ao GGN, cineasta argentino que descreveu o momento anterior ao golpe de 1976 na Argentina no premiado longa-metragem “Vermelho Sol”, de 2018, que será lançado nos cinemas brasileiros nesta semana.

O objetivo do filme, que traz o conturbado período político mais como pano de fundo e os protagonistas são as pessoas comuns de uma província da Argentina, é uma historia de suspense, envolvendo um detetive e um desaparecimento nos anos 70. Mas é justamente o clima de tensão, de dedurismo e perseguição sentidos pelos moradores da pequena cidade que trazem a sensação de que uma ditadura chegaria no país, a qualquer momento.

Perguntamos a Benjamin Naishtat – que é o diretor e roteirista do longa que recebeu o prêmio de melhor direção e fotografia no Festival de San Sebastián, além de melhor ator a Darío Grandinetti, que assume o detetive protagonista do enredo – se ao participar de toda essa compilação histórica do momento, ele acredita que casos assim poderiam se repetir na atualidade da América Latina. “Existem muitas evidências a nível global de que há um retrocesso muito grande na intolerância e, nesse sentido, o Brasil é o maior exemplo, de até onde as coisas podem surpreender”, respondeu.

“É um cenário que não imaginávamos há 10 anos o que hoje se está vivendo no Brasil, com um grande retrocesso da qualidade democrática, da qualidade de vida da sociedade, na capacidade de expressão, ainda com casos muito concretos de violência, como Marielle Franco, uma funcionária política designada, e com total impunidade”, afirmou.

Vermelho Sol chega aos cinemas de todo Brasil no próximo 8 de agosto.

Leia trechos dessa entrevista:

GGN: Antes de mais nada, parabéns pelos prêmios que receberam, e gostaria de entender como foi o processo de produção e investigação do período pré-ditatorial dos anos 70 em Argentina?

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Benjamin Naishtat: Eu comecei a investigar porque me parecia que fazia falta, há muitos filmes sobre os anos 70 feitos na Argentina, mas muito poucas que tocam o tema das pessoas comuns e a sociedade civil durante essa época, muitas tratam da militância, da repressão, mas poucas colocam enfoque no homem comum e por isso achei interessante abordar desde este lugar. Ao mesmo tempo, quis fazer a produção sobre antes do golpe porque muitas poucas pessoas hoje se lembram que a repressão e o terrorismo de Estado estava presente antes do golpe, já havia uma maquinaria dos militares, por uma deterioração da situação política, para se chegar a estes níveis de violência, então a sociedade foi naturalizando a violência, e eu quis mostrar esse período de naturalização da violência, por isso que o roteiro se passa antes do golpe.

E para completar a pergunta, eu trabalhei com historiadores, arquivologia, um trabalho muito delicado junto à equipe artística para fazer uma reconstrução histórica muito rigorosa de como se vivia na época.

Quando se fala de ditadura, tanto na Argentina como outros países da América Latina, abordam o que se viveu desde o período dos golpes em adiante, e há muita pouca referencia cinematográfica, na minha perspectiva pelo pouco que sei, deste período justamente anterior, os momentos antes. Poderia descrever algumas características-chaves do que se vivia neste período?

Ocorreram alguns acontecimentos-chave, logo depois de 17 anos de proibição, Perón voltou ao país, era presidente, e havia uma grande disputa de poder entre setores que queriam um avanço à esquerda e outros setores que queriam um avanço repressivo, tudo isso no contexto da Guerra Fria. Perón funcionava como uma figura que barrava, de alguma maneira, a violência ou choques maiores, se bem ele tomou partido, antes de morrer, pelo setor mais situado à direita dentro de seu movimento, mas quando ele morre e sua mulher assume o cargo do país, no ano 75, se produz um vazio de poder que foram ocupadas rapidamente por forças para-policiais e paramilitares, e também pelos próprios militares, que avançam na repressão, e tudo isso, é importante lembrar, no contexto da Guerra Fria.

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Porque a Guerra Fria explica o que estava sucedendo em quase todo o mundo naquele momento, quando Estados Unidos, a CIA, etc, jogavam um papel no destino politico dos países. No filme, tudo isso esta apenas como pano de fundo, porque estamos mostrando personagens que não estão particularmente politizados, ou que acreditam que não estão, melhor dizendo.

Com o passar dos anos, soubemos como tudo ocorreu nos bastidores políticos e jogo de poder, mas é um tanto curioso perceber essa naturalização que você mencionou por parte da sociedade civil, e pergunto se eles estavam conscientes ou completamente conscientes de que logo viria uma ditadura? A perspectiva da sociedade comum…

Sim, as evidências da historiografia e de testemunhas mostram que a maior parte da sociedade sabia que ia vir um golpe porque houveram muitos golpes ao longo do século XX, o que talvez não se sabia era a magnitude do que ocorreria na Argentina, porque se implementaram assassinatos sistemáticos, que até então não havia ocorrido nos golpes anteriores. Por outro lado, havia precedentes de violência em todos os golpes, mas a sociedade argentina, em sua maioria, era e segue sendo reacionária, com um certo apego à repressão do protesto politico, da atividade sindical, e nessa época é importante lembrar que, principalmente, tratou-se de reprimir os avanços dos trabalhadores na distribuição da riqueza. No fundo, sempre há questões econômicas envolvidas.

Na sua opinião, você acredita que este cenário, com estas características, poderia voltar a ser reproduzido na atualidade. Sabemos que passamos pela redemocratização no Brasil, Argentina e América Latina, mas também sabemos que as violências repressivas estão aumentando, ainda que banalizadas. Você acredita que existem sinais que devemos ficar atentos?

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Uma boa pergunta, e na verdade eu acredito que o que acontece uma vez pode voltar a acontecer, sim. E existem muitas evidências a nível global de que há um retrocesso muito grande na intolerância e, nesse sentido, o Brasil é o maior exemplo, de até onde as coisas podem surpreender. É um cenário que não imaginávamos há 10 anos o que hoje está vivendo Brasil, com um grande retrocesso da qualidade democrática, da qualidade de vida da sociedade, na capacidade de expressão, ainda com casos muito concretos de violência, como Marielle Franco, uma funcionária política designada, e com total impunidade. E tantos outros casos de pessoas muito menos conhecidas, ainda no campo das disputas ambientais, sobre o que eu conheço e a informação que tenho acesso sobre o Brasil. Parte da equipe técnica do meu filme são de Recife, foi uma co-produção, então tivemos muito comunicação com os colegas brasileiros.

Então, respondendo a sua pergunta, sim, acredito que tudo pode voltar a acontecer, e por isso é importante o exercício da memória histórica, da mesma forma que da arte, da expressão, como forma de canalizar essas frustrações e tensões, emoções violentas. Acredito que há um desafio já a nível global, não só latino-americano, de como superar esta fase econômica com o retrocesso nos direitos trabalhistas e qualidade de vida, por toda uma serie de mudanças técnicas que gera uma concentração de riquezas sem precedentes, e isso pode terminar em um fascismo, a frustração é o alimento do fascismo.

 

Vermelho Sol (“Rojo”)

Data de lançamento: 8 de agosto
Duração: 1h 49min
Direção: Benjamín Naishtat
Elenco: Dario Grandinetti, Andrea Frigerio, Alfredo Castro, e mais 
Gênero: Suspense, Drama
Nacionalidade: Argentina 

 

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