A perversidade da era Bolsonaro na visão de Eliane Brum

Sob o medo e a ansiedade, nos tornamos mais vorazes e assim melhores e mais ingênuos consumidores de produtos, mas principalmente de ideologias, comenta Lúcio Vieira

Foto: Antonio Cruz/ABr
Comentário de Lúcio Vieira

Hoje debruçado no excelente texto da Eliane Brum, no El Pais (abaixo), vinha também percebendo o quanto muitos da ala de cidadãos mais sensatos estamos também um tanto perdidos no tiroteio louco e constante que parece ser a norma daqui por diante.

Esqueçamo-nos da normalidade de antes, pois estamos na era da insanidade e ansiedade, e até por este imediatismo se está entrando no mesmo jogo emocional e assim vai-se aos poucos assimilando o ódio ao oposto. O ódio como a depressão e a ansiedade, de fato, é até componente destas duas enfermidades psicológicas e se estabelece de modo paulatino e sub-reptício.

O clã Bolsonaro, os promotores e juízes treinados pelos americanos e outros mais dos “soldados” deste esquema agora mundial que buscam se apossar da narrativa e com ela, do poder de um mundo entrando em colapso, eles sabem muito bem disto. Uns mais espertamente e outros menos, mas o sistema desta guerra estabelecida e provavelmente de longa duração é o de “comer pelas beiradas”, da repetição e quando observarmos estará tudo dominado, “com STF, com tudo”.

Os ideólogos formadores destas estratégias foram percebendo conforme estudos e pesquisas de psicologia de massas, ideologização via filmes, seriados, propagandas etc. que a mente humana se torna mais facilmente “manipulável” sob o medo e o terror, dai que um dos melhores recursos é a mentira, o falsear da realidade.

Sob o medo e a ansiedade, nos tornamos mais vorazes e assim melhores e mais ingênuos consumidores de produtos, mas principalmente de ideologias. Não é sem motivo que os principais jornais das Tvs e cada vez mais com matérias que estimulem as redes neurais do medo/ansiedade, se ocupam dos horários das refeições. Não nos enganemos, o fake news veio para ficar. É a atual e melhor ferramenta para enriquecer e manter o domínio dos ricos (ou deus mercado, rentismo etc.), não vão se desfazer delas.

Está estabelecida a era da mentira e o antídoto é claro que é a verdade. A verdade tem de vir também de forma repetida, diária e ligeira, sob efeito de “memes” assim como as fake news se propagam nas redes sociais, só que estas com milícias digitais remuneradas. Os decentes não terão capital comparativo para o combate, mas a verdade é muito mais “impositiva” que a mentira. Refiro-me à verdade dos fatos e dos dados, a frieza dos números e melhor ainda de um gráfico.

Ao invés do desgaste que alimenta em si e no outro o ódio, a intransigência e a intolerância, invistamos tempo e energia em aprender ou pedir a quem sabe fazer gráficos comparando as coisas “desenhadas” e isto toca a memória racional do outro. O ódio a aspereza toca a memória emocional do outro e esta batalha é perdida pois os mídias e as mídias estão em sua maioria do lado que busca o dinheiro e o apupo imediato.

Os Bolsonaristas não demoram a cair de onde estão, pois a falsidade aliada à mediocridade não tem força para muito se sustentar, mas eles já têm o know-how, os canais, os soldados odiosos e o caráter para continuar (e vão continuar) fazendo o que bem fazem. Se quisermos fazer o contra ponto, a batalha não é mais nas ruas, é nas mentes e corações que podem ser iluminados pela razão.

O texto longo serve aqui, para os que querem dialogar, para a maioria não tem como se iludir, tem de desenhar. O portal do Nassif tem como poucos a credibilidade para algo assim e com financiamento coletivo modesto, mas regular pode manter um profissional sob a editoria do Nassif para diariamente colocar gráficos comparando períodos, ideias, governos etc. Já se sabe que a mentira se alastra muito mais rápido que a verdade, mas a verdade precisa ser colocada, ilustrada e compartilhada. Com o embate, o ódio, apenas nos fará perder as pessoas mais cedo, por desistência, impotência ou adoecimento. A mentira escraviza pelo medo, mas é a verdade ilustrada e iluminada que libertará a razão.

Cem dias sob o domínio dos perversos
Por Eliane Brum

Do El Pais

A vida no Brasil de Bolsonaro: um Governo que faz oposição a si mesmo como estratégia para se manter no poder, sequestra o debate nacional, transforma um país inteiro em refém e estimula a matança dos mais frágeis.

Os 100 dias do Governo Bolsonaro fizeram do Brasil o principal laboratório de uma experiência cujas consequências podem ser mais destruidoras do que mesmo os mais críticos previam. Não há precedentes históricos para a operação de poder de Jair Bolsonaro (PSL). Ao inventar a antipresidência, Bolsonaro forjou também um governo que simula a sua própria oposição. Ao fazer a sua própria oposição, neutraliza a oposição de fato. Ao lançar declarações polêmicas para o público, o governo também domina a pauta do debate nacional, bloqueando qualquer possibilidade de debate real. O bolsonarismo ocupa todos os papéis, inclusive o de simular oposição e crítica, destruindo a política e interditando a democracia. Ao ditar o ritmo e o conteúdo dos dias, converteu um país inteiro em refém.

A violência de agentes das forças de segurança do Estado nos primeiros 100 dias do ano, como a execução de 11 suspeitos em Guararema (SP), pela polícia militar, e os 80 tiros disparados contra o carro de uma família por militares no Rio de Janeiro, pode apontar a ampliação do que já era evidente no Brasil: a licença para matar. Mais frágeis entre os frágeis, os ataques a moradores de rua podem demonstrar uma sociedade adoecida pelo ódio: em apenas três meses e 10 dias, pelo menos oito mendigos foram queimados vivos no Brasil. Bolsonaro não puxou o gatilho nem ateou fogo, mas é legítimo afirmar que um Governo que estimula a guerra entre brasileiros, elogia policiais que matam suspeitos e promove o armamento da população tem responsabilidade sobre a violência.

Este artigo é dividido em três partes: perversão, barbárie e resistência. Continue a leitura no El Pais.

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