Desgoverno do “mercado” e o jogo do preço dos ativos, por André Araújo

Nunca no Brasil houve a entrega completa de todos os comandos econômicos do governo aos "mercados", algo impensável na Índia, China ou Rússia, um Pais que também comete suicídio

Durante a campanha eleitoral, Bolsonaro foi capa da revista The Economist como a "ameaça" à democracia no Brasil e América Latina
O preço dos ativos é o nome do jogo
Por André Motta Araújo

O interesse dos chamados “mercados”, hoje representados no governo pelo Ministro Paulo Guedes, não é investir em projetos novos de infraestrutura, que dão taxas de retorno naturalmente baixas. Os “mercados” ganham na compra barata de ativos desvalorizados pela má situação econômica do Brasil. Ativos prontos que custaram 100 para construir, e os “mercados” podem comprar por 20, na bacia das almas.

Esse é o jogo, Eletrobras, Banco do Brasil, Petrobras aos pedaços, mais uma lista de 137 estatais que devem ser vendidas, porque o Brasil está quebrado, segundo os próprios dirigentes de estatais. Apregoam em entrevistas (o que é crime), falam mal das empresas que dirigem, porque não querem fazê-las prosperar, querem é vendê-las.

Uma política monetária absurda, onde o Tesouro chega a pagar 9% ao ano, quando podia pagar zero emitindo dinheiro, há folga na base monetária para emitir R$ 2 trilhões em 4 anos. O arrocho, os cortes de orçamento, a queda do PIB, a recessão, faz baixar o preço dos ativos no Brasil e com o dólar alto tudo fica ainda melhor.

Há ideia de vender uma Eletrobras, que em capacidade geradora instalada mais linhas de transmissão custou R$ 800 bilhões para fazer, deve R$ 30 bilhões. O “mercado” diz que está quebrada e quer comprar por R$ 12 bilhões, o melhor negocio do planeta.

Todo o jogo de desgoverno, de terra arrasada faz baixar o preço dos ativos no Brasil, com a enorme vantagem de que os “mercados” estão no completo comando da economia, sem adversários, contrapontos ou fiscais, sem inimigos naturais, que seriam os sindicatos, a mídia e o Congresso.

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Nenhum país do mundo entrega sua economia aos “mercados” 

O Brasil pratica hoje um ineditismo na governança de sua economia, o total da economia. O Ministério da Economia açambarcou 4 ministérios, inclusive o do Trabalho, que em todos os grandes países é contraponto ao Ministério da Economia (seja Fazenda ou Tesouro), foi entregue aos “mercados”, mais o Banco Central, o Banco do Brasil, o BNDES, a Petrobras, todos os dirigentes são dos “mercados”, ligados a ele, com a alma nele.

Nos EUA, o Federal Reserve System é dirigido por sete economistas acadêmicos sem ligação com o mercado, os Secretários econômicos raramente são do mercado e não estão sob o mesmo guarda chuva, Tesouro e Comércio são
separados, alem disso a Casa Branca tem um Conselho de Assessores Econômicos independentes dos Ministérios, com economistas de diferentes tendências.

Também no Board do Federal Reserve, a praxe é mesclar economistas de linhas diferentes, nunca da mesma escola. O Departamento do Trabalho americano é fortíssimo, tem um orçamento de US$29 bilhões e 115.000 de funcionários, é o representante dos trabalhadores no sistema econômico, em contrapeso aos Departamentos do Tesouro e do Comércio.

Nos governos brasileiros, desde 1946 até 1994, havia a predominância de servidores públicos ou políticos no comando da economia. Foi no Governo FHC que começou o processo de entregar a economia aos “mercados”. Nos governos do PT, houve uma mescla de servidores públicos, acadêmicos e políticos com gente do “mercado”, como Henrique Meirelles, que ficou 8 anos no Banco Central no período Lula.

O problema é que os de “mercado” não tem nem interesse e nem treinamento para implantar políticas públicas, que acham um desperdício de dinheiro.

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Para que Previdência pública se podemos ter capitalização? É uma visão que leva os pobres ao genocídio econômico, eles dependem de políticas públicas, como até Milton Friedman sabia e ensinava, Friedman foi o pai intelectual do “bolsa família”. O problema é que os alunos são medíocres e aprendem só uma parte do que os mestres ensinam, a parte que agrada ao
seu egoísmo.

Por isso, é fundamental a um grande País ter no comando da economia mentes diversificadas, com diferentes visões de
mundo, de sociedade, o País é muito complexo para simplificações grosseiras. A situação do Brasil de hoje lembra o Egito do Khediva Ismail Paxá, que entre 1870 e 1877 vendeu todo o Egito, a alfândega de Alexandria, o Canal de Suez, a navegação no Nilo, trens, bondes, portos, a ilha de Gezira, até que em 1882 o Egito passou a ser de fato uma colônia britânica.

O Brasil teve desde 1946 os mais variados matizes de política
econômica, mas nunca no Brasil houve a entrega completa de todos os comandos econômicos do governo aos “mercados”, algo impensável na Índia, China ou Rússia, um Pais que também comete suicídio.

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6 comentários

  1. André, hoje li uma entrevista do SArney onde ele apregoa como grande medida do governo dele o fim da conta movimento que você defendeu por aqui. Afinal, dá para rebater?

  2. Prezado, Sarney tem pensamento de cartilha. A conta movimento SALVOU e foi importantíssima para o Brasil.

  3. O fim da CONTA MOVIMENTO foi o começo da escalada da divida publica federal, hoje em R$4 trilhões, no Governo Sarney não havia divida publica expressiva, era uma ninharia.

  4. O fim da conta movimento foi o começo da divida publica federal em titulos, hoje R$ 4 bilhões.
    O mercado agradece.

  5. André, muito bom o texto. Ainda assim, gostaria de te pedir que o revise.
    Prefiro textos que tem uma escrita mais livre e descontraída como esse que acabo de ler. Porém, mesmo sendo texto de internet, ele ainda é linguagem escrita. Períodos muito longos tendem a ficar confusos, pois se perde um pouco a referência do sujeito de cada oração e fica difícil de entender. Tive dificuldade em entender alguns pontos. No mais, vi um trecho em que falta um artigo, e outro trecho que sobra uma preposição.
    Me perdoa a sinceridade, mas um texto informativo fica mais legível quando se atém às convenções ortográficas. Nada contra a licença poética 🙂

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