Os cinco mandamentos presidenciais, por José Roberto de Toledo

Jornal GGN – Em sua coluna no Estadão, José Roberto de Toledo lista os cinco mandamentos presidenciais que servem para quem assumir o cargo e quiser terminar seu mandato,  já que “presidentes vêm e vão”, mas o sistema político brasileiro não muda, nunca. Seus mandamentos ajudam a entender as razões que levaram o país para a atual crise política

Ele diz que é preciso tomar cuidado com o vice-presidente a ser escolhido: “quem dá sinais de nunca se satisfazer com o que tem deve ser riscado da lista.” Depois, o presidente não pode se aliar a um partido maior que o seu, e que desrespeitar esse mandamento é “encomedar crise”. “Caso a tua popularidade caia, os correligionários do vice começarão a assoprar­-lhe tentações no ouvido até emprenhá­-lo de conspiração”, afirma.

Por último, Toledo faz uma ressalva: os mandamentos não valem para os peemedebistas, já que, na Presidência, eles escreveram a própria cartilha, e em latim.

Do Estadão

Mandamentos presidenciais

por José Roberto de Toledo

Presidentes vêm e vão, uns antes que outros. Só uma coisa não muda, nunca: o sistema político brasileiro. Com seus muitos vícios e poucas virtudes, não perdoa os infiéis à sua cartilha. A seguir, mandamentos para um presidente terminar o mandato. 

1. ­ Não amarás um vice com apetite

Ao examinar candidato a ser segundo, descobre o quanto ele quer ser primeiro. Quem dá sinais de nunca se satisfazer com o que tem deve ser riscado da lista de possíveis vice. Por exemplo: se o nome em prospecção se casou e descasou várias vezes, atenção. Se troca sempre o cônjuge antigo por um mais jovem, alerta. Se a última esposa do candidato é nova o suficiente para chamar os filhos dele de tio ou tia, foge. Não serve nem como decoração.

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Vasculha tu a aparência e avalia o pavoneamento do candidato a vice. Prefere os calvos, mas só quem não fez implante. Se usar topete, melhor evitar. Se pintar o bigode, esquece. Como regra, quanto mais velho, melhor. Em público, exalta-­lhe a experiência. Em privado, conta com sua falta de memória. Não exageres, porém. Tem que ser saudável. Não queres acabar com um presidente da Câmara tipo Eduardo Cunha como segundo na tua linha sucessória.

2. ­ Não te deitarás com partido maior que o teu

Na hora de fazer a aliança eleitoral, o partido de teu candidato a vice não pode ter mais deputados ou senadores do que tua própria legenda. Desrespeitar esse mandamento é encomendar crise. Caso a tua popularidade caia, os correligionários do vice começarão a assoprar­-lhe tentações no ouvido até emprenhá­-lo de conspiração. Ao menor sinal de fraqueza tua, dirão que podem obter apoio suficiente no Congresso para derrubar­-te.

Dá preferência a um partido médio, desses bem fisiológicos. Não é difícil de achar. Tem que ter mais que 30 deputados, para contar um bom tempo de propaganda na TV, mas uns 15 a menos que o teu, para não correres o risco de ele inchar e ultrapassar-­te a bancada. Não deves concentrar o fisiologismo em um aliado só. Dosa-­o. Dividir para governar, já dizia o mestre florentino.

3. ­ Não cobiçarás menos do que 172 deputados

Em troca de tua generosidade no Diário Oficial, amarra uma aliança bem amarrada na Câmara. Forma um bloco para garantir a maior bancada e eleger o presidente da Casa. Se for necessário, alia­-te a mais de um partido. Mas lembra-­te de não fazê-­lo com partidos maiores que o teu, ou te tomarão o comando do bloco. Precisas de pelo menos 172 deputados fiéis -­ por bem ou não -­ para não deixar outros 342 caírem em tentação. Livra-­te do mal.

4. ­ Honrarás teu ministro da Fazenda
 
Ministros são fusíveis. Existem para serem queimados e trocados. Podes e deves mandar neles, mas, publicamente, tens que aparentar escutá­-los e respeitá­-los. Assim, em caso de zica, podes dizer que quebraram tua confiança e nomear outro. Na Fazenda, sê esperto e põe alguém mais inteligente que tu. Essa não é a parte difícil. Duro é encontrar um mais inteligente mas menos esperto. Tu não queres ser ele, nem que ele seja tu. Todo ministro da Fazenda é um candidato potencial a tua sucessão.
 
5. ­ Não roubarás
 
Se roubar, compartilha. Se não compartilhar, esconde. Se esconder numa offshore, não uses a Mossack Fonseca. Se usar e for pego, nega. Se ninguém acreditar, grita “Pega ladrão!”. Quando, por reflexo, todos correrem, misture-­te e disfarça.
 
PS: Os mandamentos acima não se aplicam a peemedebistas na Presidência. Eles escreveram a cartilha. Em latim.

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11 comentários

  1. “Eu ja sabia!”

    Mesmo o tendo criticado nos “Panama Papers”, falei aqui que aprecio o trabalho de Jose Roberto Toledo e a sua ironia.

    Tinha lido o artigo de hoje já e a ironia está toda lá.

    Podem me dar 0 estrelinhas de novo (hoje to levando varias… rs), mas vamos deixar de ser tao dogmáticos né?

    Eu nao quero ser so um “reacinha” de sinal trocado.

     

  2. Traumas

    “Depois, o presidente não pode se aliar a um partido maior que o seu, e que desrespeitar esse mandamento é “encomedar crise”. 

    6. Não se alie a partido ideologicamente antagônico.A ruptura sempre é traumática.

    Um exemplo da história mundial todos sabem: acordo Ribbentrop e Mólotov.

  3. Agora que Inês é morta

    .. aparecem os engenheiros de obras prontas a darem conselhos (Quem os pediu?)

    Esses mandamentos são pouco práticos. Lula governou com um partido maior que o seu (PMDB) e sobreviveu. FHC governou com um partido menor (PFL), que o fez de gato e sapato.

    A consumação do atual Golpe foi fruto principalmente da traição de última hora de 3 figuras-chave do baixo clero da ex-base de apoio ao governo, 3 presidentes de partido: Giberto Kassab (PSD), Ciro Nogueira (PP) e  Alfredo Nascimento (PR). Não há “manual” que antecipe a trairagem. A propinagem e os achaques devem ter sido pesados. Até o simpático Tiririca mudou de lado, de última hora.

    Mandamentos em política valem em condições ideais de temperatura e pressão, ou seja: quando os atores são honestos e o objetivo é o bem maior da sociedade. Não foi o que aconteceu. E aí… tchau, querida democracia.

      • Pois é…

        Kassab era MINISTRO, negociou apoio com Lula e pediu demissão 3 horas antes da votação.

        Tudo bem o sujeito ser um animal político, todo cuidado é pouco, mas virar a casaca sem dar nenhuma chance ao antigo parceiro? Nem na Máfia isso acontece.

        Deve ter rolado MUITA, mas MUITA grana, ou muita CHANTAGEM, pra esses caras mudarem de lado. Do tipo: ou vc muda com toda a  bancada ou vc acabamos com vc e com sua família. Vai ver que é por isso que os corruptos falaram tanto em família.

  4. Faltou o mandamento principal

    Faltou o mandamento principal que ele, empregado do estadão, jamais citará:

    Quem manda no Brasil é a Globo e capos mafiosos da grande imprensa e eles são todos golpistas, corruptos e pertencem a elite bandida do Brasil. Além de traidores da pátria  e ratos do dinheiro público. Perante esse fato todos os mandamentos do Toledo são assessoria.

  5. De onde vem a grana para operar da oposição?

    Toda esta operação custou caro, quem está financiando o golpe com fundos inexauríveis?

    Têm gato na tuba, o exército precisa abrir os olhos, é a soberania brasileira na berlinda. Ninguém dá nada para ninguém. A conta sempre chega e esta deve já estar bem salgada pois a oposição esta devendo desde a eleição, o Aécio anda muito quietinho. Parece até que quer passar a bola para o Cunha e o PMDB.

    Os políticos como um todo estão devendo satisfação ao povo brasileiro e o Povo não é bobo.

    • Investimento

        Não foi “caro” , investimentos realizados com garantia de sucesso, pelos quais vc. receberá no futuro, nunca são caros, ainda mais quando o retorno nem precisa ser em dinheiro diretamente, mas lucros vindos através de terceiras ações não – financeiras.

  6. + comentários

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