Segunda Guerra Fria: Comercial e Tecnológica, por Fernando Nogueira da Costa

A posição de Pequim é o atual aumento das tensões ser provocado pela incapacidade de Washington de aceitar a ascensão da China. Os EUA estão viciados em hegemonia.

Segunda Guerra Fria: Comercial e Tecnológica

por Fernando Nogueira da Costa

A retórica beligerante do presidente Biden pretende unir o povo e impor pressão para obter a aprovação do Plano de Investimentos em infraestrutura e “modernização verde”. As castas militares e a indústria bélica dos Estados Unidos querem sempre luta.

É uma Nação em conflito, desde a Guerra da Independência Americana (1775-1783), passando pela nova Guerra com o Reino Unido (1812-1815),  inúmeras guerras contra tribos indígenas, para genocídio dos nativos norte-americanos, guerras  para conquistas do Texas e da Califórnia, Guerra de Secessão (1861-1865), Primeira Guerra Mundial (1917-1918), ocupações da Nicarágua, Haiti e República Dominicana, Segunda Guerra Mundial (1941-1945), Guerra da Indochina (1946-1954), Guerra da Coreia (1950-1953), Guerra Civil do Laos (1953-1975), Guerra do Vietnã (1965-1973), Invasão da Baía dos Porcos em Cuba (1961), Guerra do Camboja (1967-1975), invasão do Panamá pelos Estados Unidos em 1989, Guerra do Golfo (1990-1991). Marcou presença militar no Iraque (1991-2003), Somália (1992-1995), Bósnia (1994-1995), Kosovo (1998-1999). No século XXI, participou da Guerra do Afeganistão (2001-2014), Guerra do Iraque (2003-2011), Guerra do Paquistão (2004-…), Rebelião da Al-Qaeda no Iémen (2010-…), intervenção militar na Líbia em 2011, Guerra contra o Estado Islâmico (2014-…).

A China tem conflito histórico com Taiwan. A reunificação entre elas enfrentou a demanda de formalização da independência da ilha. Em 1949, após uma Guerra Civil, os membros do Partido Comunista chinês chegaram ao poder em Pequim. Os nacionalistas, derrotados, se refugiaram em Taiwan, onde estabeleceram um regime capitalista. Comunistas e nacionalistas definem a reunificação como um “dever do povo chinês”, mas discordam sobre os caminhos a seguir.

A ilha tinha um governo eleito, democraticamente, além de ser uma das principais forças econômicas da Ásia. Atuava como país independente, mas sofria restrições, pois a ONU reconhecia Pequim como representante do povo chinês.

O PCCh ofereceu a Taiwan a fórmula “um país, dois sistemas”, ou seja, Pequim queria Taiwan como uma Província, mas permitiria à ilha autonomia para manter um sistema democrático e capitalista. O Kuomintang (Partido Nacionalista), no poder em Taiwan, aceitava negociar uma reaproximação com a China, mas dizia “a reunificação total só será possível quando houver eleições livres na China”.

Agora, os Estados Unidos pedem uma união do Ocidente para conter as ambições militares da China. A Força Aérea chinesa realizou sua maior incursão no espaço aéreo de Taiwan. A China também impôs restrições a políticos britânicos e da UE, por eles terem se expressado sobre os direitos humanos em Xinjiang.

A posição de Pequim é o atual aumento das tensões ser provocado pela incapacidade de Washington de aceitar a ascensão da China. Os EUA estão viciados em hegemonia.

Mas, na China, houve o aumento da repressão a dissidentes políticos, assim como a Hong Kong e à minoria uigur, além da política de internação forçada em massa em Xinjiang. Isto sem falar no culto à personalidade em torno do presidente Xi Jinping e na exibição do poderio militar chinês.

Durante o governo Trump, a rivalidade emergente entre os EUA e a China carecia com frequência da dimensão ideológica da Primeira Guerra Fria. Ele se concentrou acima de tudo no déficit comercial dos EUA com a China. A “guerra” era só comercial.

A competição tecnológica voltou ao centro da rivalidade entre as superpotências. Na Primeira Guerra Fria (EUA contra URSS), foi a tecnologia nuclear e a corrida espacial. Na Segunda Guerra Fria (EUA contra China), as competições se dão nas áreas das telecomunicações 5G e da inteligência artificial.

Mas esse embate tecnológico ocorre em um contexto diferente. Quarenta anos de globalização provocaram a interdependência das cadeias produtivas das economias da China e do Ocidente. Se essa interconexão conseguirá sobreviver à intensificação da rivalidade entre as grandes potências é a questão em aberto sobre a nova Guerra Fria.

A China se defronta com o ambiente externo mais hostil com um número crescente de países se opondo à sua repressão política e à sua diplomacia coercitiva. Além disso, teme a ameaça da “armadilha da renda média”, quando se perde a vantagem competitiva na exportação de bens manufaturados por causa do aumento dos salários. Aí não consegue competir no mercado de alto valor adicionado por tecnologia e produtividade.

Como resultado, as economias recém industrializadas, como a do Brasil, não deixam, por décadas, a faixa de renda média definida pelo Banco Mundial. O PIB per capita brasileiro caiu de 15.887 dólares em PPC (Paridade do Poder de Compra) em 2013 para US$ 14.140 em 2020. O país sofre com baixo investimento e até desindustrialização.

Por seu 14º. Plano Quinquenal, a China pretende se tornar um “país socialista modernizado” – com renda per capita no nível dos países ricos da OCDE – até 2035. Ele abarca um amplo conjunto de objetivos e metas econômicas, sociais, tecnológicas e ambientais. Pretendem moldar o comportamento dos governos municipais e provinciais, empresas, instituições e cidadãos.

Para o presidente chinês, Xi Jinping, a segurança nacional necessita não apenas de Forças Armadas modernizadas, pretensão da China desenvolver nos próximos dez anos, mas também “estabilidade social” interna. Requer também medidas em áreas como alimentos e recursos naturais, comércio, cadeias de suprimentos e tecnologia.

Por isso, o novo Plano Quinquenal inclui metas vinculantes tanto de gastos militares como para a produção de grãos, o investimento em Pesquisa & Desenvolvimento e o crescimento do setor digital. Fixa objetivos ambiciosos para a liderança chinesa em setores de ponta, como inteligência artificial, computação quântica, semicondutores, neurociência, genética, exploração espacial e marítima.

Quanto ao meio ambiente, o plano inclui metas vinculantes para a redução das emissões de CO2 e da utilização de energia por unidade produzida. Não parecem ser suficientes para China cumprir sua promessa de alcançar o pico das emissões de gases-estufa até 2030 e atingir emissões líquidas zero até 2060.

A China vai se concentrar em implementar sua “estratégia de dupla circulação”, na qual reduz sua dependência da demanda externa em favor de uma maior autossuficiência. Ao mesmo tempo, continuará a enfatizar as exportações, intensificará a substituição de importações e introduzirá salvaguardas à cadeia de suprimentos, principalmente, nos setores onde empresas americanas dominam. Pretende aumentar o consumo interno dos bens lá produzidos.

O governo da China também tem planos de incentivar a revitalização rural e enfrentar a desigualdade social. Mas não assumiu compromisso com redistribuição de renda e riqueza, reforma fiscal e reformulação radical do sistema de bem-estar social. Tudo isso inibe a mobilidade social dos trabalhadores. E não propõe privatizar os serviços.

Outra área de tensão internacional diz respeito à inflação de commodities e o repasse dos maiores custos, inclusive pelos recentes gargalos das redes de abastecimento mundiais (como escassez de contêineres e elevação de fretes marítimos), para os preços dos produtos exportados pela China. Na verdade, os aumentos dos preços nas fábricas chinesas não são, por si só, suficientes para aumentar a inflação nos EUA e em outros países. Os cálculos oficiais de inflação contemplam muito mais os artigos de consumo não importados e serviços non-tradables.

Os dois países estão competindo para desenvolver as mesmas forças tecnológicas. O Plano Quinquenal lista sete áreas estratégicas: IA (Inteligência Artificial), computação quântica, circuitos integrados, genética, pesquisas biotecnológicas, neurociência, e setor aeroespacial. Vacinas, exploração em mar profundo e reconhecimento facial e de voz também estão entre as metas. A China está avançada em comércio eletrônico e adoção de moeda digital.

A disputa entre China e EUA deve levar a uma divisão das cadeias produtivas de valor no mundo, principalmente, em setores como 5G e terras raras, incorporadas em supercondutores, magnetos, catalisadores, tubo de raios catódicos, entre outros. A China responde por 60% da produção global desse insumo crítico. É a maior exportadora desses elementos.

O governo Biden pediu revisão das cadeias produtivas ligadas aos setores onde a China lidera, como na produção de terras-raras, enquanto os EUA dominam a produção de semicondutores e softwares necessários para fabricação de chips. A China estoca chips e analisa meios próprios de fabricação, enquanto busca outros fornecedores.

Fala-se em “desglobalização”, mas é impossível todas as cadeias produtivas mundiais se desligarem da China. Uma estratégia de diversificação internacional de fornecedores levaria os benefícios de a globalização serem distribuídos de uma outra forma?

Dani Rodrik, professor de Economia Política Internacional da Universidade Harvard, disse não ajudar nada ver o Plano Biden como uma maneira de restabelecer a posição competitiva da América no mundo, especialmente levando-se em consideração a China. Economia e corrida armamentista são coisas diferentes. Uma forte recuperação da economia dos EUA não deve ser uma ameaça para a China, assim como o crescimento econômico chinês não ameaça a América.

A retórica beligerante é danosa por transformar a boa economia em casa em instrumento de políticas externas agressivas – e de “soma zero”. É preciso evitar alegorias ultrapassadas de uma Guerra Fria.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Bancos e Banquetas: Evolução do Sistema Bancário com Inovações Tecnológicas e Financeiras” (2021). Baixe em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

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