80 anos de Bruce Lee: o filósofo chinês conversa com economistas, por Albertino Ribeiro

“Se quiser que a verdade lhe seja revelada, nunca seja contra ou a favor. A luta entre o contra e a favor é o pior distúrbio da mente” – Bruce Lee.

80 anos de Bruce Lee: o filósofo chinês conversa com economistas.

por Albertino Ribeiro

Sim, é verdade. Bruce Lee não era apenas um lutador e ator de cinema; ele também era filósofo, formado pela universidade de Washington. Sua maior influência na filosofia foi o indiano Jiddu Krishnamurti, mas também sofreu influências do budismo e do taoismo.

Se estivesse vivo, Bruce Lee faria amanhã (27/11/2020), 80 anos. Infelizmente, uma reação alérgica a um analgésico levou embora, aos 32 anos, a maior lenda das artes marciais e do cinema de ação. Bruce morreu em 20 de julho de 1973 em Hong Kong, mas foi sepultado em Seatlle/EUA.

Por capricho do destino, Bruce Lee, filho de chineses, nasceu nos Estados Unidos, um sino americano. Seu nascimento parece uma alegoria de sua própria filosofia baseada na conciliação dos opostos complementares do pensamento oriental (Yin e Yang).

O filósofo também era um ativista; aproveitou o alcance de seus filmes, sucesso de Bilheteria no mundo todo, para passar uma mensagem de combate ao racismo e ao colonialismo opressor. Criou o Jeet Kune do (o caminho que intercepta o punho) um sistema de luta fortemente assentado no pluralismo, onde não havia lugar para dogmatismo, autoritarismo e fórmulas rígidas.

O notável cidadão de Hong Kong, uma cidade com autonomia de um Estado soberano – veja que o mundo em volta de Bruce Lee parece que conspirava para seu pensamento plural e de fluidez -. Nessa esteira, defendia a utilização de movimentos de várias artes marciais que pudessem ser úteis, conciliando vários estilos; algo incomum na época.

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Essa visão de mundo lembra-me um outro Bruce chamado Caldwell, um americano, professor de metodologia da economia e autor do livro Beyond positivism (além do positivismo) onde defende o pluralismo crítico na ciência econômica. Para Caldwell, o caminho seria admitir o pluralismo e crer que a coexistência de teorias e métodos é benéfica para o desenvolvimento da ciência.

Antes de Caldwell, o pai de John Maynard Keynes – Neville Keynes – já defendia, no início do século XX, a conciliação entre a escola Inglesa e a escola Alemã, grandes rivais. A primeira defendia a ausência do estado na economia e a segunda, sua participação ativa.

Mas qual seria a linha de Bruce Lee no diálogo sobre a ciência econômica?

“ O meu estilo é não ter estilo” – Bruce Lee.

Ana Maria Bianchi, professora de Metodologia da USP, escreveu em 1992 um artigo intitulado “Muitos métodos é o método”. Bianchi menciona o pluralismo defendido por Bruce Caldwell na escolha dos métodos para a ciência econômica. Segundo Bianchi, a doutrina pluralista é, por sua própria natureza, avessa ao totalitarismo e ao dogmatismo dos modelos únicos, o que vai ao encontro do filósofo chinês na aplicação dentro do contexto marcial: “como alguém pode reagir à totalidade com um modelo parcial e fragmentado?

“Se quiser que a verdade lhe seja revelada, nunca seja contra ou a favor. A luta entre o contra e a favor é o pior distúrbio da mente” – Bruce Lee.

Temos aqui uma vasta possibilidade de aplicações. Vou me restringir à oposição entre o método dedutivo e indutivo que, segundo Caldwell, é um erro colocá-los em oposição como se o emprego de qualquer um deles excluísse o emprego do outro. No texto, cita-se ninguém menos que omestre da economia Adam Smith. Smith utilizara os dois métodos para publicar a Riqueza das Nações; partiu de considerações gerais a priori, mas não se descuidou dos fatos históricos.

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Muitas vezes, a predileção por um método pode levar o cientista a uma submissão religiosa, tornando-o cego mesmo quando a realidade grita, em alto em bom som, que tal base rígida não é possível.

Jonh M Keynes afirmou na teoria geral que o postulado clássico é como se fosse o axioma das paralelas euclidianas em um mundo não euclidiano. Referia-se a hipótese da igualdade entre preços da procura e da produção global e o preço da oferta que na economia real não existe. Outro postulado que vai à nocaute é a racionalidade do homo econômico, contestada pela economia comportamental; quanto ao tema, indico o livro Previsivelmente irracional – Dan Ariely.

No sistema de luta pluralista de Bruce Lee, os estilos clássicos – principalmente os orientais – são como um “desespero organizado”, pois, segundo Lee, são cheios de floreios, mas não funcionam em uma luta real.

A China

Terminando, não podemos falar de Bruce Lee sem falar da economia chinesa. Tenho certeza que o filho ilustre da terra teria orgulho de seu país se estivesse vivo. O PIB chinês, em 1973, quando Lee morreu, era de 138,5 bilhões de dólares; hoje está em 14,140 trilhões de dólares, um crescimento de 10145%. Enquanto isso, o Brasil teve um salto de 79,28 bilhões de dólares, naquele mesmo ano, para pouco mais de 2 trilhões de dólares (câmbio médio de R$3,5).

Foi a partir de 1978 que a china começou o seu projetamento de superpotência. Sob a liderança de Deng Xiaoping, a China abandona o dogmatismo ideológico e promove uma abertura econômica mais efetiva; o símbolo da abertura foi a frase: “não importa se o gato é preto ou branco, desde que cace o rato”. Destarte, era importante fazer o necessário com sem o autoritarismo dos dogmas ideológicos.

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Deng Xiaoping, a exemplo de Bruce Lee, utilizou-se de aforismas que refletiam suas ideias para a economia chinesa: “é preciso atravessar o rio tateando as pedras”. A ordem é experimentar, caminhar com cuidado; as mudanças não acontecem de forma linear; elas passam por ciclos parecidos com os ciclos da natureza.

Hoje, a China caminha para ser a maior economia do mundo porque não se prendeu a teorias importadas, mas fez adaptações utilizando o que realmente viria a funcionar para a sua realidade e respeitando sua cultura milenar.

Nesse sentido, os dois Bruces (Lee e Caldwell), acreditam que o mais importante é treinar lutadores ou economistas para conviver proveitosamente com estilos e opiniões divergentes. O importante seria estimulá-los a enxergar a controvérsia como inerente à ciência, fator de seu progresso.

“Seja amorfo; seja como a água, pois ela assume qualquer forma” – Bruce Lee.

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