A chave do tamanho, por Walnice Nogueira Galvão

CCBB acaba de colocar online a exposição egípcia, cancelada pela pandemia.  As peças vêm do Museu Egípcio de Turim, na Itália, segundo maior do mundo.

A chave do tamanho

por Walnice Nogueira Galvão

Em gesto solidário, o CCBB acaba de colocar online a exposição egípcia, cancelada pela pandemia.  As peças vêm do Museu Egípcio de Turim, na Itália, segundo maior do mundo. A primazia cabe ao Museu do Cairo, que abriga entre seus tesouros os conteúdos da tumba de Tutancâmon, até hoje a única encontrada intacta e não vandalizada.

Os outros maiores acervos ficam no Louvre – de onde veio nossa última mostra, na Faap, em 2001-, no British, em Berlim e no Metropolitan de Nova York.

Mas nesta do CCBB é de lamentar o insanável: a perda da chave do tamanho (com vênia de Monteiro Lobato). Ou, por outras palavras, a perda da escala monumental e colossal que preside à arte egípcia.  Típica da Antiguidade, é emanação do absolutismo do poder teocrático em vigor. Astecas, maias, incas, Egito, Pérsia, Assíria, Babilônia, Índia, China com os 6 mil soldados de terracota de Xian: por toda parte, a arte como estratégia destinada a esmagar de insignificância quem a contemplasse.

A invenção da democracia na Grécia reverteu a tendência. Inaugurou-se então uma arte em escala humana, as figuras não mais se submetendo ao inflacionamento de suas proporções e visando a intimidação dos cidadãos. Cava-se aí um fosso que separa, aliás em definitivo, a arte da Antiguidade da arte da modernidade.

Sai-se dessa mostra convicto de que tudo é pequeno na arte egípcia, a qual, além das múmias que sempre atraem multidões, seria marcada pelo minimalismo: figurinhas, amuletos e talismãs, colares, aneis, miniaturas, fragmentos… Só uma peça escapa: a enorme estátua da deusa Sekhmet, a-da-Cabeça-de-Leoa.

Compreende-se: é reduzido e seccionado o  espaço no CCBB, distribuindo-se por quatro andares.  Um vídeo procura sanar o problema, mostrando paisagens onde uma arte de porte descomunal busca o ar livre. O que há em museus ainda é pouco ante o que o próprio Egito oferece in loco, ao longo do curso do Nilo.

Uma vez nesse país, como pontos altos temos, é claro, as pirâmides e a esfinge, nos arredores da capital. Cerca de 600 km a montante do rio, acha-se a profusão de edificações e esculturas ciclópicas na antiga capital Tebas, hoje Luxor, onde ficam os templos de Karnak, formando o maior parque arqueológico do Egito. E ali mesmo, do outro lado do rio, na necrópole do Vale dos Reis, as belíssimas tumbas subterrâneas, ricamente ornadas com ouro e pinturas em cores vivas, dos faraós e de suas mulheres. No CCBB há uma amostra  da tumba de Nefertari, esposa principal de Ramsés II, com suas paredes decoradas.

O templo de Abu Simbel, no extremo sul, é obrigatório. Escavado na rocha, quatro colossos guardam sua entrada como sentinelas imemoriais, do lado de fora. São eles Ramsés II – o maior dos faraós -, a esposa e dois deuses seus duplos. Para impedir que o templo submergisse quando da inundação da represa de Assuã, a Unesco liderou uma campanha pelo salvamento, comovendo o mundo inteiro, que acorreu com verbas e know-how. Em incrível missão, o templo com tudo o que continha foi transferido para um local mais alto, e assim salvo das águas, graças à tecnologia avançada dos italianos. Um ponto para a humanidade. Mais conhecido é o gracioso Templo de Dendur, que foi escolhido por Jacqueline Kennedy como galardão do Egito aos americanos pela ajuda, atualmente no Metropolitan de Nova York.

No CCBB, entre outros recursos para engajar o público, erigiu-se no vão livre central a réplica de uma pirâmide miniaturizada, o visitante podendo penetrá-la por túneis. No subsolo penduram-se nas paredes as páginas de Description de l´Egypte, o enorme livro-inventário fruto da expedição de Napoleão Bonaparte, que não devia estar incluído, pois nem foi feito pelos italianos nem resultou dos esforços do Museu de Turim. Pode-se adquiri-lo em tamanho pequeno na Amazon ou fazer download.

Não temos acervo egípcio em nosso país. Esta exposição, apesar dos  senões, sempre permite o  contato com uma arte inconfundível e de um refinamento único: hierática, altamente estilizada,  elegante e bela, fiel a si mesma através dos séculos e até dos milênios. Está online: aproveite o confinamento para assistir.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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