A Crise e o Indivíduo, por Gabriel Queiroz Imhoff

Estaria Estia então nos oferecendo uma oportunidade de renovação? Afinal, como Machado de Assis notou: tudo se regenera, tudo toma uma nova face.

A Crise e o Indivíduo

por Gabriel Queiroz Imhoff

A maioria de nós nunca vivemos um conflito civil, um golpe militar, nem um toque de recolher. Mas agora, em plena economia de guerra contra um inimigo invisível, um mal-estar deste gênero domina nossa relação com o mundo. Eventos que basculham nossas vidas e que nos convidam a reflexão são numerosos.

O crash da bolsa em 1987 e a corrida das privatizações; A crise financeira de 1997 e 2008 que fariam frear a globalização; O atentado de 2001 que suscitaria uma tomada de consciência. Agora, um inimigo invisível abre a porta para mais uma oportunidade de buscarmos a razão mas toda crise revela algo: talvez o fato de que somos todos doentes sem sintomas…

No paganismo Greco-Romano – que tinha um objetivo mais cultural do que estritamente religioso – fenômenos naturais e externos passavam por um processo de antropomorfismo, como por exemplo: personificar Dionísio, como o Deus da fertilidade, e Tânaro, como o Deus da morte. Mas vale ressaltar aqui, a Deusa Estia. Ela representava a família, a fogueira, a lareira doméstica, centro de todo seio familiar – a lareira era presente em todas as casas da Grécia Antiga que tinham um formato circular. A etimologia de lareira é foco, e por sua vez, a etimologia de foco é dentro. Logo, Estia é uma deusa que nos convida, metaforicamente, a manter o fogo da nossa lareira familiar focado e brando. Fogo esse que, se controlado, nos aquece, nos acolhe e mais importante, nos convida olhar para dentro.

Estaria Estia então nos oferecendo uma oportunidade de renovação? Afinal, como Machado de Assis notou: tudo se regenera, tudo toma uma nova face. E muitas vezes, nossas mãos têm que se sujar para interromper uma perenidade boçal. Assim, o que era banal, passou a ter caras extraordinárias. Visitar um amigo, pegar um ônibus cheio e ir à praia passaram se tornar exceções e talvez até… utopias? Tais momentos passaram a ser tão impensáveis como achar um acerto, um sinal de lucidez no atual governo.

Como processo histórico, creio a emancipação do indivíduo – que foi gradual e que se manifestou em todas as áreas da nossa sociedade (política, literatura, arquitetura, artes visuais, etc.) – ter sido o fenômeno no qual o Ocidente mais acertou. O nascimento desse indivíduo moderno, em que ineditamente passou a tomar forma no final da Idade Média, revolucionou nossa relação com a sociedade. Em contra partida, nasceu a ideia absurda de que somos todos autossuficientes e donos dos nossos destinos. O fenômeno do Covid-19, me obriga a salientar: não, não somos.

Crises, de qualquer natureza e em qualquer momento histórico, emergem interpretações diferentes. Na minha visão, são momentos em que a natureza humana revela sua complexidade, suas contradições e seus extremos. É quando ela pode se revelar extremamente narcísica ou solidária. É quando chefes de estados escolhem ser um Péricles ou um Cleon da vida – governantes que protagonizaram, de formas distintas, o processo da queda de Atenas em 429BC; O primeiro, tendo como objetivo de salvar o bem comum e o segundo movido por interesses pessoais.

Foi preciso uma crise sanitária de uma escala absurda para refletirmos sobre a insuficiência da natureza humana, o quanto a gente depende do trabalho invisível de muitos e o quão oco e frenético é o nosso sistema. E o confinamento em massa? Esse se revelará como um desafio no qual, não tenho dúvida, muitas estruturas familiares vão ser repensadas, questionadas e mudadas.

Espero que a angústia e a ansiedade – doenças do século – deem lugar ao pensar, à criatividade e à uma eventual mudança pragmática positiva. Em tempos difíceis, bem-afortunados são aqueles que, de alguma maneira, buscam levar felicidade, leveza e quietude aos seus próximos fazendo assim as pazes com a Deusa Estia.

Gabriel Queiroz Imhoff – Cursa o ultimo ano de graduação de relações internacionais pela University of British Columbia (Vancouver, CA)

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome