A política morreu, viva a política, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Dois exércitos em guerra compartilham a mesma lógica até que um deles seja totalmente destroçado.

A política morreu, viva a política, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Antes de entrar no assunto farei um longo desvio histórico que considero indispensável.

Dario (550 aC – 486 aC) derrotou e conquistou quase todos os povos que decidiu enfrentar. Mas quando resolveu invadir a Cítia o rei dos reis teve uma surpresa. Os citas simplesmente se recusaram a dar combate às tropas persas. Após consultar seus aliados em potencial, os inimigos de Dario concluíram que:

“… de ningún modo convenía entrar en batalla a cara descubierta y de poder a poder, sino que se debiá ir cediendo poco a poco, y al tiempo mismo de la retirada cegar los pozos y las fuentes por dondequiera que pasasen, sin dejar en todo país forraje que no quedase gastado y perdido.” (Los Nueve Libros de La Historia, Heródoto de Alicarnaso, Obras Maestras, Tomo I, Editorial Iberia, Barcelona, 1955, p. 401)

O resultado foi uma guerra em estado de suspensão permanente. Dario perambulou inutilmente pela Cítia perseguindo seus inimigos. Como conheciam seu país melhor do que os persas, os citas estavam em condições de negar aos persas a batalha decisiva que eles desejavam. De quando em vez, a cavalaria cita se mostrava aos persas. Todavia, o objetivo dela não era combater o inimigo e sim obrigar o rei dos reis a continuar uma perseguição inútil.

Irritado Dario enviou um embaixador ao rei dos citas com a seguinte mensagem:

“Para qué huir y siempre huir, hombre villano? No tienes en tu mano escoger una de dos cosas que voy indicarte? Si te crees tan poderoso que seas capaz de hacerme frente, aquí estoy, deténte un poco, déjate de tantas vueltas y revueltas, y frente a frente midamos las fuerzas en campo de batalla. Pero si te tienes por inferior a Darío, cesa también por lo mismo de correr, préstame juramento de fidelidad, como a tu soberano, ofreciendo a mi discreción haciendas y personas, con la única fórmula de que me dais la tierra y el agua y ven luego a recibir mis ordenes.” (Los Nueve Libros de La Historia, Heródoto de Alicarnaso, Obras Maestras, Tomo I, Editorial Iberia, Barcelona, 1955, p. 404)

A resposta de Idantirso foi exemplar. Ele não reconheceu a soberania de Dario e, se recusando a fazer oferendas de terra e de água, explicou porque não daria combate aos persas:

“Sábete, persa, que no es la que piensas mi conducta. Jamás huí de hombre nacido porque le temiese, hi ahora huyo de ti, hi hago cosa nueva que no acostumbre a hacerla del mismo modo en tiempo de paz. Quiero decirte por qué sobre la marcha no te presento la batalla: porque no tenemos ciudades fundadas, ni campos plantados, cuya defensa nos obligue a venir luego a las manos con sólo el recelo de que nos la toméis o nos los taléis. Sabes cómo nos viéramos luego obligados del todo a una acción? Nosotros tenemos los sepulcros de nuestros padres: allí, oh, persa, si tienes ánimo de descubrirlos y osadía de violarlos, conocerás por experiência si tenemos o no valor de volver por ellor cuerpo a cuerpo contra todos vosotros. Pero antes de recibir esta injuria, si no nos conviene, no entraremos contigo en combate.” (Los Nueve Libros de La Historia, Heródoto de Alicarnaso, Obras Maestras, Tomo I, Editorial Iberia, Barcelona, 1955, p. 404)

Dario desafia os citas e presume que o rei dos citas só pode fazer duas coisas: combater ou se submeter. Mas Idantirso se coloca fora dos limites impostos pelos persas. Ele diz que faz o que está acostumado a fazer e que não precisa defender algo que não teme perder. O rei da Cítia termina sua mensagem com uma ironia refinada.

Idantirso diz que continuará em movimento até que Dario pare de perambular e comece a cavar as sepulturas dos reis cítas. Ambos sabiam muito bem que naquele país não existiam nem cidades construídas nem cemitérios consagrados em locais conhecidos.

Nem submissão voluntária, nem batalha decisiva, nem sujeição forçada em virtude da derrota, nem compartilhamento dos mesmos referenciais discursivos. A estrateǵia dos citas seria utilizada de maneira brilhante por Mikhail Kutuzov quando a França invadiu a Rússia. Mesmos sendo sedentários, os russos optaram temporariamente pelo nomadismo. O povo russo fez algo que Napoleão considerava impensável: impediu o exército francês de obter uma vitória decisiva e de se manter num país devastado pelo seu próprio exército em retirada.

Von Clausewitz, oficial do exército napoleônico, disse que a guerra é a continuação da política por outros meios. Se retirarmos a violência da equação e levarmos em conta a lição dada por Idantirso a Dario e por Kutuzov a Napoleão, é possível fazer uma engenharia reversa da tese de Clausewitz: a política é um conflito em estado de suspensão permanente sem batalha decisiva, sem sujeição forçada imposta pela derrota e sem submissão voluntária ao inimigo.

Dois exércitos em guerra compartilham a mesma lógica até que um deles seja totalmente destroçado. Dois adversários permanentes não compartilham nem mesmo os referenciais discursivos. Quando um quer algo o outro deve apenas afirmar que deseja algo diferente. Para manter o terreno em que se disputa o poder é preciso paradoxalmente aderir a um nomadismo discursivo.

Nesse sentido, é um erro dizer que a política está morta no Brasil. Muito embora ela tenha se tornado mais esquisita, os dois campos que se declaram inimigos não estão em condições (ou simplesmente não querem) o derramamento de sangue numa batalha decisiva.

Bolsonaro é chamado de ditador e de fato deseja impor uma ditadura, mas ele não está em condições de fazer o que deseja. A oposição gostaria de derrubar Bolsonaro, mas parece ter se convencido de que é melhor desidratá-lo dentro e fora do país com ajuda da imprensa.

A pandemia, um obstáculo sanitário à realização de mobilizações de rua, impõe uma trégua forçada por tempo indeterminado. Como o Impeachment não pode ser impulsionado por demonstrações evidentes de superioridade nas ruas, o conflito entre o governo e a oposição se deslocou do espaço geográfico para o virtual.

Na internet a vantagem da oposição foi garantida pela destruição do gabinete do ódio comandado pelos Bolsonaro. Como não pode mais espalhar Fake News no Twitter, no Facebook e no WhatsApp, o presidente desidratado faz o que pode. E de fato ele não pode fazer nada mais do que ser bicado ao alimentar as emas e ganhar alguns aplausos ao oferecer cloroquina à turba de seguidores fanáticos.

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