A Saída Temporária e a Prisão Perpétua, por Samuel Lourenço Filho

Saída temporária, mobiliza muito mais os raivosos que pouco sabem sobre ela, do que propriamente os presos e seus respectivos familiares. Sem comoção, romance ou drama.

A Saída Temporária e a Prisão Perpétua

por Samuel Lourenço Filho

Apesar da empolgação, devido à liberação para saída temporária, às vezes o preso sofre, angustiado, sem saber ao certo como vai ser sua soltura e seu contato com vizinhos ou pessoas próximas. É tudo muito confuso.

Ele passa a pensar nos gastos da família com sua soltura. Por outro lado, passa a temer uma eventual execução por qualquer motivo, relacionado à sua prisão ou não. É medo. Medo do vizinho, do miliciano, dos bandidos da facção rival, que se instalou no bairro. Medo. Medo e desconfiança.

Apesar da empolgação, se angustia pelos companheiros que ficaram. Por aqueles que estão muito mais tempo no regime, mas não obteve, da justiça, a autorização para sair. Aí ele sofre. Pode parecer estranho, mas sofre por empatia. Isso mesmo: preso tem empatia.

Se angustia, pois sabe que vai voltar. Encarar a cadeia, depois de alguns dias de liberdade, é irracional. Pergunte ao passarinho depois de solto, se ele deseja voltar pra gaiola. A conta não fecha. Voltar é um exercício de muita resiliência. Pensando num futuro livre, o cara volta pra cadeia, como se a prisão fosse a semente da liberdade. Isso é completamente louco, paradoxal e humanamente reflexivo.

Saída temporária, mobiliza muito mais os raivosos que pouco sabem sobre ela, do que propriamente os presos e seus respectivos familiares. Sem comoção, romance ou drama. Sai gente pra fazer merda? Sai. Mas tem gente que nunca foi presa e que também faz merda. Logo, estar na prisão ou não, não é precedente para crime.

Tem gente que sai e não pode voltar pra mesma cadeia, tem que pular da facção, expor a família que mora numa área dominada por tráfico. Tem gente que sai da cadeia, mas chega atrasado, e sabe que dificilmente vai sair outra vez. Geralmente, quem faz isso acontecer, não é só o atraso dele. É o servidor que não bate ponto, mas cobra pontualidade. É o juiz que se atrasa na audiência por conta do trânsito, mas vê como mentalidade voltada para delinquência aquele que se atrasou por 10 ou 20 minutos no horário de adentrar – novamente- na prisão

Os pontuais da ocasião, cobram uma disciplina e rigor com horário, sem mesmo obedecerem o ponteiro, em seus respectivos trabalhos. Horror. E sabendo que atraso as vezes, vai trancá-lo por mais tempo, o sujeito preso, evade. É o suspiro de liberdade, é a expiação do medo pela clamdestinidade do viver foragido. No fim, é uma prisão.

Saída temporária, acalenta o amor do condenado por seus familiares, enquanto o ódio de muitas pessoas na cidade e nos campos, só aumenta. Isso não é precaução ou segurança. É ódio mesmo, pois, após o crime cometido, as pessoas se acham no direito de determinar que o preso não pode mais sorrir, abraçar e ser abraçado… Não é anulação de direito apenas. Trata-se de desprovimento de afeto, esse povo não ama o próximo, nem os seus.

Em meio às frustações pessoais, os tais encontram um “bom” motivo pra odiar… A saída temporária, ainda que temporária seja, gera um ódio eterno em alguns. Nesse contexto, a única prisão perpétua, é a do ressentimento, e nela estão presas muitas pessoas que sequer cumpriram pena, elas odeiam bandidos soltos, enquanto escolhem ficar presas no ódio, alegando serem vítimas da insegurança…

 

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