A tragédia do Brasil em 2020 e a atualidade de Antígona, por Ana Laura Prates

Os tiranos, desde Creonte, bem como os regimes totalitários que sustentam conhecem bem esse fato: é preciso apagar o nome, transformar mortos em desaparecidos.

A tragédia do Brasil em 2020 e a atualidade de Antígona

por Ana Laura Prates

“Uma pessoa só morre quando morre a testemunha” (João Bosco, a respeito da morte de Aldir Blanc)

Ainda que a atual secretária da cultura do Brasil Regina Duarte não saiba ou não queria saber, a arte – em suas mais variadas expressões –, além das particularidades de uma determinada época, transmite e trata de conflitos, dores e dilemas que se repetem ao longo da história da humanidade, e diante dos quais cada um de nós será responsabilizado, mais cedo ou mais tarde, por sua posição. Daí a função da arte ao mesmo tempo estética, catártica e educativa. Daí também sua relevância ética, e porque não dizer, política.
O caso mais notável é o das tragédias gregas escritas por Sófocles, no século V a.c. conhecidas como Trilogia Tebana: Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona. Talvez a mais conhecida delas no mundo ocidental contemporâneo seja a primeira, pelo fato de Freud ter batizado com o nome de “Complexo de Édipo” um conjunto de conflitos psíquicos inconscientes, envolvendo identificações, desejos e rivalidades contraditórios e inconciliáveis que se manifestam desde a infância. Antígona, entretanto, embora na cronologia da saga dos Labdácidas seja a última, foi a primeira a ser escrita por Sófocles e é, certamente, a mais comentada por inúmeros autores, filósofos e escritores ao longo dos séculos.

A atualidade de Antígona, na situação que estamos vivendo nessa Tebas contemporânea chamada Brasil é notável. Conto um pequeno resumo da peça, para quem nunca leu ou assistiu a uma encenação, mas alertando que nada substitui o texto poético com sua multiplicidade sonora e semântica e, muito menos, as várias interpretações dos diversos diretores e atores que a puseram em cena. Em português recomendo, particularmente, a versão bilíngue de Trajano Vieria publicada pela Perspectiva. Pois bem, nossa heroína, Antígona, é ninguém menos do que uma das filhas do casamento incestuoso de Édipo e sua mãe Jocasta. Seus dois irmãos, Etéocles e Polinices haviam protagonizado uma luta fratricida pelo trono de Tebas. Ambos mortos, Creonte, irmão de Jocasta, assume o trono e decreta que o corpo de Etéocles seria sepultado com todas as honras e rituais, enquanto o de Polinices seria deixado para ser devorado por aves e cães, já que ele havia se insurgido contra o trono do irmão. Antígona não aceita essa situação, desobedece às ordens de Creonte e realiza um ritual fúnebre com o corpo de Polinices. Esse ato, para o qual convoca inicialmente a irmã Ismênia que, entretanto, não a acompanha, faz com que seja condenada a ser emparedada numa rocha, com pouca comida para que tenha uma morte lenta. É importante ressaltar que Antígona era sobrinha de Creonte e noiva de seu filho Hêmon, portanto, herdeira do trono de Tebas e possivelmente futura rainha. Sinto pelo spoiler, mas antes do arrependimento do tirano, nossa princesa se suicida.

As leituras mais tradicionais dessa tragédia dizem que ela encena um conflito entre duas leis: Antígona falaria em nome da lei dos deuses que clamam pelo sepultamento legítimo do irmão, independente do que ele tenha feito, e Creonte em nome da Pólis (a cidade) encarnando, entretanto, um tirano que se confunde com ela. Creonte age como se ele mesmo fosse Tebas. Não é de hoje que tiranos como Jair Bolsonaro bradam aos quatro cantos: “a Constituição sou eu”. Há outra passagem muito comentada, em que Creonte diz que um inimigo não vira amigo depois de morto, para justificar a proibição de enterrar Polinices. Também não é de hoje que tiranos gritam que não são coveiros.

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Mas há uma perspectiva distinta e muito importante trazida pela psicanálise a partir de Lacan, e que nos ajuda a interpretar as cenas trágicas que estamos assistindo no Brasil em 2020: trata-se de abordar a peça a partir de um ponto de vista ético, cujo problema central é a deshumanização. Essa perspectiva desloca o conflito entre duas leis, para um conflito entre duas mortes: a morte do corpo vivo e a morte do corpo simbólico. Essa perspectiva aparece na peça em um diálogo entre Creonte e o adivinho Tirésias. Ao tentar convencer Creonte de seu erro, Tirésias argumenta que ele está condenando Polinices a uma segunda morte quando impede seu sepultamento. Isso significa que, enquanto o corpo de Etéocles é tratado como um cadáver, ou seja, um corpo humano morto com nome e história, o corpo de Polinices está condenado a virar carniça, sem nome, inscrição na lápide e lamentos: eis a desumanização. Vemos, portanto, aonde se localiza a intransigência de Antígona, que não aceita negociar com Creonte. Ela abre mão de sua posição social e de poder em nome daquilo que não se pode aceitar. Tudo, mas isso não: A desumanização de um homem é um crime contra a humanidade, e isso é inegociável. Antígona não é dada a grandes acordos nacionais, e não cede!

A resposta de Antígona ao tirano é um dos versos mais comentados da peça: “sou movida pelo amor, e não pelo ódio”. Se Antígona é movida pelo amor, é preciso, no entanto, estar advertidos de que não se trata do amor cristão convertido em caridade. Se ela não se move pelo ódio, o que ela verdadeiramente combate é outra paixão: a ignorância – em nosso caso, revestida pelo esquecimento. É contra o apagamento do nome e da memória que ela se insurge. Apagamento, no caso do Brasil, proposto por Creonte encarnado em Regina Duarte em sua atuação cínica durante a entrevista à CNN no dia 07/05/2020, na qual declarou, em tom banal: “Sempre houve tortura. Stalin, Hitler, quantas mortes… não quero arrastar um cemitério de mortes nas minhas costas”. A verdade que a traiu nessa declaração foi a série na qual colocou o governo ao qual serve. Seria o caso de lembrar as palavras de outro poeta, Bertold Brecht, em seu tristíssimo poema Apague Pegadas: “Cuide quando pensar em morrer. Para que não haja sepultura revelando onde jaz. Como uma clara inscrição a denunciá-lo. E o ano de sua morte a entrega-lo. Mais uma vez: Apague as pegadas!” Nesse poema, Brecht revela pelo avesso que para haver um verdadeiro apagamento, há que se apagar a sepultura, já que a lápide é a testemunha de que ali houve uma vida, com nome e história.

Os tiranos, desde Creonte, bem como os regimes totalitários que sustentam conhecem bem esse fato: é preciso apagar o nome, transformar mortos em desaparecidos. Assim fizeram as ditaduras e os grupos de extermínio, e agora corremos o risco de termos as valas comuns e os anônimos da COVID 19, sem direito ao menos “à parte que te cabe nesse latifúndio” – nas palavras de João Cabral de Melo Neto. “Sem lamento, sem tumba, sem lágrimas” – como diz Antígona.

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Fiz questão de nomear Jair Bolsonaro e Regina Duarte como responsáveis por sua tirania obscena e abjeta. É urgente também, mais do que nunca, nomear nossas Antígonas. O Memorial Inumeráveis (https://inumeraveis.com.br/) é obra do artista Edson Pavoni, com vários colaboradores, e procura dar nome às vítimas do coronavírus no Brasil, para que não se reduzam apenas a números anônimos. O projeto Relicários de Debora Diniz (https://www.instagram.com/reliquia.rum/) se propõe a recolher os restos da epidemia no Brasil, especialmente das mulheres, contando suas histórias através de obituários. Quanto a Jair e Regina, esses não querem carregar mortos nas costas, mas certamente vão arrastar correntes ao longo da vida. Recomendo a ambos que leiam Antígona até o fim!

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