A velhice, segundo Cícero, por Romulo Moreira

Diz o filósofo que não é à velhice que devemos culpar, mas a nós mesmos, especialmente quando a lamentamos

Por Romulo Moreira

Marco Túlio Cícero escreveu, em 44 a.C., a obra “Catão, o velho, ou diálogo sobre a velhice”, onde faz uma reflexão extraordinária sobre a velhice. Ao contrário do que se esperaria de um velho, Cícero exalta aquilo que é próprio da natureza humana, pois “pretender resistir à natureza não teria mais sentido do que querer – como os gigantes – guerrear contra os deuses.”

Para Cícero, “todos os homens desejam alcançá-la, mas, ao ficarem velhos, lamentam-se. Eis aí a inconsequência da estupidez!” Ora, sendo algo da natureza humana o findar, tanto quanto o nascer, devemos, como um sábio, “consentir pacificamente” com o fim, pois a vida, “espontaneamente, tal como as bagas e os frutos, chegada sua hora, murcham e caem por terra.

Diz o filósofo que não é à velhice que devemos culpar, mas a nós mesmos, especialmente quando a lamentamos, já que “os velhos inteligentes, agradáveis e divertidos suportam facilmente a velhice, ao passo que a acrimônia, o temperamento triste e a rabugice são deploráveis em qualquer idade.” Portanto, “são suas próprias faltas, suas insuficiências, que os imbecis imputam à velhice.

Respondendo a Lélio – um de seus interlocutores –, quando lhe disse que o seu poder, a sua riqueza e o seu prestígio – Cícero também era senador – tornavam a sua velhice mais suportável, Cícero respondeu que “quanto ao imbecil, julgará a velhice pesada mesmo na riqueza”, pois “as melhores armas para a velhice são o conhecimento e a prática das virtudes. Cultivados em qualquer idade, eles dão frutos soberbos no término de uma existência bem vivida.”

E, lembrando Platão, que morrera aos oitenta anos, “em pleno trabalho da escrita”, afirmou o filósofo romano que “uma vida tranquila, honorável e distinta pode do mesmo modo levar a uma velhice pacífica e suave.” Mesmo alguns defeitos geralmente apontados nos velhos – o mal humor, a rabugice, a avareza (defeito este que Cícero não o admitia, achando-o insensato), a irritabilidade fácil, a aflição, são, na verdade, “inerentes a cada indivíduo, não à velhice”, pois “assim como o vinho, o caráter não azeda necessariamente com a idade.

Então, Cícero aponta quatro razões possíveis para detestarmos a velhice, a saber:

  1. a) O afastamento da vida ativa;
  2. b) O enfraquecimento do corpo;
  3. c) A privação dos melhores prazeres; e
  4. d) A aproximação da morte.

Vejamos, então, como o filósofo enfrenta cada uma delas.

A primeira, ele contesta perguntando de quais assuntos públicos a velhice afastaria o homem ou a mulher, e responde: “não há assuntos públicos que, mesmo sem força física, os velhos não possam perfeitamente conduzir graças à sua inteligência”, pois “não são nem a força, nem a agilidade física, nem a rapidez que autorizam as grandes façanhas”, mas sim “a sabedoria, a clarividência, o discernimento”, qualidades próprias da velhice, segundo Cícero, para quem, outrossim, “a irreflexão é própria da idade em flor, e a sabedoria, da maturidade.”

A propósito, Arendt designava como vita activatrês atividades humanas fundamentais: labor, trabalho e ação, pois cada uma delas corresponde uma das condições básicas mediante as quais a vida foi dada ao homem na Terra.” Então, ela explicava que “o labor é a atividade que corresponde ao processo biológico do corpo humano, cujos crescimento espontâneo, metabolismo e eventual declínio têm a ver com as necessidades vitais produzidas e introduzidas pelo labor no processo da vida.” Assim, “a condição humana do labor é a própria vida.

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Já o trabalho, para ela, “é a atividade correspondente ao artificialismo da existência humana, existência esta não necessariamente contida no eterno ciclo vital da espécie, e cuja mortalidade não é compensada por este último. Assim, “a condição humana do trabalho é a mundanidade.”

Por fim, “a ação, única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação das coisas ou da matéria, corresponde à condição humana da pluralidade, ao fato de que os homens, e não o Homem, vivem na Terra e habitam o mundo.”[1]

Em relação ao segundo inconveniente, a falta de vigor, pergunta Cícero se não haveria mais bela tarefa do que, “com suficiente vigor” – não necessariamente o físico – “instruir os adolescentes, para formá-los e prepará-los aos deveres de seu futuro encargo.

Segundo o filósofo, valeria mais o vigor intelectual da velhice do que o vigor físico dos jovens. Logo, deve-se usar esta segunda vantagem quando se a tem, “e não a lamentemos quando ela desapareceu”, pois a “vida segue um curso muito preciso e a natureza dota cada idade de qualidades próprias. Por isso a fraqueza das crianças, o ímpeto dos jovens, a seriedade dos adultos, a maturidade da velhice são coisas naturais que devemos apreciar cada uma em seu tempo.”

Afirma também que os cuidados com o corpo são necessários “para recompor as forças, sem arruiná-las.” Mas, também é preciso, além do corpo, “ocupar-se do espírito e da alma.” A velhice não deve ser “preguiçosa, indolente e embotada” e somente será “honrada na medida em que resiste, afirma seu direito, não deixa ninguém roubar-lhe seu poder.” Cícero dizia gostar “de descobrir o verdor num velho”, jamais envelhecido “em seu espírito.”

A sua memória era cuidada com zelo. Para isso, estudava “assiduamente a literatura grega” e, para exercitá-la, procurava lembrar-se, toda noite, de tudo o que havia feito, dito e ouvido durante o dia, tal como faziam os pitagóricos. Era a sua ginástica para exercitar o espírito e a inteligência: “suando e me esfalfando dessa maneira, não me ocorreria pensar em me lamentar sobre o declínio de minhas forças físicas. Meus amigos podem sempre contar comigo.” O estudo e o trabalho, portanto, evitavam “a aproximação sub-reptícia da velhice” e, “em vez de sermos brutalmente atacados pela idade, é aos poucos que nos extinguimos.

E quanto ao terceiro agravo (ou inconveniente) da velhice, a privação dos prazeres próprios da juventude? Desde logo, advertia Cícero que “a busca desenfreada da volúpia é uma paixão possessiva, sem controle”, corrompendo, segundo ele, “o julgamento, perturbando a razão, turvando os olhos do espírito.”

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Na velhice, “ao renunciarmos aos banquetes, às mesas que desabam sob os pratos e as taças inumeráveis, renunciamos ao mesmo tempo à embriaguez, à indigestão e à insônia”, podendo-se “muito bem desfrutar o prazer das refeições equilibradas.

Evidentemente, Cícero não se colocava “como adversário encarniçado do prazer, muito natural dentro de certos limites”, não devendo ser a velhice indiferente ao prazer, apesar dos velhos não mais sentirem “tão intensamente aquela espécie de cócegas que o prazer proporciona. É verdade, mas eles tampouco sentem falta disso.

Então, ele faz uma comparação com o que ocorre na comédia, onde o artista “diverte sobretudo os espectadores da primeira fila, mas os do fundo aproveitam igualmente seu espetáculo.” Tal se dá com a juventude, “que vê os prazeres de perto e os usufrui intensamente, mas a velhice, que os considera de mais longe, tira deles um proveito suficiente.”

Assim, livre “das obrigações da volúpia, da ambição, das rivalidades e das paixões de toda espécie”, permite a velhice que as pessoas possam viver, “como se diz, consigo mesmas”, alimentando-se “de estudos e conhecimento”, garantindo-se uma “velhice tranquila”, pois “o saber se vale das competências acumuladas e se enriquece à medida que envelhecemos.” Portanto, “nenhum prazer é superior ao do espírito”!

Referir-se-ia também o filósofo a uma vantagem da velhice: a aquisição de uma “autoridade natural, o verdadeiro coroamento da velhice!”, pois “o prestígio dos velhos, sobretudo quando exerceram cargos públicos, compensa largamente todos os prazeres da juventude.” Nada obstante – e isso, a meu ver, é uma observação muitíssimo pertinente! -, “os cabelos brancos e as rugas não conferem, por si sós, uma súbita respeitabilidade. Esta é sempre a recompensa de um passado exemplar.

Por fim, a quarta razão de temer a velhice: a morte! Dizia ele: “como é lastimável o velho que, após ter vivido tanto tempo, não aprendeu a olhar a morte de cima!” Então, das duas uma: se não acreditamos na imortalidade da alma, devemos desprezar a morte; ao contrário, se crentes somos, devemos aceitá-la e mesmo desejá-la. “Não há outra alternativa.”

Ademais, lembrava Cícero: “quem pode estar seguro, mesmo jovem, de estar vivo até o anoitecer?” Logo, “por que fazer disso motivo de queixa à velhice, se é um risco que a juventude compartilha?” Ele próprio, aliás, perdera precocemente um seu “excelente filho”, Catão, “o melhor de todos, o filho mais amável e o mais respeitoso.

Neste sentido, a posição do velho “é melhor que a do adolescente. Aquilo com que este sonha, ele já o obteve. O adolescente quer viver muito tempo, o velho já viveu muito tempo!” Dizia Cícero que não aceitaria – acaso um deus assim o permitisse – “voltar a ser um bebê dando vagidos em seu berço.” Ele “recusaria ser levado de volta ao ponto de partida após ter percorrido, por assim dizer, toda a arena.

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Para um velho, nada mais natural deveria ser “a perspectiva de morrer.” A morte de um jovem comparava-se a uma “chama viva apagada sob um jato d´água”, enquanto a de um velho assemelhava-se “a um fogo que suavemente se extingue.” Tal como se dá na natureza mesma, “os frutos verdes devem ser arrancados à força da árvore que os carrega; quando estão maduros, ao contrário, eles caem naturalmente.” Por isso, a aproximação da morte dava-se como a chegada “ao porto, após uma longa travessia.”

Lembrei-me de Freud: “a morte é o desfecho necessário de toda vida, que cada um de nós deve à natureza uma morte e tem de estar preparado para saldar a dívida, em suma, que a morte é natural, incontestável e inevitável.”[2]

E de Tolstói também: “existe, em  minha vida, algum sentido que não seria aniquilado pela morte que me aguarda de modo inevitável?[3]

Esse desprezo pela morte, inclusive, torna os velhos “mais corajosos e mais enérgicos.” Refere-se Cícero, então, a Sólon quando, ao ser perguntado pelo tirano Pisístrato o que lhe “dava a força para resistir tão valentemente”, respondeu-lhe: “A velhice![4]

O velho não se deve apegar-se “desesperadamente” à vida, tampouco “renunciar sem razão ao pouco de vida que lhes resta.” Por óbvio, é natural sentir “uma certa apreensão no momento de morrer, mas isso dura pouco”, e deve ser “desde a adolescência que convém se preparar para o desprezo da morte. Sem essa preparação, nenhuma serenidade é possível.”

De toda maneira, isso não significa tratar o inevitável como uma obsessão, sob pena de não se “conservar o espírito calmo”, afinal, a velhice “é a cena final dessa peça que constitui a existência.” Portanto, “contentemo-nos com o tempo que nos é dado a viver, seja qual for!

 

 

 

 

 

 

 

[1] ARENDT, Hanna, A Condição Humana, Rio de Janeiro: Forense Universitária, 10ª. edição, 2008, p. 15.

[2] FREUD, Sigmund, Introdução ao Narcisismo, Ensaios de Metapsicologia e Outros Textos – 1914 – 1916, São Paulo: Companhia das Letras, 1ª. edição, 3ª. reimpressão, 2010, página 230.

[3] TOLSTÓI, Liev, Uma Confissão, São Paulo: Mundo Cristão, 2017, p. 45.

[4] Sólon foi um legislador e poeta, considerado um dos pais da democracia ateniense (640 – 558 a.C.).

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