Aplicativo e-título: a quem interessa elevar a abstenção do voto?, por Álvaro Nascimento

Alguém tem dúvida de que a enorme abstenção nas eleições de 2018 facilitou a tragédia que estamos vivendo?

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Aplicativo e-título: a quem interessa elevar a abstenção do voto?

por Álvaro Nascimento

“Que continuemos a nos omitir da política é tudo o que os malfeitores da vida pública querem” (Bertold Brecht)

Anos atrás ouvia uma palestra do filósofo, professor de sociologia e cientista político Emir Sader quando lá pelas tantas ele provocou a plateia com um questionamento: todo avanço tecnológico deve ser encarado como algo bom? Ele citou como exemplo a inserção da robótica na indústria automobilística, que levou a que os automóveis passassem a ser fabricados em maior quantidade e menor tempo, aumentando em muito a lucratividade das empresas.

Entretanto, devido à inexistência de pactuação entre capital e trabalho (poderia ter sido acordado a diminuição das horas trabalhadas sem desemprego, por exemplo) acabou pondo no olho da rua centenas de milhares de trabalhadores no Brasil e alguns milhões no mundo. Para Sader, absorção tecnológica que trouxesse aumento do desemprego e por consequência da crise social, deveria ser mais bem avaliada, nunca devendo ser uma decisão exclusiva do ente que dela se beneficiaria.

O equilibrado argumento do professor me veio à mente diante da recente disponibilização do aplicativo e-titulo pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Agora, os eleitores brasileiros passam a ter a facilidade de justificar sua ausência nas eleições e assim se abster de votar.

Pensando no argumento de Sader, pergunto: alguém tem dúvida de que a enorme abstenção nas eleições de 2018 facilitou a tragédia que estamos vivendo? Vamos aos números. No segundo turno de 2018 (Bolsonaro x Haddad) os votos em branco somaram quase 2,5 milhões (2,14% dos votos totais). A cifra foi 50% superior ao 1,7% do segundo turno da eleição de 2014.

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Os votos nulos chegaram a 8,6 milhões (7,43% dos votos totais), o maior percentual desde 1989. Um aumento de 60% frente a 2014, quando 4,6% dos votos foram anulados.

Já os que simplesmente não compareceram às urnas somaram 31,4 milhões no segundo turno de 2018 (21,3% do total do eleitorado), mesmo índice do segundo turno de 2014.

Se somamos os votos nulos, brancos e as abstenções chegamos a 42,4 milhões de eleitores que não se decidiram entre um  economista, filósofo, advogado e professor (cursos e docência na USP), ex-Ministro da Educação, ex-Assessor Especial do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão e ex-Prefeito de São Paulo, de um lado, e um capitão expulso do Exército de outro, que em 27 anos de seguidos mandatos federais teve dois projetos aprovados (um isentando de IPI setores industriais e outro liberando a venda da tanto polêmica quanto cientificamente questionável “pílula do câncer”).

Enquanto 42,4 milhões preferiram não escolher nenhum dos dois, Bolsonaro teve 57,7 milhões de votos e Haddad 47 milhões. Não há como não concluir que, ao se eximirem, estes 42,4 milhões contribuíram de forma decisiva para tudo que colhemos nestes dois anos e, tudo indica, seguiremos colhendo por pelo menos mais dois.

Voltando ao tema inicial, o exemplo de 2018 demonstra que aumentar a facilidade de praticar a abstenção do voto só serve ao conservadorismo e à antipolítica, adiantando muito pouco dizer, depois, que “somos 70%” os que não votaram em Bolsonaro. O tsunami já estará em nosso quintal.

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A pergunta é: a quem interessa criar aplicativos eletrônicos (a serem periodicamente atualizados), investir pesado em supercomputadores (a serem também permanentemente mantidos e atualizados), com o objetivo de “facilitar” o não voto?

Álvaro Nascimento é jornalista.

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3 comentários

  1. Doutrinação do Voto Obrigatório em Elites Parasitarias do Estado Ditatorial Caudilhista Absolutista Assassino Esquerdopata Fascista. Onde vocês enxergaram Democracia nestes 90 anos? Pobre país rico….

  2. É só baixar uma portaria determinando que a justificativa ou qualquer outro procedimento que o não voto, só é válido quando feito presencialmente e num prazo exíguo.
    Tudo tem saída, se houver vontade política, sem desprezo pela tecnologia.

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