Apólogo, por Wilson Ramos Filho (Xixo)

Mito, mito, mito, repetem seus acólitos brandindo símbolos configuradores de uma nova civilização, inventando inimigos inexistentes. A verdade passa a ser acima de tudo uma construção social coerente à sua gramática peculiar.

Apólogo

por Wilson Ramos Filho (Xixo)

Muitas vezes me reconheço como o professor de melancolia do conto de Machado de Assis. Nele, em uma prosopopeia, a linha e a agulha se encrencam. Debatem qual delas é a mais importante. Se a linha que estrutura o vestido, se a agulha que, perfurando sedas, conduz a linha dando forma aos panos. O desfecho é desconcertante.

No ensino médio fizeram-me saber, sem muito êxito, as diferenças entre as diversas figuras de linguagem. Não sei se já mencionei, mas estudei letras por dois anos, junto com direito. Queria entender as diferenças entre alegoria, fábula, prosopopeia e apólogo. Bem que tentei. Chegou uma hora que desisti, não sei diferenciar bem uma das outras. Uso-as como o carteiro usava as poesias do Neruda no filme de 1994 (de Michael Radford). As poesias e as figuras de linguagem pertencem a quem delas necessita.

Vejo o bolsonarismo como uma alegoria, mais que mero campo semântico. Analisados cada um dos abjetos elementos que o compõem, causa estupefação constatar o primarismo de seus fundamentos. Mas, em conjunto, e essa é a “cuestão”, os diversos componentes se apresentam como doutrina, como uma maneira de existir em sociedade onde a ignorância, a grosseria, a insensibilidade, o individualismo, a violência, entre outros atributos, são positivamente valorados e celebrados. Há uma unidade semântica no discurso do bolsonarismo que produz uma virtualização dos significados, para além da literalidade do que enuncia, de modo parcelar, em cada situação. Nele cada manifestação doutrinária se transmuta para configurar sentidos complementares, referenciais e metafóricos ao mesmo tempo.

O que tem aparência de demência individual, em seu conjunto, compõe um sentido geral, alegórico e normativo. A goiabeira da Damares, os insultos de Weintraub à ciência e ao saber, as postagens enigmáticas do zeros à esquerda, o chilique da Regina Duarte (leve, vaporosa como um pum de palhaço, sem carregar um cemitério nas costas), a continência às bandeiras de Israel e dos EUA como evidências de amor pelo Brasil e de patriotismo, a hostilidade em relação à China – único fabricante de respiradores artificiais -, a adesão à filosofia do astrólogo, o terraplanismo dos ministros, a repetição de slogans franquistas, a humilhação diária aos jornalistas, o desdém diante do caos planejado no sistema de saúde, a genuflexão imposta aos trabalhadores e às suas entidades representativas, a reiteração do ideário neoliberal na desejada reabertura dos negócios enquanto morrem mil pessoas por dia. Cada um desses elementos, por si, individualmente considerados, possui sentidos imediatos e outros metafóricos, mas compõem um conjunto alegórico. Sua força como doutrina decorre exatamente da confluência de todos os elementos na conformação de uma maneira de existir em sociedade.

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Como alegoria, o bolsonarismo se apresenta como proposta de modo de vida, normativa, com a força de uma pretendida superioridade moral, explicitando a relação entre o sentido literal (função denotativa) e o sentido figurado (função conotativa), causando orgulho aos seus seguidores. Um ou outro, eventualmente, pode até discordar de um ou mais de um aspecto de sua doutrina, mas em seu conjunto, a aceita como maneira de existir. Há um sentido global, figurado, que só é percebido se não nos ativermos a cada uma de suas partes. Pensemos em uma escola de samba evoluindo, cada ala traz seus símbolos compreendidos isoladamente, de modo imediato. Cada ala ou carro alegórico apresenta ao público uma parte de um enredo que, todavia, só fará sentido no contexto interpretativo do conjunto alegórico, da história contada naquele contexto. O sentido figurado, característica essencial da alegoria como figura de linguagem, é construído ao longo do desfile, pela interação entre o que é apresentado pelos milhares de passistas e figurantes, cada um na sua ala, e a interpretação que cada um dos espectadores (presenciais ou virtuais, mas espectadores) extrair daquele conjunto de elementos simbólicos em que se vê, digamos, enredado.

A interpretação global da alegoria bolsonarista, identificado seu sentido figurado, é construída no decorrer da sequência aparentemente inesgotável de bizarrices como conjunto simbólico criado para transmitir um segundo sentido além do sentido literal das palavras enunciadas, como linguagem simbólica, conotativa, figurativa, como proposta de uma maneira de existir em sociedade.

Mito, mito, mito, repetem seus acólitos brandindo símbolos configuradores de uma nova civilização, inventando inimigos inexistentes. A verdade passa a ser acima de tudo uma construção social coerente à sua gramática peculiar.

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Retornando ao diálogo entre a linha e a agulha, pode-se dizer que, além de alegórico, o bolsonarismo é ele mesmo um apólogo, figura de linguagem utilizada na literatura que tem por objetivo modificar condutas e conceitos humanos com o objetivo de conduzir as pessoas a mudarem seus comportamentos sociais, pela atribuição de sentimentos humanos a seres destituídos de humanidade. A agulha e a linha não são humanas, mas atuam como se fossem, em prosopopeia, como os bolsonaristas. O alfinete tem cabeça e prefere ficar lá no seu canto, na caixa de costura. Eu, como não tenho cabeça, sinto-me com aquele professor de melancolia em O Apólogo machadiano, inconformado com o enredo daquela formação discursiva e desejando desfechos desconcertantes. Sou esquisito.

Wilson Ramos Filho (Xixo), doutor em direito, professor na UFPR, integra o Instituto Defesa da Classe Trabalhadora.

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