Catch up tecnológico e a superação da renda média: o papel do CEITEC no Brasil, por Uallace Moreira

A essencialidade e o papel chave que os semicondutores têm na economia mundial ganha mais evidência com a “Guerra Fria” entre EUA e China.

Indústria de semicondutores CEITEC.

de A Revolução Industrial Brasileira

Catch up tecnológico e a superação da renda média: o papel do CEITEC no Brasil

por Uallace Moreira

No período recente, o debate em torno das trajetórias diferenciadas de desenvolvimento entre América Latina e o Leste Asiático passou a ser direcionado pelo conceito de Middle-Income Trap (MIT) – armadilha da renda média. Basicamente, de acordo com Gill Krahas (2007), esse conceito expressa uma situação de países em fase de estagnação ou baixo crescimento econômico, que já completaram um estágio de crescimento, superando as armadilhas da pobreza e a malthusiana.

Do ponto de vista da corrente de pensamento neo-schumpeteriana, uma das principais estratégias para o desenvolvimento das nações e a superação da armadilha da renda média é a inovação tecnológica. Nelson (2006) afirma que o avanço tecnológico constitui simultaneamente a principal força motora e o catalisador da geração e do apoio aos investimentos no novo capital físico e humano, dimensões essenciais para uma trajetória de crescimento sustentável, associada a profundas transformações estruturais de um país.

Nessa mesma linha de raciocínio, Lee e Kim (2009) afirmam que a inovação tecnológica e novos paradigmas tecnológicos são fundamentais para o catch up tecnológico, principalmente considerando países de industrialização tardia. Os autores mostram que a construção da curva de aprendizagem, criando capacidade de absorção de conhecimento, investindo no desenvolvimento tecnológico e no ensino superior, são mais eficazes na geração de crescimento para os países de renda média alta e alta.

Para Keun Lee (2013), o termo central sobre upgrading tecnológico e aprendizado nos países de catching up é a capacidade de absorção, ou seja, a capacidade de uma empresa de identificar, absorver e entender o conhecimento técnico que permite a introdução de produtos e processos novos para a empresa, criando assim as condições para a apropriabilidade do conhecimento. A capacidade dos países retardatários em criar estoque local de conhecimento, ou seja, o grau de difusão de conhecimento intranacional e intrafirma, é proporcional ao nível de capacidade tecnológica do país, embora também seja afetada pelas diferenças organizacionais entre as empresas.

A capacidade de absorção é ela própria determinada por muitos fatores, alguns internos à empresa (atividades internas de P&D, qualificação e experiência da gerência e força de trabalho, tamanho da empresa, idade da empresa), outros externos (ambiente de mercado, acesso ao capital, infraestrutura pública de P&D, apoio governamental).

Em seus estudos, Lee (2013) mostra que os principais países avançados são especializados em setores com tempos de ciclo relativamente mais longos da tecnologia, enquanto países de industrialização tardia, como a Coreia do Sul e Taiwan, mostraram uma tendência de se concentrarem em setores/produtos tecnológicos de ciclos relativamente mais curtos desde meados da década de 1980 para lograr o catch up tecnológico e superar a armadilha da renda média. O autor parte da ideia de que esses setores, ao gerarem um processo constante de inovações, têm menores barreiras à entrada, abrindo janelas de oportunidades para que países retardatários inovem e alcancem o catch up. Um dos principais setores/produtos apresentados por Lee (2013) que fazem parte do ciclo tecnológico curto é o de semicondutores e chips.

A Coreia do Sul tem como principal representante desse setor sua empresa nacional Samsung. Recentemente, a Samsung anunciou planos de investir 133 trilhões de wones (US$ 121 bilhões) em direção à sua meta de se tornar a líder mundial em semicondutores de memória e chips até 2030.

Taiwan tem como um dos principais exemplos do sucesso a TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Co.). A TSMC ocupa a terceira posição na receita global de semicondutores e lidera o setor com uma participação de mercado de mais de 50%. De acordo com uma pesquisa de mercado de TrendForce, espera-se que a participação de mercado da TSMC seja de 53,9% este ano, enquanto a Samsung terá 17,4%[1].

A essencialidade e o papel chave que os semicondutores têm na economia mundial ganha mais evidência com a “Guerra Fria” entre EUA e China. Nesse novo conflito geopolítico e produtivo entre EUA e China, que envolve o domínio tecnológico, Taiwan com a TSMC, e a Coreia com a Samsung, ganharam protagonismo nessa disputa, deixando nítido que os países que estão na fronteira tecnológica mundial são justamente aqueles que têm como prioridade o desenvolvimento de suas empresas nacionais que operam em setores mais intensivos em tecnologia e inovação.

Outro exemplo de país que busca se inserir nessa dinâmica internacional é a Índia. Acredita-se que a Índia está se aliando aos EUA e ao Japão para projetar e construir redes 5G sem o envolvimento da China. Perder o vasto potencial de mercado da Índia seria um grande golpe para a Huawei e a ZTE, grandes empresas nacionais chinesas. Obter espectro é fundamental para todos os três principais provedores de telecomunicações da Índia – Reliance JioInfocomm, Bharti Airtel e Vodafone-Idea – já que as compras anteriores precisam ser renovadas, ou se alguma empresa pretender fazer um upgrade para 5G. O presidente da Reliance Jio, Mukesh Ambani, disse que sua empresa planeja lançar o 5G no segundo semestre de 2021, enquanto o presidente da Bharti Airtel, SunilMittal, espera lançar em dois ou três anos[2].

A China, diante das sanções impostas pelos EUA ao acesso do país a semicondutores, vem anunciando constantemente ampliação do investimento em inovação, principalmente buscando superar as sanções dos EUA internalizando sua produção local de chips, fortalecendo suas empresas nacionais como Huawei, Semiconductor Manufacturing International Corporation (SMIC), e a Zhong Xing Telecommunication Equipment Company Limited (ZTE). Com o “China Standards 2035”, complemento do plano de modernização industrial “Made in China 2025”, a China caminha para ser um dos maiores players tecnológicos mundiais. A China tornou-se um participante central na elaboração de regras internacionais para tecnologias emergentes, particularmente as redes sem fio de quinta geração (5G) como parte de um esforço nacional para moldar o campo a seu favor. A China anunciou também um plano de US$ 1,4 trilhão para tentar dominar a indústria mundial de semicondutores, que tem como um dos elementos a contratação de milhares de engenheiros de fabricação de chips de Taiwan e Coreia do Sul, assim como a formação de parceria de pesquisa com a Rússia, uma potência científica que forma mais engenheiros a cada ano do que os Estados Unidos [3].

O Brasil também pode seguir o mesmo caminho, com o fortalecimento do Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (CEITEC). Um dos principais argumentos do governo para fechar a empresa é de que ela causa prejuízo e é insustentável. Entretanto, é importante lembrar que qualquer país que adota uma estratégia de catch up e upgrading em suas estruturas produtivas, no curto prazo, é absolutamente normal uma empresa não apresentar lucros, dado que é uma empresa nascente.

Entretanto, no longo prazo, com mais investimento em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e em infraestrutura, a CEITEC tende a ganhar escala e escopo, tornando-se uma empresa competitiva e lucrativa. Na verdade, já em 2020, a empresa fechou o ano com recorde de vendas, superando o planejado em 15%, com vendas de R$ 15,4 milhões e a diversificação de segmentos, com as primeiras vendas na área de Saúde e Logística 4.0.

Para Julio Leão, especialista em computação e porta-voz da Associação dos Colaboradores do Ceitec, o prejuízo alegado pelo governo como motivo para fechar a empresa, seria revertido em pouco tempo. “O amadurecimento de uma empresa de semicondutores é curva longa, na casa dos 20 anos. Saímos de R$ 9 milhões de faturamento para R$ 13 milhões em 2020. A previsão estimada para 2021 era de R$ 20 milhões. Até 2024 poderíamos empatar o quanto a gente custa e consegue faturar[4]”.

Além do mais, a CEITEC tem projetos com reconhecimento internacional, de acordo com Júlio Leão: “Um projeto recente do Ceitec foi bastante elogiado pela comunidade internacional de tecnologia. A estatal conseguiu desenvolver um chip logístico que possui um quarto da área do chip original —que hoje são utilizados nos cartuchos das impressoras HP. Uma lâmina de silício possibilita a fabricação de 40 mil chips em uma lâmina de 8 polegadas. Com a evolução desenvolvida pelo Ceitec, será possível produzir 120 mil chips em uma lâmina.”

“Um dos projetos mais promissores do Ceitec diz respeito à segurança nacional: o chip para passaporte, composto por um microprocessador, que grava as informações do viajante, e um software embarcado, que provê as funcionalidades do e-passaporte. O produto, chamado CTC21001, já recebeu a certificação internacional de segurança Common Criteria, essencial para a produção e comercialização do produto.[5]

A experiência internacional, considerando os casos da Coreia do Sul, Taiwan, Índia e China, mostram o grave erro em fechar uma empresa como a CEITEC, a qual está inserida em um setor da atividade produtiva que possibilita ao país adentrar setores que agregam mais valor e corroboram para que mantenha um ritmo de crescimento mais elevado e contínuo, criando sua trajetória para a superação da armadilha da renda média. Fechar uma empresa como a CEITEC é uma decisão deliberada de um país sem projeto de nação, de ameaça à soberania nacional, principalmente considerando um cenário internacional que deixa em evidência que países terem suas empresas nacionais intensivas em tecnologia é um mecanismo estratégico de ter uma estrutural industrial mais próxima da fronteira tecnológica mundial, assim como evitar que sejamos uma nação condenada à condição de periferia, subordinada e dependente, produtora e exportadora predominantemente de comodities.

Fontes:

KHARAS, Gill, I. & H. Kharas. An East Asian Renaissance, Banco Mundial. 2007.

LEE, Keun. Schumpeterian Analysis of Economic Catch-up: Knowledge, Path-creation and Middle-Income Trap. Cambridge University Press, 2013.

LEE, K.; KIM, B.-Y. Kim. Both Institutions and Policies Matter but Differently at Different Income Groups of Countries: Determinants of Long Run Economic Growth Revisited. World Development 37(3): 533–49, 2009.

NELSON, Richard. As Fontes do Crescimento Econômico. Editora da Unicamp; 1ª edição, 2006.


[1] Ver https://portaldisparada.com.br/economia-e-subdesenvolvimento/guerra-tecnologica-samsung-tsmc/

[2] Ver: https://www.paulogala.com.br/guerra-tecnologica-entre-china-e-india-sobre-5g-licoes-para-a-ceitec-no-brasil/

[3] Ver: https://www.paulogala.com.br/china-no-caminho-para-o-dominio-tecnologico-mundial/ ; https://www.paulogala.com.br/o-plano-da-china-de-us-14-trilhao-para-dominar-a-industria-mundial-de-semicondutores-ate-2025/

[4] Ver: https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2020/12/24/alvo-do-governo-estatal-e-unica-na-america-latina-a-fazer-chips-no-silicio.htm

[5] https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2020/12/24/alvo-do-governo-estatal-e-unica-na-america-latina-a-fazer-chips-no-silicio.htm

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