“Cher Lula”: quando os brasileiros escrevem para o ex-presidente na prisão, por Catherine Gouëset

Matéria da revista francesa L’Express sobre a leitura de cartas a Lula no Teatro Montfort em Paris

Foto Ricardo Stuckert

“Cher Lula”: quando os brasileiros escrevem para o ex-presidente na prisão

 por Catherine Gouëset

Tradução de César Locatelli

Encarcerado, o ex-presidente do Brasil recebeu milhares de cartas. Cerca de quarenta artistas franco-brasileiros leram algumas em um teatro parisiense.

“Acho que comecei a entender o mundo, aos 9 anos, quando tinha que trabalhar, como empregada doméstica”, escreve Adriana. Na casa do meu chefe, a geladeira estava sempre cheia; na minha casa, nós, muitas vezes, íamos para a cama com a barriga vazia. Você me deu de volta a minha dignidade, se hoje eu sou enfermeira, se tenho uma casa, duas crianças na universidade pública e outra na escola, é porque minha vida melhorou muito, obrigado”…

Como ela, existem milhares que escreveram a Lula, o ex-presidente do Brasil acusado de corrupção e preso desde 7 de abril de 2018. No Teatro Montfort, na terça-feira à noite (25), quarenta artistas brasileiros e franceses, incluindo o cantor Chico Buarque, o coreógrafo Calixto Neto, a atriz Camila Pitanga, e ainda os diretores de teatro Stanislas Nordey e Ariane Mnouchkine leram algumas dessas cartas na frente de um público fascinada.

As primeiras cartas foram enviadas para a prisão ou para a sede do Partido dos Trabalhadores, o partido de Lula, no dia seguinte à sua prisão. Naquela época, seus defensores já sentiam que o procedimento judicial acelerado ao qual ele estava sendo submetido pretendia impedi-lo de concorrer à eleição presidencial no outono de 2018: o ex-sindicalista estava muito à frente, nas pesquisas, de todos os outros candidatos na corrida.

Hoje, nove meses após a vitória eleitoral do candidato de extrema-direita, Jair Bolsonaro, e a nomeação de Sérgio Moro como o ministro da Justiça, as recentes revelações de conluio entre o juiz Moro e os promotores responsáveis pela investigação aumentam a dúvida sobre este procedimento.

“Eu me lembro que, quando minha mãe começou a receber o Bolsa Família [um subsídio que permitia que as famílias saíssem da pobreza e mandassem seus filhos para a escola], meu irmão parou de coletar lixo reciclável.”, diz Jorge, agora professor. “Graças a você e ao programa de igualdade de oportunidades, pude me beneficiar de um curso de apoio”, agradece outro admirador.

As cartas vêm, em sua maioria, de brasileiros cujas vidas foram transformadas pelos programas sociais postos em prática durante os dois mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva, que foi presidente entre 2003 e 2010.

“Eu tenho 70 anos e nunca fui à escola porque eu trabalhava no campo, eu tenho uma neta que estuda na Universidade Federal de Curitiba”, escreveu um avô,“estou muito orgulhoso disso.”

A criação de novas universidades, bolsas de estudo e uma política de cotas de fato abriram as portas da Universidade para milhares de jovens de origens modestas, que antes eram excluídos.

“Como você, eu sou nordestino” [originário da região pobre do Nordeste], começa um texto lido por Chico Buarque. “Eu tinha 18 irmãos e irmãs. Apenas sete sobreviveram. A maioria dos outros estão mortos por falta de cuidados ou por causa da desnutrição, esta desnutrição que mais tarde a ONU declarou erradicada durante o seu mandato”. Lucas, o autor desta carta conta como, já na universidade, “a partir do dia 20 de cada mês, o café da manhã, dois pães e um ovo cozido”, era sua única refeição.

“Resista, não ceda!”

Das mais de 22.000 mensagens endereçadas a Lula, algumas são de várias páginas; outros, algumas linhas. “Eu ditei esta carta”, disse um, “porque não sei escrever”. Um envia um poema de Fernando Pessoa, o outro uma citação de Gilles Deleuze. Muitos escrevem em memória de seus parentes: “Eu vivi para ver um trabalhador se tornar presidente, disse meu pai no dia seguinte à sua eleição. Ele morreu duas semanas depois”, diz outro.

Alguns são atenciosos: “Tome cuidado, Sr. Presidente, não fique doente”. “Eu te peço, resista, não ceda”, incentiva uma união de Palmópolis (Minas Gerais). Ou reconfortantes, “Eu te envio um edredom e um par de meias vermelhas, para as noites frias de Curitiba”, esta cidade no sul do Brasil onde o presidente está detido, com um clima muito mais frio que seu Pernambuco natal.

Um residente da capital econômica escreveu seu número de telefone: “Quando você vier a São Paulo, entre em contato comigo, podemos tomar uma cerveja.” As cartas retrocedem aos destaques do Brasil desde a prisão do ex-chefe de Estado: a decisão do Supremo Tribunal Federal de impedi-lo de concorrer às eleições presidenciais em 1º de setembro de 2018, o incêncio do teatro nacional, dois dias depois, a campanha eleitoral e suas “fake news”, o desastre mineiro de Brumadinho, em janeiro de 2019 …

Na origem deste show, um site criado por historiadores. “Em julho passado, fiquei sabendo que o Instituto Lula, localizado em um bairro popular de São Paulo, mantinha essa vasta correspondência”, explica Maud Chirio, professora da Universidade de Paris-Est-Marne-la-Vallée.

“Com vários colegas brasileiros, franceses e argentinos, oferecemos ajuda para separá-las e digitalizá-las.” Eles carregam a voz de pessoas que não estão acostumadas a falar, diz ela. É um material precioso para os historiadores. Em um segundo passo, traduzimos uma parte que colocamos online, no site Linhas de Luta. A ideia de fazer um show veio do diretor Thomas Quillardet. A apresentação de terça-feira foi única, mas outras trupes expressaram sua intenção de se inspirar nela, e um documentário deve emergir dessas leituras”.

Projetado como um ato militante em apoio ao ex-líder do Partido dos Trabalhadores (PT), os críticos são raros. “Seu governo cedeu demais e se deixou levar por essa sereia nacional, a corrupção”, disse uma dessas mensagens. “O Partido dos Trabalhadores cometeu erros. Isso de fazer de você um mártir. Você tem sido um grande estadista, mas não conseguiu criar uma continuidade, inventar a esquerda depois de você. Precisamos desconstruir a ideia de que você é o único líder da esquerda brasileira”.

“Onde estávamos errados?”

Alguns descrevem sua depressão e sua “ressaca”, no dia seguinte à eleição [de Bolsonaro]. Outros questionam Lula: “Como você entende a vitória de Bolsonaro, como deixamos a direita odiosa se tornar tão forte que ganhou o voto popular …  Onde nos enganamos? ”

Poucas horas antes do espetáculo do Teatro Montfort, do outro lado do Atlântico, Lula sofreu outro revés. Solicitados a decidir sobre a imparcialidade do ex-magistrado Sergio Moro, os juízes do Supremo Tribunal Federal rejeitaram um pedido de libertação do ex-presidente. Com um resultado de 3 votos contra 2, eles adiaram, para a segunda metade do ano, o exame da conduta do antigo magistrado anticorrupção e privaram o líder histórico da esquerda brasileira de uma liberdade provisória até então. Em Curitiba, ele ainda precisará do incentivo de seus admiradores.

* Essa matéria da revista L’Express foi feita por Catherine Gouëset, publicada em 26/06/2019, em:

https://www.lexpress.fr/actualite/monde/amerique-sud/cher-lula-quand-les-bresiliens-ecrivent-a-l-ancien-president-en-prison_2086343.html

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora