Como a falta de notícias locais prejudicou o combate à Covid-19

O fortalecimento do jornalismo local em todo o planeta permitiria detectar qualquer novo surto epidêmico com uma antecedência muito maior do que a registrada no caso do novo Coronavírus

(Foto: Brian McGowan/Unsplash)

do Observatório da Imprensa 

por Carlos Castilho

O combate à pandemia da Covid-19 poderia ser mais rápido e eficaz se as autoridades médicas nacionais e internacionais tivessem contado com o apoio de uma rede mundial de jornalismo local e hiperlocal. Esta é a conclusão de dois textos publicados na segunda semana de outubro por duas influentes publicações acadêmicas norte-americanas, a newsletter The Journalism Crisis Project, da Universidade de Columbia, e o blog da Brookings Institution, de Washington.

Ambos artigos afirmam que o fortalecimento do jornalismo local em todo o planeta permitiria detectar qualquer novo surto epidêmico com uma antecedência muito maior do que a registrada no caso do novo Coronavírus. Este prognóstico já havia sido feito em 2011 por um grupo de médicos do Hospital Infantil de Boston, também nos Estados Unidos, num estudo em que apontam a necessidade de uma vigilância informal através do noticiário local como forma de antecipar a identificação de novos surtos epidêmicos.

O posicionamento dos especialistas reforça a tese de que, na era digital, os fluxos de informação nascem na base social e chegam aos tomadores de decisões por meio de dados, fatos e eventos noticiados por jornalistas locais. Curiosamente, esta constatação parece ter sido percebida primeiro pelos pesquisadores e médicos, enquanto os profissionais da notícia tardam em reconhecer as profundas mudanças em curso no âmbito da informação.

O jornalismo local está em contato direto com a realidade das pequenas cidades, dos bairros de cidades média e grandes, bem como com grupos étnicos, culturais e sindicais, tendo condições de detectar primeiro o surgimento de fatos novos como epidemias, mudanças ambientais, consequências de desastres, novos comportamentos sociais e tendências políticas inéditas. Estes dados, fatos e eventos são essenciais para que os tomadores de decisões, no âmbito nacional e regional, possam agir a tempo e com eficiência.

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Mas a crise na imprensa local bloqueia este processo causando consideráveis prejuízos tanto à população de pequenos aglomerados urbanos, como das megalópoles. A recessão econômica gerada pela pandemia já causou o desemprego de quase 36 mil postos de trabalho em empresas jornalísticas nos Estados Unidos, segundo o jornal The New York Times. Mas este número deve ser muito maior porque não inclui profissionais autônomos, uma categoria duramente afetada pela crise nos jornais e revistas.

Os médicos detetives

Aqui no Brasil, lamentavelmente, não temos dados consolidados sobre demissões na imprensa em consequência da pandemia, mas a situação não deve ser muito diferente, o que sinaliza a necessidade de vermos a crise na imprensa local não mais como um problema empresarial mas como uma questão que exige o envolvimento da sociedade. As notícias não podem mais ser orientadas apenas pela quantidade de anúncios que atraem mas sim pelos interesses e necessidades sociais das comunidades onde estão inseridas.

A Covid está nos mostrando que não há solução global para uma pandemia sem informação médica local. Quem defende esta relação é a prestigiada organização não governamental HealthMap, o maior banco de dados do planeta sobre questões de saúde pública. Autumn Gertz, um dos coordenadores do projeto, afirma que o noticiário local é essencial para que a organização consiga identificar epidemias como a do vírus Ebola, que matou quase 12 mil pessoas na África entre 2014 e 2018.

O co-fundador da HealthMap, John Brownstein, disse à revista Scientific American que os “médicos detetives” da organização estão sendo obrigados a trabalhar às cegas por causa da redução no número de jornais locais nos Estados Unidos. Foi este monitoramento que permitiu aos “médicos detetives” da Organização Mundial de Saúde (OMS) a identificação em 2002 dos primeiros casos da pandemia da Síndrome Respiratória Aguda (SARS) na China, a partir de bate-papos pela internet.

O fato dos pesquisadores da saúde pública estarem mais preocupados que os jornalistas com a ausência de notícias locais no caso da Covid-19, indica também uma percepção diferenciada sobre o papel que os dados passaram a ter na tomada de decisões importantes. A coleta, organização e interpretação de dados constituem hoje uma atividade chave na produção de conhecimentos científicos e socioeconômicos, enquanto o jornalismo ainda não se deu conta do enorme potencial informativo que tem nas mãos ao lidar com notícias locais.

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O Consórcio de Imprensa criado por empresas jornalísticas do Rio de Janeiro e São Paulo para a cobertura da Covid-19 é um passo positivo na direção da “datificação” do jornalismo brasileiro. Mas a iniciativa precisa agora ser levada ao âmbito local para que os dados possam gerar medidas de prevenção antes que uma doença se transforme em pandemia.

Publicado originalmente na plataforma Medium.

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1 comentário

  1. Nassif, Mariana e Lourdes, ofereço-me para ser uma sucursal do GGN aqui em uma das regiões de Campo Grande/MS. Além da preocupação com a covid, existe o vírus do ultra conservadorismo que reina aqui no pequeno condado.

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